“Me sinto honrado de fazer parte deste momento de aproximação da moda e do hip-hop”, diz o rapper Rael

Rael foi anunciado como o novo embaixador da Reebook em uma festa no rooftop do Edifício Martinelli, que ainda contou com show de Thaíde e Ana Cañas.

Só no segundo semestre de 2016 A$AP Rocky posou para a Dior, Kanye West parou a Semana de Moda de Nova York e Emicida anunciou sua estreia no SPFW. Vemos neste ano a comprovação do que sempre esteve muito claro, mas várias vezes foi ignorado: sim, as ruas e expressões culturais, como o rap e o hip-hop, tem muito poder sobre as tendências que pipocam nas passarelas, no street style do dia a dia e até no que está na porta dos desfiles.

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O esporte, é claro, sempre caminhou lado a lado com esse movimento, mas agora sua influência está mais forte na moda. Não à toa, as criações de grandes marcas de sportswear viraram objeto de desejo das fashionistas mundo afora, mas vale lembrar que elas sempre fizeram parte das ruas. Se você já assistiu The Get Down, a série sensação do momento da Netflix, por exemplo, deve ter percebido como o figurino, que tem referências de etiquetas esportivas, é quase uma personagem da história e se relaciona com as cenas musicais, com o grafite, com a dança e com o skate.

O rapper brasileiro Rael, que agora é embaixador da Reebok no País – assim como Kendrick Lamar é lá fora -, conversou exclusivamente com a ELLE ontem (29.9), e explicou como essa relação esteve presente em sua vida. “Nada mau para um maloqueiro que nem eu”, declarou sobre a parceria com a marca um pouquinho antes do show surpresa que fez na cobertura do Edifício Martinelli, em São Paulo.

Jorge Bispo

Jorge Bispo

A Reebok também estará na passarela na estreia da marca do Emicida no SPFW.

Qual é a sua relação com moda e como é para você fazer essa parceria com a Reebok?

Ela vem bastante do skate e sempre foi muito espontânea. Eu nunca fui atrás exatamente do que está na moda e quem sempre me influenciou foram meus tios e o meu irmão mais velho. Essa parada com a cultura do tênis, por exemplo, começou dentro do hip-hop. A gente sempre fomentou isso. Começou nos Estados Unidos, quando a rapaziada usava sapato, lá nas antigas. Tinha tênis para jogar tênis, mas a rapaziada que não tinha isso, usava para andar na rua, o que acabava virando uma tendência, uma moda.

De onde você acha que vem essa fascinação especificamente pelo tênis?

Sempre foi uma coisa natural. A gente sempre fomentou essa cultura na minha quebrada. Os meninos mais velhos usavam Le Coq e eu tinha oito anos, usava Bamba e Kichute para dançar break. Era também a época do skate e eu sempre gostei de tênis, sempre quis ter. Acho que foi um movimento de contracultura que virou um mercado, e quem é do rap quer estar bem vestido, usar um tênis igual esse que eu estou.

Divulgação

Divulgação

Reebok Classic Leather Perfect Split, nova versão do tênis Classic Leather, apresentado ontem (29.9).

Qual é a sua relação com tênis hoje?

Hoje em dia, eu tenho um estoque e certo preciosismo com eles. Se começa a ficar sujo eu já limpo, tem também a lei do “não pise no meu tênis na festa”. Você pode ter uma roupas assim e tal, mas o pisante, o pisante tem que ser o “pá”. Sempre foi assim.

Meu problema sempre foi tênis: não ter naquela época e agora ter demais. Eu não consigo me desfazer, eu coleciono, eu gosto, mas estou vendo que tenho que me desfazer de alguns, ainda mais agora, que eu fechei essa parceria. É uma parada que que eu vejo que também se conecta com o lance da rua. Então, para mim, vai ser uma coisa muito espontânea.

E como você enxerga esse momento da moda com tantos rappers fazendo parte de grandes campanhas e a entrada do Emicida no SPFW?

Eu acho maravilhoso. Nos Estados Unidos já acontece há um tempo, na Europa também. Já tive a oportunidade de dar uns rolês pela Europa, e a França, tirando o Brasil, é o segundo polo de hip-hop. Eles também têm o lance muito forte do rap com a moda. No Brasil, é uma coisa que começou agora. É a primeira vez na história do hip-hop brasileiro, que vai ter uma marca direcionada à cultura hip-hop. Acho que é o começo e graças a Deus eu me sinto honrado de estar fazendo parte deste momento, desta época. Eu fico muito feliz de ver o Fióti com o Emicida acreditando e levando o estilo de rua, que a gente tem de se vestir, uma coisa espontânea para nós, para as passarelas de moda.

E você já pensou em criar uma linha própria?

Se rolar essa parada eu estarei aí. Eu sou um cara meio ousado, na música eu faço isso. Eu venho do rap, e o rap era uma coisa que as pessoas tinham medo de misturar. Era muito conservadora de estilo. A gente quebrou uma barreira que a gente mesmo criou de se relacionar com outros gêneros. Eu acho que dentro de moda também é assim. Acho que é possível, sim. Se alguém me desse a oportunidade de criar alguma coisa, vamos lá.

Falando sobre esse medo de misturar. O que você pensa sobre o hip-hop ser usado como referência pela moda?

A internet, a globalização, no geral, fez a gente se aproximar mais. Um começa a conhecer um pouquinho mais da cultura do outro e inspiração é isso. A moda sempre esteve meio fechada, não esteve muito próxima da cultura hip-hop. Ela se misturava com outras coisas, como a cultura gótica, por exemplo. Hoje tem essa possibilidade, o que acaba gerando uma inspiração, e um gênero que as pessoas não buscariam acaba ficando em evidência. Eu acho que é da hora, fortalece de todas as maneiras porque também vai para a passarela, vai para a rua, acaba expandindo um mercado que só tem a crescer, tanto o do hip-hop, quanto o da moda.

Recentemente, o Marc Jacobs foi acusado de apropriação cultural por colocar meninas brancas usando dreads na passarela. Qual é o limite da inspiração? O que você pensa sobre apropriação cultural?

Acho que a parada da cor é outra questão. É uma coisa que tem que ser resolvida. Esses dias foi revelado que o cara que criou o Jack Daniels aprendeu com escravos. Na verdade, acho que os negros têm muito potencial de criação e não são reconhecidos. Por exemplo, o primeiro transplante foi um negro que fez.

Acho que quem tem o poder de criar uma tendência, deveria dar uma atenção maior para isso. Quando a gente vai usufruir de uma inspiração, tem que dar mais ênfase. É tipo eu pegar uma música do Thaíde como se fosse minha, cantar, não chamar ele, não falar que é dele.

Isso de cor é outra questão, de raça mesmo, que tem que ser resolvida. A gente vive uma crise humanitária e eu acho que nesse aspecto, tem que dar mais ênfase. Homenagear mesmo, por que não? Tem um monte de modelo negra aí.

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