“Sempre estive confortável com meu corpo, mas os outros não”

Feminista, lésbica e adorada pela moda, Beth Ditto fala à ELLE sobre tudo isso e da experiência de gravar seu primeiro disco solo após o fim do Gossip.

Poucas cantoras foram tão contundentes quanto Beth Ditto nestes anos 2000. À frente do Gossip, ela ajudou a dar forma àquele rock com um pé no punk e outro na pista – junto com nomes como The Strokes e Yeah Yeah Yeahs, que também surgiram no início da década passada. Ao mesmo tempo, sua voz lhe rendeu comparações com Janis Joplin, Tina Turner e Aretha Franklin. A americana, que cresceu no Arkansas e no conservador cinturão da bíblia americano, é uma defensora tanto da causa feminista quanto da LGBT – ela é casada com uma amiga da adolescência, Kristin Ogata. Para discutir os padrões de beleza, usou o próprio corpo: terminou shows do Gossip de underwear e posou algumas vezes nua. Em 2006, foi eleita a pessoa mais cool da música pelo New Musical Express, superando nomes como Thom Yorke (Radiohead) e Jarvis Cocker (Pulp). Um ano depois, ganhou uma coluna (impagável) de conselhos no jornal britânico The Guardian. Batizada de O que Beth Ditto Faria?, ela respondia a dúvidas como a de uma leitora bissexual/feminista atraída por um homem homofóbico.

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(Beth Ditto/Divulgação)

Acabou também conquistando a moda: desfilou para Jean Paul Gaultier, posou para Marc Jacobs e Alexander Wang, lançou uma linha de maquiagem em parceria com a MAC e sua marca de roupa plus size, que leva seu nome. Quando finalmente veio ao Brasil, há cinco anos (foram duas vindas canceladas antes disso), compensou a demora e terminou ovacionada pela plateia. Com uma voz calma e surpreendentemente doce do outro lado da linha, Beth falou sobre tudo isso à ELLE e de seu primeiro disco solo, Fake Sugar, que ela lança este mês. A cantora conta ter trabalhado por dois anos no álbum, para o qual escreveu cerca de 80 canções (“nem todas boas”). Ela descreve Fake Sugar como seu disco de música sulista americana, mas sem que ele seja necessariamente um álbum country, como mostra seu primeiro single, Fire, menos roqueiro que o som do finado Gossip.

Vivo minha vida como uma feminista. Precisamos estar conectadas e ouvindo umas às outras.

Você vem usando seu próprio corpo para discutir os padrões de beleza. Isso sempre foi confortável para você?
Acho que sempre tive uma identidade forte, uma segurança de quem sou, meu lugar no mundo, minha personalidade, minha inteligência. Sempre estive confortável com meu próprio corpo, mas sei que os outros ao meu redor não sentiam o mesmo. “Ela está mesmo pelada?”, se perguntavam. A parte difícil de ser uma pessoa grande é que muitas vezes você não consegue achar o que precisa – no avião, por exemplo, pode ser desconfortável –, e as pessoas são muito críticas, te julgam. Tenho sempre que me firmar como alguém igual e mostrar que os outros estão errados.

Como feminista, o que achou da Women’s March [que reuniu milhares de pessoas nos EUA em janeiro]?

Acho que foi i-n-c-r-í-v-e-l. Havia tantos tipos diferentes de mulheres lá, tivemos uma participação maravilhosa no mundo. Vivo minha vida como uma feminista, é uma parte tão importante de quem sou, aquilo que me dá força para seguir adiante. Posso falar sobre o assunto um dia inteiro. Nosso governo… nem sei por onde começar, tudo está tão sob ataque, as coisas estão sendo tiradas de nós. Na primeira semana, eles tiraram financiamento de outros países que estavam sugerindo aborto. [Donald Trump proibiu o uso de dinheiro do governo para subsidiar grupos que pratiquem ou assessorem o aborto no exterior.] Nosso país é tão feminista, mas Trump estava tentando mandar uma mensagem para nós. Precisamos estar muito espertas, organizadas, conectadas e ouvindo umas às outras.

Como foi ter uma coluna de conselhos no Guardian? O que aprendeu com a experiência?
Amei, foi a coisa mais divertida que já fiz e provavelmente a única da minha vida profissional que levei realmente a sério. Foi muito bom conversar com as pessoas diretamente, você as ajuda a falar.

Qual seu envolvimento com sua marca de roupas?
Faço alguns desenhos, tiro fotos. É muito legal ver mulheres plus size na internet trabalhando em suas próprias roupas, em suas marcas, fazendo tudo à mão. Para mim, é muito importante estar rodeada por garotas fortes e inspiradoras, que se apoiam. Acho que o que mais me leva adiante é a carência desse tipo de roupa. Precisamos de mais opções.

E quais são seus estilistas preferidos hoje?
Amo Gaultier, claro, Alexander Wang, Comme des Garçons, Stella McCartney, e sempre gostei de Jeremy Scott.

Como foi lançar seu primeiro disco solo depois de mais de uma década com o Gossip?
Nós estivemos juntos por tanto tempo que o mais difícil foi confiar nas pessoas novamente. Nos dávamos muito bem, tínhamos o mesmo gosto. Tive de esquecer que tudo não seria o mesmo ou tão fácil novamente. Ter que acreditar em você, em outras pessoas, essa foi a parte mais difícil. O melhor foi poder fazer aquilo que eu queria, do jeito que desejava. No Gossip, não sabíamos muito sobre instrumentos. Quanto mais discos fazíamos, mais desenvolvíamos nossas técnicas, mas não havíamos estudado em escolas de música. No meu disco solo, se pedisse para um músico tocar um instrumento de determinado jeito, ele saberia fazer e isso foi muito bom.

Quais são suas influências musicais?
Quando criança, amava Aretha Franklin e Melanie Safka. Mais velha, Bikini Kill. Amo Madonna, Missy Elliott, Aaliyah.

Você fez um show incrível aqui em 2012.
Foi tão louco e divertido, um dos melhores shows que já fiz. Tivemos que cancelar nossa ida ao Brasil duas vezes: na primeira fiquei muito, muito doente. Na segunda, uma coisa muito, muito ruim aconteceu, uma tragédia. Agora quero fazer novamente uma turnê pela América Latina.

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