Laura Wrona conta sobre seu novo disco e seu mundo entre zumbidos

As abelhas são o ponto chave do novo disco-livro de Laura Wrona, Cosmocolmeia.

Laura Wrona

Depois do lançar seu primeiro disco, R.H. Volcano (2012), a multi artista Laura Wrona partiu para um universo oposto ao da sua tão conhecida capital paulista e de tudo o que já havia vivenciado até então. Fez as malas e mudou-se para a bucólica cidade de Cunha. O motivo? Abelhas. Lá ela produziu seu segundo disco, Cosmocolmeia, um trabalho duplo: o álbum vem acompanhado de um livro de fotografias tiradas durante seu processo de introspecção, onde viveu acompanhada dos pequenos insetos polinizadores, sua obsessão. Apesar de o tema permear ao redor das colmeias, ela conta à ELLE que as letras não tratam apenas sobre o assunto, poder feminino e natureza também são temas abordados pela artista. O lançamento será no SESC Belenzinho dia 18 de março.

Em que momento e como surgiu esse interesse profundo pelo mundo das abelhas?

Costumo dizer que foi a partir de um sonho vívido com pessoas-abelhas e que a partir daí minha atenção se voltou ao assunto. Descobri que existe uma prática espiritual na apicultura, em países com predominância de espécies mais dóceis que a africanizada, que é a abelha comum que temos aqui no Brasil. Na “Sacred Beekeeping” (apicultura sagrada) são trabalhados arquétipos do feminino relacionados à fertilidade e ao amor: Demeter, Afrodite e outras figuras mitológicas que traziam referências às abelhas em seus simbolismos.  No antigo Egito, por exemplo, o mel tinha papel de destaque em rituais e também como alimento, sendo inclusive usado nos processos de mumificação.

Em um cenário bucólico como Cunha, como foi o processo fotográfico?

Quando digo que fui até lá por causa das abelhas, é a verdade mesmo. Não tinha casa ou sítio de família na cidade, nada do gênero. Havia estado na cidade há uns cinco anos, e já nessa primeira ida notei que a produção de mel era um dos pontos fortes da economia local. Então eu cheguei com um objetivo claro e perguntava aos moradores se conheciam produtores que pudessem me receber. Em outras ocasiões, eu mesma anotava o contato que pegava nos rótulos e ligava. Geralmente as pessoas estranhavam, pois era um pouco insólito, tanto o pedido quanto a abordagem. Em uma situação, fui voluntária por alguns dias em uma comunidade espiritualista para poder ter acesso aos apiários. Esses afazeres guiavam minha rotina, assim como a pré-produção do disco, no estúdio caseiro que montei na edícula onde morei.

Cosmocolmeia é o resultado de um trabalho múltiplo: disco e livro. Seria a fusão de dois universos complementares?

Acredito que um serve de suporte ao outro. A inspiração do nome veio inclusive por causa da flor Cosmo, mais que o cosmo-universo. Foi uma surpresa que tive quando me deparei com uma foto em um livro sobre o tema, e a legenda dizia “abelha visitando o cosmos”, achei uma frase cheia de possibilidades poéticas. Comparo um pouco o fazer criativo ao trabalho da abelha, que visita diversas fontes em busca de pólen e néctar e sintetiza esse material internamente, transformando no alimento final. Sinto que faço isso quando busco inspiração nas conversas com os apicultores, nas imagens do processo, nos diversos artistas que me influenciam musicalmente… Tudo colabora na materialização do projeto. Já o livro tem um lado mais documental, como um diário de processo.

Imagem que integra o projeto Cosmocolmeia

(Divulgação/Divulgação)

Multi artista: designer, fotógrafa, produtora e compositora. Ao contrário do trabalho das abelhas, sempre em coletivo, a concepção de um trabalho com tantas funções individuais acaba sendo muito mais autoral?

Sabe que nessas pesquisas informais sobre abelhas, acabei descobrindo que a maioria das espécies é solitária? As fêmeas constroem individualmente seus ninhos e fazem todo o trabalho… Depois dessa descoberta, as possíveis metáforas envolvendo este inseto se expandiram, pois no meu caso realmente o trabalho autoral supera o coletivo. Toda a produção executiva e concepção gráfica dos meus trabalhos eu mesma faço, até por ser um caminho natural, como um pensamento som/imagem. No entanto, nem todas as ideias realizo sozinha e por vezes recorro aos amigos e músicos talentosos que aí sim agregam (e muito) na colmeia. O disco foi produzido em parceria com o músico Thiago Nassif, com quem já vinha trabalhando desde meu EP de estreia, R.H. Volcano e contou com a participação de diversos músicos: Edgard Scandurra, Guilherme Kastrup, Du Moreira, Juliana Perdigão.

Em Mel Lema você incorpora o uso de sintetizadores e é comparada ao pop islandês de Björk, além deste recurso, a comparação também pode ser feita em relação ao estilo engajado às causas ambientais?

Sou ainda muito iniciante nesse universo, pois venho de uma prática mais próxima da canção popular, com violão etc. A Björk é sem dúvida uma abelha rainha inspiradora, mas estou há anos luz da complexidade e tecnologia características da música que faz. Compartilho dessa conexão que percebo em seu discurso e obra, que é sentir-se parte da natureza ao invés de superior ou observador somente. A contemplação é o disparo, mas a música tem um aspecto também de diálogo, de escutar o mundo e manifestar-se a ele. A questão da extinção das abelhas tem sido cada vez mais urgente e, ainda que não tenha sido o mote da minha pesquisa pessoal, o fato de chamar atenção ao tema é sem dúvida uma oportunidade preciosa de trazer mais atenção e consciência à causa.

Na faixa Cosmocolmeia você retrata o processo delicado das abelhas na produção do mel (inspirar, transpirar/recolher, colher, flor em flor/esperar, perseguir). Há alguma relação em se reconectar com a natureza?

Acredito que estamos esquecendo aspectos primordiais da nossa humanidade e a conexão com a natureza é capaz de nos relembrar. Notei que durante os meses em que estive morando no campo, minha capacidade de deslumbramento esteve aflorada: observar o céu, os animais do chão, ter algum tempo contemplativo mesmo… Algo que aqui em São Paulo muitas vezes é suprimido pela pressa e pela excessiva virtualidade das relações. No interior você entra, toma um café, conversa, é outro ritmo.

As faixas parecem se desenrolar nos temas de auto descoberta e conexões com o outro, em Ocupado Tem Gente, você canta: “Menina, por favor, respeite se seu tempo já é diferente”, a causa feminista também é uma pauta em suas músicas?

Compus essa música como se estivesse conversando com uma amiga que passava por um processo de crise, mas conforme escrevia me dava conta de que estava falando também comigo mesma. Falo do ponto de vista feminino, pois sou uma mulher fazendo música e vivendo as dores e delícias do caminho. Para mim é natural que as letras tratem do tema, pois estou inserida nesse mesmo contexto, buscando fortalecer-me diante das dificuldades (que são inúmeras nesse caminho de operária da música). Acho que faço música também em busca de compreender a mim e ao outro, o equilíbrio entre a abelha solitária e a social…

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  1. Mariana Genovese

    A segunda foto está sem crédito para o fotógrafo Daniel Athayde. 😉

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