As meninas que estão mudando o mundo com sua arte e cabelos afro

Elas se tornaram símbolo de resistência e representatividade na música e na moda.

Seis meses separam os discos Lemonade, da cantora Beyoncé, e A Seat at the Table, de Solange Knowles, sua irmã caçula, que acaba de ser lançado. Ambos têm o racismo e o espaço que é dado à mulher negra na sociedade como temas centrais. Na faixa Don’t Touch My Hair, Solange fala sobre as pessoas que já tentaram mexer com o seu penteado: “Não toque em meu cabelo/ Não toque em minha alma”, ela canta, lembrando o simbolismo que ele carrega para o movimento negro.

A bandeira de manter os cabelos naturais, ou com penteados afro, vem especialmente da década de 1960, com o Black Is Beautiful, um movimento dos negros norte-americanos que encorajava homens e mulheres a aceitar seus traços naturais. Dizer não ao padrão do cabelo liso passou a ser visto também como um ato político. Hoje, a ideia ganha mais força com o ativismo online. Encabeçada por artistas, influenciadoras e youtubers, a militância nas redes aparece em assuntos como beleza, consumo, representatividade e direitos humanos.

Jourdun Dunn

A top Jourdun Dunn foi a nossa capa de outubro. Esta foi uma das primeiras vezes que ela foi clicada com seu cabelo cacheado. (Mark Abrahams/ELLE)

Um exemplo é o canal do YouTube Afros e Afins, criado pela estudante paulistana Nátaly Neri, que conta com mais de 100 mil inscritos. “Sem referências na grande mídia, criamos nosso próprio cenário”, analisa a produtora cultural paulista Ísis Vergílio. Beyoncé, com seu título de rainha do pop, tem colaborado para a abertura desse espaço não só por meio de seu discurso empoderador como também ao investir em novos artistas. Em 2008, ela abriu o selo independente Parkwood Entertainment para lançar suas apostas musicais.

É o caso das norte-americanas Chloe e Halle, de 18 e 20 anos, respectivamente, que somam mais de 12 milhões de views no YouTube em covers de músicas como Pretty Hurts, de Queen B. Este ano, elas lançaram o EP Sugar Symphony, além de fazer ponta em Lemonade e abrir a turnê europeia da estrela do pop. Já a inglesa Nao seguiu o caminho do “faça você mesmo” e lançou este ano seu primeiro álbum pela sua própria gravadora, a Little Talk Records. A moda, sempre de olho nos fenômenos e movimentos musicais, não está deixando essas meninas passarem batido.

Magá Moura

Magá Moura posa para editorial da edição de março de 2015 da ELLE Brasil. (Gustavo Lacerda/ELLE)

Nicolas Ghesquière, diretor criativo da Louis Vuitton, aproximou Chloe e Halle do squad da label. Nessa temporada, elas estavam na primeira fila do desfile de verão 2017. Assim como a cantora e ativista Willow Smith, que este ano virou garota-propaganda da Chanel. “As marcas e o mainstream se apropriam de nossas pautas. Mas, ao mesmo tempo, ganhamos visibilidade com isso. Pessoas que se sentiam invisíveis se veem representadas”, diz a filósofa paulista Djamila Ribeiro, voz relevante quando o assunto é representatividade.

O cabelo é nosso

Por aqui, mulheres negras têm cada vez mais abraçado essa bandeira. Um dos episódios da série sobre beleza brasileira Behind Brazil’s Extreme Beauty Addiction, lançado este semestre pela revista britânica i-D, tem como tema esse movimento pela aceitação do cabelo natural. A blogueira Magá Moura, conhecida por suas extensões coloridas, inaugurou há três meses uma loja online com produtos importados para cabelo. “A formação da minha identidade foi trilhada pela estética ao valorizar o meu cabelo crespo. Perdi o medo de ser quem eu sou”, diz a paulistana.

Entre os mimos à venda no site está a extensão Jumbo Hair, semelhante ao cabelo das gêmeas norte-americanas Ciprianna Quann e TK Wonder, habitués das semanas de moda lá fora e digital influencers. Moda e música são terrenos férteis para promover a autoaceitação. A cantora paulista Tássia Reis lembra que, quando criança, sentia falta de artistas negras em quem pudesse se inspirar. “A filha de uma amiga foi em um show meu e vi como ela olhavapara o meu cabelo. Quando eu tinha 10 anos, não havia uma artista negra que se parecesse comigo. A falta de referências faz com que nossa identidade seja deixada de lado”, explica.

Tassia Reis

Tássia Reis é a rapper do momento. (Tássia Reis/Divulgação)

Assim como Tássia, as rappers paulistanas Karol Conka e Lay também fazem parte da militância. “Vejo a parte estética como política porque, se sou atacada na internet ou na rua, é sempre pela minha aparência. É por isso que vou enaltecer esse fator”, diz Tássia, que recentemente participou de uma campanha de beleza da Avon. A cantora carioca Iza, que se apresentou no ELLE Fashion Preview, também já teve a sensação de ter um visual fora do padrão. “Achava que meu cabelo não estava certo e eu tinha que mudar.” Até os 21 anos, ela mantinha o cabelo alisado, quando descobriu um novo caminho. “Ao ver várias meninas na internet com trançados e cabelo natural, decidi parar. Agora ele está crescendo por debaixo das tranças. Logo vou ficar com um afro maravilhoso”, diz.

Mesma coisa com TK Wonder, que recentemente postou em sua conta de Instagram: “Muitas vezes eu puxei meu cabelo para trás para evitar que ele chamasse a atenção. Mas chegou um momento em que me perguntei: ‘Por que estava anulando algo que gosto, e a mim mesma, por causa de estereótipos ou julgamentos?”

Narradoras de suas próprias trajetórias, essas mulheres transitam pela moda, música e cultura pop sem esquecer o passado. “Passamos por um processo histórico desumano, a escravidão, que ainda é muito recente. Nossa identidade não pode mais ser tirada de nós”, diz Ísis Vergílio, que é amiga de Tássia Reis desde os 14 anos. “Sinto as pessoas me perguntando se fiz um disco feminista ou que fala sobre a questão da negritude. Mas a verdade é que falo sobre o que vivo”, diz a paulista. Na faixa Ouça-me, de seu segundo álbum, ela avisa: “A revolução será crespa”. Se depender dessas meninas, certamente será.

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