Dançamos pelas pistas de SP para mapear a volta do techno

Com festas de longa duração em galpões lotados, a cidade vive um grande momento da música techno.

Domingo, 11 horas da manhã, o som alto ecoa em um galpão no bairro paulistano da Freguesia do Ó, onde já funcionou uma fábrica de tintas. Um DJ todo tatuado, maquiado e de peruca loira mescla beats de techno com melodias de trance. A luz do dia entra pela claraboia e revela as caras, os estilos e o modo operante de centenas de clubbers, que dançam inebriados há horas, numa das várias festas de música eletrônica que têm acontecido em galpões e espaços itinerantes de São Paulo. É um recente circuito de warehouses e pistas na rua que transformaram a cena underground local – antes baseada em clubes noturnos, que encareceram e, para essa turma, ficaram caretas. A crise econômica, associada à vontade de ocupar espaços públicos (por vezes abandonados, esquecidos), fez surgir um momento efervescente de festas que coincide com o retorno global do techno, misturado a outras tendências da música eletrônica.

A festa narrada acima foi uma edição da Carlos Capslock, comandada pelo DJ Paulo Tessuto, um dos agitos mais disputados desse novo rolê, que contempla eventos com mais de 20 horas de duração. Na pista, o que se vê é uma nova estética clubber, que segue associada ao estilo esportivo, mas atualizou-se na chave gótico street do momento: muito preto, roupas da Adidas, camisetões, peças curtas e pele exposta – em resumo, looks confortáveis para dançar horas a fio. Essas festas celebram também toda uma cultura queer e de forte busca por autenticidades musicais. E promovem um maior protagonismo das mulheres na cena, organizando festas e povoando os line-ups de DJs. A Mamba Negra, por exemplo (vista nas fotos que ilustram esta matéria), é criação da DJ e produtora Cashu e da cantora Laura Diaz – as apresentações de sua banda, a Teto Preto, costumam ser o ponto alto da festa.

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Além da Mamba e da Capslock, ODD e Vampire Haus são outros coletivos de destaque. Todos se propõem como plataformas: são também selos musicais e espaço para performers e reúnem VJs, iluminadores, tatuadores, estilistas, artistas visuais e tudo o que a noite permitir como expressão. E, mesmo que o espírito e o som sejam de uma nova techno culture paulistana, nem todas desejam ser limitadas a esse gênero. Musicalmente, é techno, mas em melting pot com estilos como o house, o electro, o cosmic, o minimal e o que mais for possível de ser mixado no pulso dançante. É por isso que a ODD se designa “um lugar de sons estranhos”, e a Capslock como “deformadora de opiniões”.

Como nas saudosas raves dos anos 1990, as festas também costumam ter o endereço revelado apenas no dia do evento. “Naquela época, a gente fazia rave para fugir da cidade. As festas rolavam em sítios em lugares como Cotia, Mairiporã e Arujá (em São Paulo). As raves de hoje (porque no fundo é isso que Capslock, Mamba e ODD são) não fogem da cidade, mas procuram retomá-la e valorizá-la ao trazer novos significados para seus espaços”, escreveu em sua página de Facebook o DJ e jornalista Camilo Rocha, que acompanha há duas décadas a cena dos clubes noturnos. “Queremos fazer as pessoas criarem novas relações com São Paulo, quebrarem tabus entre o indivíduo e a cidade”, diz Suzana Haddad, uma das partes da dupla de DJs Casal Belalugosi, da Vampire Haus. A festa mostra sua estética dark em edições ao ar livre, como na Praça Ramos, no centro da cidade, e também em locais fechados.

ESCAPISMO E ATIVISMO

Apesar de bem delimitadas em sua estética, as pistas clubber se abrem para um mix de jovens burgueses, boêmios, artistas, fashionistas (a modelo fervida Ellen Milgrau é figura carimbada) e baladeiros em geral. “O legal é a mistura: gente de 20 a 50 anos, patricinhas, drags, drogados, não-drogados. E a música, apesar de ir se renovando na produção, é a mesma”, opina Renato Cohen, um dos mais exímios DJs da cidade e nome celebrado do techno à disco music desde a festa Hells, que marcou história na noite paulistana no começo dos anos 1990. Para ele, as festas atuais retomam uma “essência do techno” de 20 anos atrás. “O fator que não tinha antes é usar o espaço público, explorar os lugares da nossa cidade. Antes as pessoas iam ao mesmo lugar todo final de semana.

Numa cidade do tamanho de São Paulo, a internet ajuda a reunir tanta gente em comum sem ter um endereço fixo.” Esse aspecto é entendido como um ato político pelos produtores e pelos frequentadores. Na Capslock da fábrica de tintas, a nova locação foi um chamariz para atrair público. A música, nesse contexto, vira “o elemento de toda essa engrenagem sociocultural-econômica, que nos leva ao transe, faz dançar”, acredita Paulo Tessuto. Laura Diaz, da Mamba Negra, destaca o caráter urbanístico das festas: “O techno é historicamente uma sonoridade que nasce de centros urbanos que enfrentam a falência da especulação imobiliária”, diz, fazendo referência a cidades como Detroit, Chicago e Berlim, que celebraram o gênero em diferentes momentos. “As festas não são apenas um movimento. São uma cultura. A celebração em tempos sombrios é em si um ato político.” Na América Latina, não tem para ninguém: o grande underground eletrônico é o da Pauliceia Desvairada.

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Registros da Mamba Negra, festa que aconteceu em um galpão no bairro paulistano do Pari. (Gianfranco Briceño/ELLE)

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Registros da Mamba Negra, festa que aconteceu em um galpão no bairro paulistano do Pari. (Gianfranco Briceño/ELLE)

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Registros da Mamba Negra, festa que aconteceu em um galpão no bairro paulistano do Pari. (Gianfranco Briceño/ELLE)

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