“Ocupar o pavilhão brasileiro é ato de resistência”, diz artista

Com um trabalho engajado, a mineira Cinthia Marcelle representa o Brasil na Bienal de Veneza.

Faz parte do ofício do artista editar o mundo, escolher uma parte dele para reproduzir, interpretar, questionar. A artista Cinthia Marcelle fez essa escolha para representar o Brasil na 57ª edição da Bienal de Veneza, na Itália. A mineira foi indicada por Jochen Volz, curador da 32ª Bienal de São Paulo (2016), como a única a ocupar o pavilhão do país – a última vez em que isso aconteceu foi em 2011, com Artur Barrio, português radicado no Brasil. “Ocupar o pavilhão brasileiro é um ato de resistência diante do nosso atual contexto político. Ali eu poderei dar voz a um problema real que estamos vivendo, de golpe e boicote à democracia”, disse à ELLE.

(Riccardo Tosetto/Divulgação)

Em Chão de Caça, instalação criada especialmente para o espaço de 240 m² e que pode ser vista até novembro, ela forrou com grades inclinadas o piso das duas galerias conectadas que compõem o pavilhão do Brasil. “Com essa obra ela tira das galerias qualquer sensação de estabilidade, um efeito muito potente e implicitamente político”, explica o curador. Nos vãos estão encaixadas (e não fixas) pedras brancas do jardim do prédio. “O chão traz uma tensão ao espectador. É preciso estar atento onde se pisa”, diz a artista. Também faz parte da composição uma serpente feita de corda e cadarço, além de estandartes de tecidos originalmente listrados, mas pintados de branco – “eu os chamo de floresta de sinais”. No espaço há ainda Nau, vídeo de 44 minutos feito em parceria com o cineasta mineiro Tiago Mata Machado. Nele, vemos a imagem de dois telhados. “É uma espécie de rota de fuga e também um tipo de casco de navio, um bote. Nas palavras do Tiago, ‘o vídeo é como o naufrágio de uma ideia de nação’”, conta Cinthia, enfatizando o caráter político da obra, que recebeu uma menção honrosa na mostra italiana.

(Riccardo Tosetto/Divulgação)

Essa capacidade de sintetizar um discurso em criações com poucos elementos visuais é uma marca da mineira de Belo Horizonte. “Meu processo é muito caótico. Quando estou concebendo um trabalho, deixo tudo entrar, para só então começar a filtrar. Vou do caos para a ordem”, diz. Em uma exposição anterior à Bienal ela apresentou Educação pela Pedra (2016), peça comissionada para o MoMa PS1, em Nova York. No trabalho, Cinthia (que sempre estudou em escola pública), encaixa giz de lousa nas fissuras da parede de tijolos do espaço, criando a imagem de um caderno pautado. No vídeo Cruzada (2011), lançado um ano após ela ter sido agraciada com o prêmio ucraniano Future Generation Art Prize, quatro bandinhas vestidas de diferentes cores se enfrentam e terminam misturadas, porém tocando a mesma melodia. Para essa obra ela demarcou duas estradas sobre um chão de terra com a ajuda de um trator.

(Divulgação/Divulgação)

Com seus trabalhos de grandes proporções, a criação solitária não costuma fazer parte do cotidiano dela. “O trabalho de arte é fruto do coletivo. O pavilhão foi marcado por muitas vozes e mais de 100 mãos.” Aos 43 anos, e vinda de um estado onde nasceram grandes representantes mulheres da arte brasileira, como Lygia Clark e Rosângela Rennó, Cinthia segue marcando presença nas artes plásticas. “Como mulher, estamos sempre reinventando nosso lugar. Na arte, reinventamos o lugar das coisas.”

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