As mulheres inspiradoras que fizeram o festival da Rider, no Rio

O evento aconteceu em finais de semana de março e abril e teve como um dos maiores destaques a participação feminina na construção do festival.

“Em todas as lideranças nós tivemos a presença de mulheres e nós percebemos que quando todas se juntam uma mágica acontece”, resume Lara de Azevedo, 32, que, ao lado de Amnah Asad, 34, toca a Noix, plataforma carioca de criativos que foi chamada para estruturar um festival público, gratuito e colaborativo promovido pela Rider, no Rio de Janeiro.

Com o nome #DáPraFazer, o evento aconteceu nos finais de semana entre 18 de março e 8 de abril, e foi inteiramente construído por coletivos, ou “fazedores”, como a marca passou a chamar. ELLE foi conferir de perto e viu rodas de conversa, cinema ao ar livre, bastante gente estilosa e muita, muita, música boa – até batalha de MC’s aconteceu e ela teve como vencedora uma garota, a Lili (@cachos_cachiados).

Sentir e expressar.

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O festival terminou (boatos de que deve bater ponto em outras capitais nas próximas edições), mas deixou como legado o fomento à ocupação do espaço urbano, o incentivo à movimentação cultural fora do eixo central da cidade e, acima de tudo, a participação feminina como destaque em todos os processos de criação, principalmente nas lideranças.

Como resultado disso, separamos uma pequena lista de garotas inspiradoras que movimentaram a moda, a música e a cultura de uma maneira geral durante esses dias para você colocar já na sua lista de referências.

COLETIVA RAXA

Quem? Jeanne Yepez, 26 anos, uma das fundadoras da Coletiva Raxa e produtora do grupo I Hate Flash.

“Eu sempre trabalhei com cultura, entretenimento e vida noturna, mas tinha várias angústias em relação a como o gênero é experimentado nesses lugares. Esses espaços são geralmente compreendidos como alternativos, diferentes e progressistas, mas, mesmo ali, muitas mulheres ganham menos, sofrem assédios e têm a função precarizada o tempo todo”, conta Jeanne.

Ela se juntou com a amiga e produtora cultural Julia Gameiro e, logo depois, com várias outras DJ’s, fotógrafas e produtoras que tinham experiências parecidas com as delas nesse universo musical. Elas construíram então reuniões e debates para essas questões e montaram uma rede feminina de confiança. “Existe uma máxima feminista clássica de que o pessoal também é político. Uma angústia minha e individual, o fator do gênero na música, eu percebi que também era uma questão coletiva”, explica. Justamente após nove meses de gestação, o grupo nasceu em tempo bem simbólico no festival da Rider.

Como contribuição ao evento, a Raxa ampliou suas conversas ainda mais na rua. Em Madureira, tocou na pauta do empreendedorismo musical e levou como grande destaque Eliane Dias, empresária e produtora do grupo Racionais MC’s. Em Caxias, teve falas sobre a presença de mulheres negras no campo da música e, no Recreio, um papo sobre maternidade com a youtuber Hel Mother.

HEAVY BAILE

Quem? Ana Paula Paulino, 27 anos, empresária e produtora cultural do Heavy Baile.

“Eu explico o Heavy Baile como uma festa, um selo e uma gravadora”, conta a mineira Ana Paula, que mora há dois anos no Rio de Janeiro, e é uma das cabeças do projeto. Ela segue também a carreira de empresária da cantora de funk Mc Carol, uma de suas convidadas para o evento, assim como Tássia Reis.

Sempre no corre🏃

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“Quando fui convidada para fazer o festival eu lembrei que trabalho com mulheres muito fortes. Nos organizamos, fizemos algumas trocas e vimos como cada uma poderia ajudar de maneira diferente. Eu mesma fui pau para toda obra aqui”, brinca Ana. A troca aconteceu e, Mc Carol, por exemplo, fez o show gratuito e divulgou até música nova na festa.

“Além disso, chegamos com uma estrutura que deu visibilidade também para as pessoas locais, onde rolou de fato um intercâmbio de ideias”, continua. “O entretenimento no Rio é ainda muito restrito a regiões como o centro e a zona sul, e conseguir fazer com que mulheres circulassem e se conhecessem foi o maior legado que procuramos deixar”, diz.

MC Carol mandou avisar que o ~palcão~ é todo dela. É o Festival Rider #DáPRAFAZER. Não tem pra ninguém!

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TÁSSIA REIS

Quem? Tássia Reis, 27 anos, cantora.

Se este nome não faz parte da sua lista, está mais do que na hora de inclui-la. Uma das cantoras convidadas a se apresentar no espaço, ela encerrou o evento e falou conosco sobre moda, música e militância:

Como foi a experiência de se apresentar no festival?
Estava acompanhando nas redes, dando aquela stalkeada para ver com que roupa eu ia. E foi muito gostoso fazer o show aqui, na beira da praia, com o povo que colou. Senti que foi uma coisa muito próxima. Geralmente festival tem certa distância e eu achei aqui muito junto.

Você falou da preparação do look, pode contar mais sobre ele?
Essa calça [jeans, rasgada na parte da frente] foi uma amiga minha quem customizou. Ela já era aberta, mas fomos lá e passamos a tesoura nela. Deixamos ainda mais escancarada. Já tinha visto uma calça mais ou menos assim e amei. Eu fiz a minha própria. Estilizei o que já estava estilizado. Na Outra Esfera [turnê de seu último disco] estamos fazendo shows com cores únicas, mas aqui eu vim mais tranquila.

Tássia Reis

O que a moda representa para você? 

A minha mãe é maravilhosa, ela é um grande lacre, destruidora mesmo. E eu sempre gostei de assistir ela se arrumando para ir aos bailes. Ela saía no Carnaval, fazia as fantasias e já customizava calça jeans, rasgava, transformava as coisas. Ela sempre foi closeirona. Entre os irmãos, eu acho que puxei mais ela nesse sentido de querer ser a diferentona e mudar as coisas, customizar, inventar um cabelo, colocar brincos mil. Eu escolhi vários cursos e um deles era moda. Moda eu passei na primeira lista e falei para mim mesma: “demorou”.

Quando eu estudei, vários estereótipos se quebraram na minha cabeça. Eu acho que quando você encontra o conhecimento você tem um caminho. Eu poderia escolher virar uma malucona, louca por tendências, ou quebrar os paradigmas. Eu odiava animal print, por exemplo, achava cafona. Depois eu entendi que cafona é muito relativo. Tendência ou não, é mais importante você se sentir feliz.

Moda tem a ver com comportamento também…

Sim, percebi que moda tinha muito mais a ver com comportamento do que eu imaginava. Foi muito bom para mim porque fez a minha cabeça abrir. E foi quando eu comecei a escrever mais, inclusive. Foi na época da faculdade, em 2010. A minha relação com a moda é para além da estética. Harmonizar as coisas e entender o que as pessoas estão tentando dizer com o que elas estão vestindo.

Eu sempre me senti fortalecida dentro de casa porque meus pais são maravilhosos e são belíssimos. Meu pai sempre falou “você é linda, filha, parece comigo”. Só que fora de casa é outra história, né? A construção da autoestima é diária. Quando eu saí da escola foi melhor.

Fui dando um passo de cada vez, me entendendo, me fortalecendo. A autoestima te resgata e você consegue dizer “tchau boy, próximo – ou não”. O hip-hop e a moda ajudaram a me fortalecer. Comecei a enxergar pessoas parecidas comigo, mulheres negras, por exemplo.

Quais mulheres?
Lauryn Hill, Erikah Badu, Destiny’s Child, Ciara. Por causa da Ciara, por exemplo, eu comecei a dançar aos 14 anos. Mas era muito distante ao mesmo tempo. Tive que me fortalecer com as minhas amigas também. Nós começamos a nos enxergar uma na outra. Hoje a internet também ajuda. Você coloca trança + mulher negra [na pesquisa] e muita coisa bafo aparece. Além de uma dose de coragem. Ser artista também é um fator. Se eu fosse de uma área corporativa talvez eu não tivesse espaço para ter esse cabelo, não pudesse usar essa roupa.

Qual é a importância para você construir uma imagem, uma identidade? Construir essa pessoa, a Tássia Reis? Tem uma questão política?
Eu acredito que meu corpo é político e a minha estética é resistência. Mas, ao mesmo tempo, eu acredito que posso fazer o cabelo que quiser. Esse não é meu, eu comprei [risos]. Ele está curtinho agora. Mudo bastante de cabelo, uma coisa que eu não fazia antes. Nunca tinha pintado o meu cabelo. Quando eu vi a Rihanna em 2010 falei ‘caramba!, que cabelo bafo é esse?’. Pensei se aquilo funcionaria para mim, mas todos os lugares diziam que mulher negra não podia ser ruiva, que para ser ruiva eu precisava ter sardinha.

Lembra que o mundo ia acabar em 2012? O mundo não podia acabar sem eu cortar o meu cabelo. Peguei a referência da Rihanna e decidi pintar. Tinha chegado a minha hora, a vez de ser ruiva. Então pintei de laranja. Faz parte do meu processo de autoestima pegar todas as coisas que me falaram que eu não podia fazer e, se me der vontade, fazer. O afro alaranjado é uma delas. E eu não tenho mais nenhum limite agora.

E você faz um discurso sempre feminista. Como você se envolveu com o tema?
Quando eu decidi fazer o Outra Esfera não pensei em fazer um disco feminista. Eu tenho um posicionamento de feminista negra interseccional, que acredita e entende que as opressões de classe, raça e gênero juntas afetam muito mais as pessoas e de formas diferentes. Que essas opressões juntas são muito sofisticadas e cruéis.

Sabendo disso, eu não tenho como ignorar e não colocar essa questão na minha música. Sendo que é uma música que eu faço refletindo sobre a vida. Em diferentes aspectos eu falo sobre o medo da vida, de coisas que eu poderia fazer, sobre liberdade, sobre o meu jeito de ser. Também falo de relacionamento abusivo, faço uma forte crítica a como a polícia atua nas periferias. Não gosto de dizer que fiz um disco feminista, deixo as pessoas falarem. Acho que isso tem a ver com uma luta e não com meu trabalho, o que eu estou vendendo, o meu CD. É por aí.

Eu, Tássia, não sou palestrante. Acredito nisso e tento passar de alguma forma na música. Djamila Ribeiro, Angela Davis, Bell Hooks, essas são mulheres que estão lá, por nós, defendendo todas as teorias que fazem muito sentido para a gente. Esses são nomes que devemos passar para frente.

 

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