Vencedores do projeto Melissa Meio-Fio estarão na SP-Arte

Mc Linn da Quebrada, Alexandre Heberte e Tracie e Tasha Okereke expõem trabalhos na SP-Arte.

Não é de hoje que a Melissa, marca das sandálias de plástico que se tornaram hit em diversos momentos da história, se aventura no mundo das artes — seja em parcerias, como o firme relacionamento com os irmãos Campana, ou em verdadeiras galerias, como as de São Paulo e Londres. Durante a feira de arte SP-Arte, que acontece entre os dias 6 e 9 de abril, a marca vai ter seu próprio espaço com três instalações inéditas e distintas dos finalistas do projeto Melissa Meio-Fio.

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Em 2016, durante quatro meses, nove apostas criativas da cidade foram selecionadas para desenvolverem um projeto que se relacionasse com a realidade deles e que ampliasse o debate com o restante das pessoas. Entre os finalistas estão o tecelão Alexandre Heberte, as ativistas Tracie e Tasha Okereke e a artista Mc Linn da Quebrada. Os selecionados apresentarão os projetos Trama SP, MPIF (Mulheres Pretas Independentes da Favela) e BlasFêmea, respectivamente. “A SP-Arte pareceu ser uma grande oportunidade para mostrarmos esses trabalhos ​a​ um público especializado, dando assim ​mais ​visibilidade e chancela para criações ​em ​ que acreditamos muito. Além disso,​ apresentaremos na feira um conteúdo inédito ​​produzido pelos três vencedores ​​que mostra a potência do corpo como objeto transformador fora do eixo central da cidade de São Paulo”, conta Cassio Prates, um dos porta-vozes da Melissa. Fique a seguir com um papo com os três vencedores:  

Alexandre Heberte

Tecelão, apresentará o projeto Trama SP, que consiste em 33 objetos têxteis.

(Melissa/Divulgação)

 O que mais gostou ao participar do Melissa Meio-fio?

Na primeira etapa do projeto, aproveitei ao máximo a oportunidade para apresentar o universo da Arte da Tecelagem. Gostei de ter conhecido e convivido com os demais Conectores e Refletores. Quando recebi o resultado que o Trama SP havia sido um dos projetos finalistas, por votação deles, fiquei honrado. Fora isso, o projeto possibilita me entrelaçar com a cidade, andar nela, indo aos seus centros e extremos. Conheci tantas pessoas, do Jardim Romano ao Capão Redondo.Esse processo de ir aos lugares, conhecidos e desconhecidos, montar o tear, urdir, tecer, conviver no mundo ao ar livre, isso é o que me interessa. No final, é difícil eleger o que mais gostei.  Acho que é o aprendizado de viver em atividade e em grupo.

De onde surgiu a inspiração para o projeto que será apresentado?

Na minha mente vieram questionamentos: o que leva alguém que mora em São Miguel Paulista sair de casa e ir até o Capão Redondo (dois bairros extremos)? Um amor? Trabalho? Não fazemos turismo pela cidade e muitas pessoas não sabem andar na cidade. Ou não saem da sua região. Desconhecem que estamos cercados de nomes e referências que nos conectam o tempo todo com sua história e sua formação… O tear me possibilidade avançar e cruzar fronteiras. A Trama SP trata de ampliar minha relação com a cidade e, de alguma maneira, agradecer e retribuir a acolhida.

Como você o idealizou e concretizou?

Desde o dia 24 de janeiro tenho realizado as ações Trama SP nas ruas. Cada ação dura aproximadamente seis horas. Em cada lugar, exerço o ato performativo de tecer, de tramar e de urdir. Cada tecido representa as sensações e impressões apreendidas por mim daquele local. A metodologia é simples: levo instrumentos para tecer. Monto tudo e teço naquele lugar. Quando as pessoas parar para perguntar o que estou fazendo ali é o momento em que se estabelecem relações espontâneas. As informações que coletei sobre o lugar acabam reverberando na forma tecida de cada bairro.

Como ele se relaciona com sua própria vivência?

Sempre pensei que uma das grandes escolas da vida é poder viajar. Poder ampliar meu “mapa cognitivo”, com a cidade, significa ampliar conhecimento e reconhecimento que faço parte dela como membro ativo e atuante (do meu jeito). As ações exigem preparo físico e mental, para estar exposto, na rua. Quero dizer que você não pode chegar de qualquer jeito. E, para chegar da maneira correta, você precisa se preparar, de preferência com verdade de intenções. Encaro o Trama SP como uma grande viagem pela minha cidade, senso do que sou, demonstrando o que melhor sei fazer: tecidos e objetos têxteis.

Mc Linn da Qubrada

MC e artista performática, exibirá o vídeo BlasFêmea, junto de fotos do processo.

(Melissa/Divulgação)

Como descrever o BlasFêmea?

O projeto surgiu da minha experiência pois estou falando de mim. Fala de mulheridades, do feminino, independente do corpo em que esteja localizado. Fala do corpo, do sagrado e do profano. BlasFêmea não é ficção. É fricção.

Quais são suas principais referências criativas (de arte, música, moda)?

Minhas principais referências criativas vêm da rua. São extraordinariamente ordinárias. Vem das mulheres com quem cresci. São as travestis, mulheres trans, a minha mãe, e outras tantas mulheres que pude observar a força e resistência que tiveram que ter para se manterem vivas. Isso pra mim é arte. Arte, para mim, é a força de criar sobre sua própria existência. E quando eu penso então de onde vem minhas referências, não consigo pensar em outra coisa, se não dos lugares onde estive. Das quebradas em que me meti. Vem, por exemplo, de Dzi Croquetes, Lacraia, Jorge Lafond, Claudia Wonder, Leonilson, Racionais, Sabotage, Deize Tigrona…

 Como você idealizou e realizou o projeto?

Idealizei meu projeto enquanto vídeo. E principalmente como processo. Como experimento. E independente do resultado final. Para mim, o processo foi transformador. Com certeza sou outra pois aprendi muito. E o mais interessante para mim, em todas as ações que executo, é justamente me perder. Quando inicio um projeto, sei que minhas ideias são apenas um ponto de partida. Como uma passagem pra algum lugar que não sei exatamente onde vai dar. Minhas idealizações vêm da incerteza. Principalmente porque nesse trabalho tive a oportunidade de trabalhar com muitas outras pessoas. E assim, o processo vai ficando mais rico e interessante. Porque somamos ideias e acabamos chegando em lugares novos e inesperados. 

Qual foi a última coisa criativa que você se lembra de ter visto e gostado muito?

O filme Moonlight. Achei inspirador. Intimamente sutil e violento. Me reconheci e fui além de mim. 

Tracie e Tasha Okereke

As gêmeas são estilistas, ativistas e agitadoras da cena cultural. Levam seu MPIF (Mulheres Pretas Independentes da Favela) em forma de desfile-manifesto documentado em vídeo e fotos.

(Melissa/Divulgação)

Quais são as raízes do MPIF?

Nossa principal referência é nosso senso coletivo. Nossa intenção é fazer o black money, que nada mais é do que um império preto. O dinheiro do preto voltar para o preto. Nada de ser gerente, queremos ser donos. Prince, Snoop Dog, Tupac, Diana Ross, Isley Brothers e The Whispers são grandes referências.

Como a moda apareceu na vida de vocês?

Foi orgânico, porque a moda sempre existiu nas nossas vidas, só que ela não era considerada parte da moda o suficiente. Nossa relação com a moda hoje é política, é transbordar tudo o que somos. A maior referência de moda que temos é de nossa quebrada, continuamos as mesmas de adolescentes, mudamos as roupas de acordo do humor e das inspirações.

Como vocês desenvolveram o projeto?

O projeto, assim como tudo que fazemos, foi idealizado e realizado a partir da nossa vivência. Pensado e desenvolvido para todas as quebradas.Temos muitas outras coisas em vista, ligados aos vários tipos de arte.

Qual foi a última coisa criativa que vocês se lembram de ter gostado muito?

Hoje de manhã, quando nós estávamos nos arrumando e olhamos uma para a outra.

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