Quer trabalhar com perfumes? Conheça as profissões desse universo

Muito além do perfumista, a indústria de fragrâncias está em crescimento no país.

O Brasil é um dos maiores mercados consumidores de perfumes e, segundo a Abihpec (Associação Brasileira de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos), as oportunidades de trabalho no setor de higiene e beleza tiveram um crescimento de 101,8% nos últimos 10 anos.

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O leque de profissões nesta área vai muito além do perfumista, que cria as fragrâncias de fato. Marketing, Comercial, Pesquisa e Desenvolvimento das indústrias, empreendedorismo e até mesmo empregos menos divulgados como avaliador olfatista são opções no mundo dos perfumes. Alessandra Tucci, sócia-fundadora da Perfumaria Paralela, já trabalhou no ramo e contou para gente sobre o dia a dia deste profissional.

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Como você descobriu e se interessou pela profissão de avaliadora olfativa?

Na verdade, apesar de sempre ter gostado muito de perfumes, nunca tinha sonhado em trabalhar nessa área.  Eu não imaginava que esse universo existisse, foi uma descoberta e tanto. Minha formação é em Administração de Empresas e eu tinha acabado de retornar de um ano de estudos em Nova York, em 1992, quando uma amiga que atuava na área me perguntou se eu gostaria de participar de um processo para uma vaga de assistente de avaliação olfativa na Firmenich no Brasil. A Firmenich tem sede na Suíça e é uma das maiores casas de fragrância do mundo. Eu não fazia ideia que tal profissão existisse, um mês depois de voltar ao Brasil, eu começava a atuar na indústria apaixonada pela profissão.

Como foi a preparação para entrar neste mercado?

A perfumaria tem uma linguagem própria e aprendê-la envolve um processo que combina aprendizado intelectual e sensorial, pois há experimentação e memorização contínua de ingredientes e produtos da perfumaria. Aprender sobre perfumes equivale a aprender um novo idioma, um instrumento musical ou sobre vinhos.

Eu comecei minha carreira participando das avaliações de outras profissionais mais experientes, que atuavam em diferentes segmentos de mercado, isso me deu um olhar 360 graus de categorias como cosméticos, perfumaria fina, produtos de limpeza da casa e de cuidado e limpeza das roupas, dessa forma pude vivenciar as fragrâncias em diferentes formulações e contextos, com níveis de desafios técnicos diferentes, já que no Brasil na década de 1990 não existiam escolas de perfumaria para buscarmos este aprendizado, ele era construído dentro das empresas chamadas Casas de Fragrância. Essas empresas se responsabilizam pelo treinamento de suas equipes técnicas, existem programas de treinamento no Brasil, que são complementados em Nova York, Paris e Genebra.

Aliás, foi exatamente por perceber que não havia possibilidades para as pessoas aprenderem sobre esse segmento, caso não estivessem já trabalhando no setor, é que decidi fundar a Perfumaria Paralela em 2012, em parceria com a renomada escola francesa de perfumaria Cinquième Sens. E ainda hoje a Paralela é a única escola de perfumaria do Brasil, por isso, a equipe de professores, formada por profissionais com grande experiência nas diversas áreas da perfumaria, compartilham o conhecimento tanto com quem já é profissional e precisa se capacitar quanto com quem quer começar nessa área. Em 2017, vamos ter a terceira edição de nosso curso Formação em Perfumaria, é um curso com duração de um ano, amplo e englobando conceitos teóricos e práticos. Além disso, temos o curso específico Avaliadores Olfativos.

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O que é mais importante para um avaliador olfativo?

Aprender a avaliar os produtos simulando o uso do consumidor. Vamos usar amaciantes como exemplo: no momento em que trabalhamos com o perfumista, que irá criar novas fragrâncias para amaciantes, ambos levam em consideração a forma de uso do consumidor, as fases que ele tem contato com a fragrância, que, no caso do amaciante, seria no frasco do produto no supermercado, no momento que coloca o amaciante na máquina, no molho, na roupa sendo pendurada no varal e, por fim, na roupa seca.

Já na perfumaria fina, categoria na qual me especializei ao longo da minha carreira, você aprende a avaliar a fragrância na fita olfativa (papéis inodoros e altamente absorventes, tipo mata borrão) e apreciar seu impacto inicial, depois acompanhar a fragrância na fita ao longo das horas para perceber como a evaporação se comporta, inclusive, é importante avaliar após muitas horas para checar a durabilidade das fragrâncias, atributo muito valorizado pelos brasileiros.

Como é o dia a dia de uma pessoa que trabalha com isso?

É importante diferenciar que o avaliador olfativo não cria o perfume, quem faz isso é o perfumista. Ele analisa a criação do perfumista, identificando, por exemplo, se a fragrância é ideal para determinado perfil de consumidores e se está alinhada com a marca. Ele é um gerente de projetos, com habilidades olfativas superdesenvolvidas, além da capacidade de comunicação e organização. Gosto de compará-lo a um ator, já que a cada projeto ele deve pesquisar sobre a marca que irá desenvolver e deve incorporá-la uma vez que ele não desenvolve perfumes com os perfumistas para eles mesmos, mas sim, para as várias marcas com as quais trabalha, cada uma com suas caraterísticas próprias e que são destinadas a consumidores com preferências próprias.

Existem dois ramos para seguir na profissão: atuar nas tradicionais casas de fragrâncias, Firmenich, IFF, Givaudan, Symrise entre outras, sendo responsável por desenvolver fragrâncias para todos os tipos de produtos perfumados que usamos ao longo do dia. Ou é possível atuar em empresas de bens de consumo, como Unilever, P&G, O Boticário, Natura, Avon, Estée Lauder, cada uma possui um ou um pequeno grupo de especialistas em fragrâncias que conduzem as estratégias olfativas de suas marcas. Esses especialistas trabalham em parceria com os avaliadores das Casas de Fragrâncias, que na realidade são fornecedoras de fragrâncias dessas marcas.

O ponto alto da profissão é a rotina de desenvolvimento de fragrâncias com o perfumista e a interação com o cliente/marca que “encomenda” a fragrância. O avaliador é justamente esta ponte, é quem traduz o pedido do cliente (marca/ indústria) para o perfumista, é quem conhece a marca e o mercado para orientar o trabalho criativo do perfumista, para que esse crie a fragrância alinhada com a marca e com o briefing. Ao mesmo tempo, normalmente é o avaliador quem apresenta as fragrâncias ao cliente, explica e demonstra as criações dos vários perfumistas que trabalham em um projeto.

Quais são as habilidades esperadas de um avaliador?

Domínio de idiomas, capacidade de adaptação, boa comunicação, conhecimento técnico associado à forte capacidade de argumentação, disponibilidade para viajar, curiosidade.

Tem como treinar estas habilidades?

Claro, qualquer pessoa pode trabalhar neste mercado. É claro que algumas apresentam um dom mais natural do que outras em relação ao olfato, mas todos podem ser treinados. Além de treinar o olfato e adquirir conhecimento sobre perfumes para se tornar um avaliador olfativo, essas mesmas habilidades são importantes para profissionais que atuam no setor de perfumaria em diversas áreas. Por ser um setor técnico, profissionais de atendimento comercial, marketing, pesquisa de mercado, pesquisa e desenvolvimento, que entendam de perfumaria são muito procurados e valorizados.

Há espaço neste mercado aqui no Brasil?

Sim, o mercado brasileiro é imenso. Segundo a Abihpec (Associação Brasileira de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos), o Brasil é o quarto maior mercado consumidor do mundo do setor que engloba higiene, perfumaria e cosméticos e as oportunidades de trabalho nesse segmento tiveram um crescimento de 101,8% nos últimos 10 anos. Dentro desse mercado, em perfumaria fina, por exemplo, o Brasil está na liderança, e em cabelos é o segundo mercado mundial. Além disso, o brasileiro tem uma relação com a fragrância diferente de outras culturas – valoriza muito os cheiros. O atributo fragrância em categorias como shampoo, amaciantes, sabonetes, está entre o primeiro ou segundo atributo na decisão da compra. Isso demonstra a importância da fragrância nesse enorme mercado e em todas as categorias. Vale destacar ainda que o mercado brasileiro de perfumes movimentou 5,7 bilhões de dólares no ano passado, segundo a Euromonitor, e cerca de 90% dos produtos consumidos são nacionais. Isso significa que muito é produzido aqui.  Dentro desse cenário, costuma haver grande demanda pelo avaliador olfativo, cujo salário inicial está em torno de R$ 5 mil, podendo chegar até R$ 15 mil, no caso de profissionais experientes, com anos de atuação e com um portfólio de sucessos em seu currículo pessoal.

Qual é uma boa dica para quem quer seguir esta profissão?

Capacite-se! Existem ainda poucos profissionais com conhecimento formal no Brasil, por isso, quem estiver preparado com certeza terá grandes chances de sucesso na área. Para quem ainda não se decidiu e quer ter o primeiro contato com a área, recomendo cursos de iniciação, na Perfumaria Paralela, por exemplo, oferecemos esses cursos o ano todo. Para quem já se decidiu, recomendo cursos mais amplos, como o nosso anual de Formação em Perfumaria ou Avaliador Olfativo. Vale lembrar também que, como em qualquer outra profissão, o networking é muito importante, e, mais uma vantagem dos cursos de capacitação é poder ampliar a rede de contatos com profissionais da área.

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Conheça mais sobre outras profissões na área de perfumaria!

Perfumista

A maior honra na carreira de alguém que segue esta área é receber o título de “Mestre Perfumista”. Existem apenas 25 pessoas no mundo que podem ser chamadas assim e uma delas é o brasileiro Paulo Fonseca. Também graduado em Engenharia Química, já desenvolveu centenas de fórmulas para todos os setores da indústria cosmética desde perfumaria fina, fragrâncias para cosméticos e para produtos de cuidado para roupas, como sabões em pó e amaciantes. Ou seja, o dia a dia desta profissão vai muito além de apenas frascos de perfume.

Marketing

A equipe de marketing de uma marca de fragrâncias é responsável por entender o que o mercado procura e desenvolver produtos que casem com isso. Erika Dauch faz parte do time de Marketing de Desenvolvimento Global de Fragrâncias da Avon e contou um pouco para gente sobre o seu dia a dia: “O meu trabalho é identificar as oportunidades de crescimento das marcas, incluindo criação e desenvolvimento de novos produtos, novos cheiros, como também dar suporte às marcas existentes para que elas se renovem e continuem com bom desempenho no mercado”.

Empreendedorismo

Criar o seu próprio negócio no meio também é uma opção na perfumaria. A engenheira civil Cibele Paiva sempre se interessou no assunto, mas só investiu em um negócio na área após perceber sucesso dos kits com difusores e sabonetes líquidos que ela mesma criou para presentear amigos e familiares no Natal. “Tinha acabado de sair de uma grande empresa onde trabalhei na área de Engenharia por 18 anos. Vi nos kits uma oportunidade para ter uma renda naquele momento, fiz então 800 kits. Vendi todos e decidi mudar de área, ser empreendedora e trabalhar com perfumaria”, conta.

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