Atrações do Red Bull Music Academy Festival discutem sobre gênero

Evento segue até o dia 11 de junho, em São Paulo

No território homofóbico que é o rap, Mykki Blanco ousou rimar vestido como uma drag queen, ajudando a dar forma ao queer rap, que versa sobre o universo LGBT. O americano é um das principais atrações do Red Bull Academic Music Festival São Paulo (de 2 a 11 de junho), que também recebe Honey Dijon, produtora transexual com trânsito dos clubs a festas de grifes como Balenciaga e Givenchy. Outra bem-vinda atração é Linn da Quebrada, que toma emprestada as batidas do funk para falar, sem meias-palavras, do universo transgênero. Elle conversou com as três:

Mykki Blanco

O rapper é, na verdade, um alter-ego que foi além do esperado. Em 2010, Michael Quattlebaum Jr. se montou como uma drag queen e gravou um vídeo rimando nas ruas de Nova York para um projeto de arte (ele foi estagiário na edição americana da Elle, em seus anos de estudante). O vídeo fez sucesso e deu origem a um dos nomes mais interessantes e transgressores do hip hop atual. Mas como Mykki lembra, ele não queria ser um rapper, mas Yoko Ono, um artista-instalação. “Fiquei conhecido porque criei meu próprio público e meu próprio universo”, diz à Elle. No território homofóbico que é o hip hop, ele ajudou a dar forma ao queer rap, ao lado de Le1f e Zebra Katz. Acabou excursionando com Björk e conquistando fãs como Jean-Paul Gaultier.

Cinco anos depois daquele vídeo, Mykki revelou ser HIV positivo. “Foi importante para mim dividir isso com o mundo para que pudesse começar a ter relações saudáveis, sem medo e sem me esconder.” O rapper, lembra, chegou a achar que seria seria o fim de sua carreira, mas recebeu o apoio dos fãs e lançou, finalmente, depois de EPs e mixtapes, seu disco de estreia (Mykki), em 2016.Às vezes, acho que surpreende as pessoas o fato de eu continuar a crescer e prosperar como artista apesar de ter dito ao mundo que sou HIV positivo. Muitas pessoas têm medo sem entender o que é uma vida com o HIV, mas outras também percebem que isso não define quem sou como artista.” Dia 9, no Cine Paissandu 

(Drew Gurian/Divulgação)

Linn da Quebrada

“Bicha, trans, preta e periférica.” É assim que Linn da Quebrada se define. Ao lado de Liniker e Rico Dalasam, ela engrossa o coro de vozes que colocam a questão do gênero em pauta na música brasileira e ainda discute o universo travesti em suas letras. “Parou entre uns edifícios, mostrou todos os seus orifícios/Ela é diva da sarjeta, o seu corpo é uma ocupação”, canta Linn em “Mulher”. “Não via corpos como o meu presentes nas revistas, nos filmes. Não lia as minhas histórias nos livros. Não me sentia cabendo ali”, lembra à Elle. “Escrevi o que canto porque precisava ouvir aquelas coisas. Não fiz isso pelos outros, fiz para criar coragem, força.” Linn ainda promoveu uma inversão: tomou emprestada as batidas do funk, conhecido por suas letras machistas, para tratar do universo trans.

Ela rebate com outra pergunta quando é questionada sobre o quanto o público está aberto (ou não) a artistas transgêneros hoje em dia. “Acho que a pergunta deveria se estamos nos relacionando com essas pessoas:  você tem amigas travestis?; qual foi a última vez que beijou o rosto ou trocou ideia com uma delas?; com quantos transexuais você trabalha?”, devolve. Dia 9, no Cine Paissandu 

(Erik Voake/Divulgação)

Honey Dijon

A americana tem um belo currículo: cresceu em Chicago, berço da house, era amiga do Frankie Knuckles (pioneiro do gênero, morto em 2014) e foi apadrinhada por Derrick Carter (outro importante nome da vertente eletrônica). Hoje, a DJ/produtora toca de clubes a festas de grifes como Hermès, Balenciaga e Givenchy. Para uma das coleções masculinas da Louis Vuitton, trabalhou a quatro mãos om Giorgio Moroder (um dos arquitetos da disco). Também colaborou com Nile Rodgers (o festejado produtor e nome à frente do Chic) e Nelle Ropper (que trabalhou com Smashing Pumpkins a U2), artistas que, como ela lembra, ajudaram a definir a música do fim do século 20. “Meu set é sempre um reflexo da música que estou obcecada e sons da house e do techno”, conta à Elle. Já suas influências são díspares: vão de Grace Jones a Bauhaus.

Foi durante seus 20 anos que a DJ/produtora iniciou sua transição de gênero. “Ao me mudar de Chicago para Nova York, conheci muitas mulheres trans na cena clubber que refletiam imagens positivas; me encontrei. Isso me deu coragem para começar minha transição. Não estaria onde estou hoje sem a comunidade trans”, lembra à Elle. Dia 3, na Casa das Caldeiras 

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