Guido Palau fala com exclusividade à ELLE

O hairstylist defende a beleza do incomum em bate-papo com a editora de beleza Carolina Vasone.

A entrevista estava marcada em um hotel cinco estrelas de Paris. Mas Guido Palau resolveu, na última hora, que faria com as próprias mãos todos os cabelos de um desfile que aconteceria pouco depois, em uma manhã de fashion week parisiense. E não é em todo show que isso acontece. Por volta das 8, portanto, lá estava ele no subsolo do Palais de Tokyo, arrumando fio por fio o topete boyish no mood 50’s do desfile da marca japonesa Sacai. “Foi melhor termos conversado no backstage, não? Assim você também pôde me ver trabalhando”, disse, ao fim da entrevista exclusiva para a ELLE, o lançador das principais tendências de cabelo dos últimos 20 anos (em mais de 30 de carreira).

Durante o papo, o fotógrafo David Sims, cuja parceria com Guido produziu imagens transformadoras na moda, se juntou inesperadamente a nós. Ingleses, Guido e David formam a dupla na fotografa de moda responsável, nos anos 1990, por uma virada na estética da beleza: dos looks irretocáveis das supermodelos ao estilo das garotas da rua, aquelas com cabelos despenteados e até ensebados e atitude de gente comum. Também britânica e logo adicionada ao grupo de talentosos amigos, a modelo Kate Moss representava essa nova imagem, espalhada para o mundo em uma campanha da Calvin Klein de 1993, penteada – ou perfeitamente despenteada – por Guido e clicada por David.

Guido Palau

Peruca de Guido Palau clicado por David Sims para o livro Hair. (David Sims para o livro Hair/Reprodução)

“Não cresci na área sofisticada de Londres. Meu ideal de beleza não eram as estrelas de Hollywood. Era, sei lá, a Marsha Hunt (atriz e cantora negra britânica) e as capas de discos”, diz o hairstylist. “O que quero é criar algo que faça as pessoas pararem e pensarem: o que é isso? Quando a beleza é alternativa, você se questiona. Por que isso é bom, por que é ruim, por que funciona ou não?” Já a beleza clássica é, para ele, um terreno sem surpresas. “Gosto dela, mas trata-se apenas de uma entre várias ideias.” As duas fotos que abrem esta reportagem, do seu livro Hair (Rizzoli, 2014, sem edição brasileira), fotografado por David, dão a dimensão de sua proposta. Guido tem propriedade para falar de diversidade e de renovação de estilo. Basta mencionar que são dele os penteados “de bonita” de todas as supermodelos do icônico videoclipe Freedom (1990), de George Michael. O cabeleireiro o considera um grande marco de sua carreira – e de fato foi. Mas ele também criou muitos dos cabelos mais transgressores e estranhos dos desfiles de Alexander McQueen, com quem Guido afirma ter aprendido a enxergar o lado mais “histórico, fetichista e subversivo” da beleza.

O número de campanhas e desfiles para marcas como Prada, Lanvin, Louis Vuitton, McQueen, Givenchy e Céline é incontável. Com tanto tempo de carreira – há dez anos, acumula o cargo de diretor criativo global da Redken –, poderia ter perdido o talento de surpreender. Ou mesmo de causar polêmicas, como a acusação de apropriação cultural no caso dos dreadlocks que usou no último desfile de Marc Jacobs. Mas não tem sido assim. “Estou nesse business há muito tempo, então eu mesmo me coloco pressão a cada show: tudo tem que ser incrível. Sinto que cada novo desfile será o meu julgamento.”

Dos cabelos esculturais e conceituais à bangunça geral, passando pelos penteados tradicionais, o que Guido parece defender, a cada novo trabalho, é a vitória de uma visão mais abrangente sobre o belo. “Não é preciso ter tantas regras assim: dá para fazer o bad bob, o good bob, inclusive numa mesma temporada, como fiz com Alexander Wang e Prada. Temos que nos livrar desse conceito clássico de beleza.”

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