Atitude. O que Galliano, Mel Gibson e Charlie Sheen fizeram de errado.
Tiro no pé

John Galliano, Mel Gibson e Charlie Sheen: seus escândalos só nos fazem recordar nossas piores facetas.

Tiro no pé

John Galliano, Mel Gibson e Charlie Sheen: seus escândalos só nos fazem recordar nossas piores facetas.

Tiro no pé

Por: Fred Melo Paiva / Fotos: Getty
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Entre todos os signos bélicos de todos os tempos e lugares, da Califórnia de Schwarzenegger à Líbia de Kadaffi, da China de Mao Tsé-Tung à Cuba de Fidel, nenhum chega aos pés do Tiro no Pé - que por sua distinção deve ser grafado com maiúsculas. Tiro no Pé é um clássico capaz de deixar no chinelo, por exemplo, a Bala na Agulha. Ou o famoso Três Oitão, recentemente aposentado pela Polícia de São Paulo com obituários de página inteira. Nem todo mundo tem Bala na Agulha ou manuseou o Três Oitão - mas não há ser humano que já não tenha dado um Tiro no Pé.

John Galliano foi o último, se desconsiderarmos a massa pedestre que a cada segundo comete o extermínio de sua parte mais baixa - e sem falar também no deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), cuja base de sustentação já virou queijo suíço e não se sabe o que é preciso mais para ele cair. Aquela noite, no Marais, Galliano era o Clint Eastwood na trilogia dos dólares de Sérgio Leone - o cavaleiro solitário que bebe num canto do saloon, impassível, o rosto sem expressão, o gesto sem desperdício, o copo à sua frente. A diferença é que, nesse caso, o cavaleiro é que deve ter ficado amarrado na porta do bar.

 


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Galliano e seu pé machucado

Pois o estilista, sentindo-se de repente açoitado por um grupo de mulheres italianas que ocupava a mesa ao lado, lançou coices a torto e a direito. "Eu amo Hitler", sapateou ele, já mirando o próprio escarpim. E disparou: "Com Hitler, você estaria morta, e sua mãe e seus antepassados seriam todos gaseados". Bem, com Hitler, Galliano, que é uma flor, certamente não seria tratado como tal. Mas incluiu-se fora dessa, da mesma forma que fez a Dior, ao dar baixa na sua carteira depois de quase 15 anos de serviços prestados à grife.

Façamos, porém, a nossa mea-culpa (não sem antes desarmar o gatilho do excesso de franqueza, o caminho que mais rapidamente leva a vaca para o brejo): não há sobre a Terra um único pé que tenha saído ileso durante a longa caminhada da vida. Não é um versículo de Eclesiastes. Não é o Paulo Coelho no Twitter. É a dura e bípede realidade: basta ter dois pés (ou até um) e, mais dia, menos dia, eles serão alvejados por quem menos se espera. Todos nós já produzimos provas contra nós mesmos, desdenhando o direito de não fazê-lo.

 


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Quem fala demais, dá bom dia a cavalo

Todos nós passamos rasteiras nas próprias pernas. Boicotamos os próprios projetos, atentamos contra nossos melhores casamentos, puxamos o tapete sob os nossos pés. Poderíamos ser processados por danos morais, não fôssemos vítimas e réus ao mesmo tempo. Quantas vezes não fomos, num corpo só, a Preta Gil e o Jair Bolsonaro. Quer dizer, o Bolsonaro também já é demais - digamos, mais apropriadamente, que em nosso corpinho muitas vezes habitam o Lula e o FHC, a Luana Piovani e o Dado Dolabella, o Palocci e o Guido Mantega.

Ainda assim, com a sempre honrosa exceção do nobre Bolsonaro, não consta que seja a coisa mais comum do mundo, para efeitos do Tiro no Pé, a exaltação nazista da raça ou da etnia. Mas, curiosamente, o antissemitismo confesso tem provocado a recente desgraça de algumas das celebridades de mais alto coturno. Além de John Galliano, os atores Charlie Sheen e Mel Gibson teriam feito melhor negócio se tivessem guardado segredo de suas opiniões sobre os judeus. Como não nasceram em Minas Gerais, não são obrigados a saber que "quem fala demais dá bom-dia a cavalo". O equino do ditado nada tem a ver com o Galliano.

 


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A cabeça de Charlie Sheen

A Charlie Sheen, coitado, um atenuante: trata-se de um loki total. Protagonista da série cômica de maior sucesso nos Estados Unidos, Two and a Half Men, Sheen era o ator mais bem pago da TV americana - ganhava cerca de 1,25 milhão de dólares por episódio. Nos últimos anos, gastou parte de seus proventos com drogas e bebidas. Virou o terror da mulherada: duas de suas ex o acusaram de violência doméstica. A atriz Denise Richards, com quem tem duas filhas, separou- se de Sheen em 2005, assustada com a obsessão dele pelo assassinato da mulher de O. J. Simpson - de quem, ela afirma, colecionava até as fotos da autópsia. Em entrevistas, disse que o ator era viciado em pornografia. Sheen vive hoje com a atriz pornô Bree Olson - que juntamente com a modelo e designer Natalie Kenly formam um casal de três! Vai vendo...

Em outubro do ano passado, o figurante de Apocalypse Now (1979) seguia descarregando artilharia contra o próprio pé: depois de destruir uma suíte do Plaza Hotel de Nova York, admitiu uso de cocaína e álcool. Foi hospitalizado e liberado. Em 27 de janeiro, voltou a ser internado, o que fez a rede CBS suspender Two and a Half Men. Dia 24 do mês seguinte, deu entrevista no rádio atacando Chuck Lorre, o criador da série. Quatro dias depois, falando a um canal de TV, cobrou aumento de 50% no salário. Foi demitido em 7 de março. Desde então, só se refere a Lorre por meio de seu nome em hebraico, o que é visto como uma maneira preconceituosa de frisar sua origem judaica.

 


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“Santo” Mel Gibson

Mel Gibson é menos pancadão: "apenas" entorta o caneco, bate na mulher e bota a culpa nos judeus - perto de Sheen, é um santo. Em julho de 2006, foi preso por dirigir bêbado e em alta velocidade. Culpa de quem? Dos judeus, claro, contra os quais bradou seus impropérios. "Agi como uma pessoa completamente fora de controle quando fui detido", tentou limpar a barra, "e disse coisas infames, que não são verdadeiras."

Em março deste ano, o protagonista de Máquina Mortífera (1987) foi condenado a três anos de liberdade condicional por agredir a ex-namorada Oksana Grigorieva, estilista russa com quem tem uma filha. Uma das peças do processo eram gravações com insultos raciais supostamente lançados por Gibson ao telefone. O ator terá de prestar 16 horas de serviços comunitários e assistir a palestras sobre violência doméstica por 52 semanas.

No passado, gente famosa, como o escritor Oscar Wilde ou a musa da Paris dos anos 1920 Kiki de Montparnasse, também foi vitimada pelo Tiro no Pé. Homossexual, Wilde passou dois anos na cadeia condenado a trabalhos forçados por "cometer atos imorais com diversos rapazes". Kiki, companheira do fotógrafo e pintor Man Ray, transou com todo o mundo, bebeu e cheirou o que não devia, sofrendo todo tipo de preconceito. Mas as atitudes de ambos ajudaram a emancipar gays e mulheres. John Galliano, Charlie Sheen e Mel Gibson são a antítese disso - enquanto mandam o pipoco no próprio pé, apenas reafirmam sua cabeça de dinossauro e seu espírito de porco.

 



Publicado em 11/05/2011