O que um cabelo raspado significa

Nossa editora Vivian Whiteman discute os assuntos mais quentes do momento.

Era mais ou menos 1997 quando eu vi Robin Tunney raspar o cabelo em uma cena do filme teen cult Empire Records. Ela interpretava uma moça chamada Debra, que estava passando por uma crise feia, e o corte vinha como uma tentativa de recomeço. Achei muito lindo e forte. Na semana seguinte, fui ao cabeleireiro, já que também estava precisando de um restart. Saí com um corte curto careta e ridículo: o cabeleireiro não quis raspar de jeito nenhum. Disse que eu me arrependeria, que era feio e nada feminino. Adolescente, acabei desistindo, contrariada, apesar dos exemplos que eu adorava, de Dolores O’Riordan, do Cranberries, à heroína de HQ Tank Girl.

Nos últimos meses, o look careca reapareceu com força na moda. Nas passarelas, modelos como Ruth Bell e a brasileira Katia Andre aderiram ao look. Para um grupo crescente de meninas, a cabeça quase lisa passou a ser uma opção um pouco menos polêmica. Um pouco.

Desde que nasce, a mulher é cobrada pela aparência de seu cabelo. Até mesmo bebês de berço ouvem comentários sobre a dificuldade de botar uma fitinha: “Coitada. Logo cresce”. Ainda bem que não entendem.

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A patrulha segue idade acima, o cabelo nunca está bom o suficiente. As que nascem com fios lisos e sedosos largam na frente na preferência popular. E assim permanecem – infelizmente para todas as demais. E, apesar de todas as lutas e mudanças recentes, a regra dominante ainda é essa.

A infinidade de produtos, as frases aparentemente inofensivas, do tipo “os cabelos são a moldura do rosto”, as cobranças que não param nunca. Para as meninas negras, o calvário é ainda pior. Xingamentos grotescos, racismo, machismo. Haja mães, pais e amigos fortes para segurar a onda, para colocar os ignorantes no lugar deles.

Dentro desse contexto, raspar o cabelo por escolha própria pode ser libertador. Pode ser um chega, um basta, um “me deixe em paz”. Um rosto sem moldura, uma mulher sem esse traço “obrigatório” de uma feminilidade que não passa de clichê. Uma heroína careca, como Charlize Teron em Mad Max. Um banho que se resolve com uma gotinha de xampu.

Na moda, o look careca também tem a ver com a onda do minimalismo, de uma roupa e uma vida que exijam menos manutenção e ofereçam mais tempo livre. Também pode ser ligado às inspirações grunge e punk, que estão de volta, e até a certo mood ritual de desapego.

As tops de cabelo raspado têm uma imagem forte e, olhando para elas, temos a certeza de que estão dizendo algo com sua imagem. Algo importante sobre como o feminino e a beleza não têm a ver com tamanho e textura de fios. E que a diversidade também significa amor pelo que se é, da cabeça aos pés.

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