Em Anna Karenina, Keira Knightley mostra mais uma vez sua inclinação para personagens dramáticos

GREG WILLIAMS (DIVULGAÇÃO)

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É só o nome de Keira Knightley surgir na abertura de um filme que o espectador já espera vê-la carregar de dor o rosto de traços delicados. Seus principais longas-metragens comprovam a predileção da atriz pelas personagens sofridas. Foi assim em Um Método Perigoso (2011), Não Me Abandone Jamais (2010), A Duquesa (2008), Desejo e Reparação (2007) e Orgulho e Preconceito (2005). “Já me habituei a sair arrasada do set de filmagem. Não adianta. Onde eu me sinto em casa é mesmo na tragédia”, contou a atriz à ELLE Brasil, em entrevista concedida em Toronto. “Sempre me pergunto: por que as grandes obras literárias são, em sua maioria, dramas pesados? Talvez seja porque, na hora em que estamos na pior, precisamos saber que não estamos sozinhos. É o velho ditado: ‘A miséria gosta de companhia’”, disse ela, num lindo vestido preto justo da grife Céline.

A última personagem que a deixou “destruída” foi a heroína russa saída da imaginação do escritor Liev Tolstói (1828-1910). No papel-título de Anna Karenina, a partir de 15 de fevereiro nas telas brasileiras, Keira encontrou o que chama de personagem mais difícil e complexa de sua carreira, por sua “intensidade emocional”. “Se Anna fosse racional, a história nunca funcionaria”, afirmou a atriz, referindo-se à aristocrata da Rússia czarista, insatisfeita com a vida que tem em São Petersburgo – por mais que possa parecer perfeita aos olhos da sociedade de 1874. Anna é linda, rica e amada pelo marido (Jude Law) e o filho. Mas ela só se sente verdadeiramente viva nos braços do amante, Vronski (Aaron Taylor- Johnson), um oficial da cavalaria que conhece em uma viagem a Moscou. A paixão proibida e avassaladora, além de escandalizar a sociedade da época, traz sérias consequências familiares.

REPRODUÇÃO

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Cena do filme Anna Karenina

“Infelizmente, está na condição humana machucar aqueles que estão mais próximos. Não por sermos más pessoas, mas simplesmente por nem sempre conseguirmos nos controlar”, disse a britânica, de 27 anos. “Mas será que somos melhores que Anna? Eu mesma nem sempre me comporto do jeito que deveria. Cometo muitos erros e nunca consegui ser perfeita. E foi justamente aí que a história me pegou”, contou Keira, dirigida pela terceira vez pelo compatriota Joe Wright, depois de Desejo e Reparação e Orgulho e Preconceito. Por esse último filme, a morena de olhos castanhos e ar nobre foi indicada a um Oscar, em 2006. “Sempre me atraiu a audácia de Joe, o que fica ainda mais evidente nesse último trabalho, em que ele resolveu rodar tudo como uma grande encenação, num palco.”

Isso mesmo. O novo Anna Karenina, que teve première mundial no 37° Festival de Toronto, não é mais uma adaptação do clássico romance publicado entre 1873 e 1877. Desde 1935, quando a sueca Greta Garbo encarnou a protagonista adúltera, sob a direção de Clarence Brown, várias outras versões da história de amor épica ganharam as telas. Uma delas com a britânica Vivien Leigh no papel principal, em 1948, e direção de Julien Duvivier. Em 1985, quem deu a sua interpretação da heroína foi a inglesa Jacqueline Bisset, em um telefilme assinado por Simon Langton. A francesa Sophie Marceau também mergulhou na Rússia de Tolstói, vivendo a sua criação em 1997, em longa dirigido por Bernard Rose.

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Première de Anna Karenina

Buscando um distanciamento das produções anteriores, Wright fugiu da proposta mais naturalista. Em vez de rodar na Rússia, em locações reais, ele optou por filmar tudo num imenso teatro, construído nos estúdios Shepperton, na Inglaterra. “Fizemos uma visita estilizada ao universo de Anna Karenina. Curiosamente, a ideia vai ao encontro do que os russos de classe social elevada faziam na época”, comentou a atriz. De acordo com Natasha’s Dance: A Cultural History of Russia, livro assinado por Orlando Figes que serviu de bíblia para toda a equipe do filme, o que a sociedade de São Petersburgo mais fazia naquele período era “representar”. As pessoas viviam como se estivessem num palco. Por sofrerem de uma crise de identidade, sem saber se pertenciam à Europa do leste ou do oeste, elas optavam pela cultura ocidental, espelhando-se na sociedade francesa. “Os russos aristocráticos nem sequer falavam o idioma local entre eles, preferindo o francês. Eles não tinham conexão com seus conterrâneos de classe inferior, procurando se vestir e se comportar como se tivessem nascido na França. A existência deles não passava de uma performance.”

Isso explica a metáfora almejada pelo cineasta ao rodar as cenas num teatro de aura decadente. Praticamente toda a ação se passa nesse cenário – com sequências filmadas no próprio palco e outras nas cadeiras do auditório, nos balcões, nos corredores e na coxia. As imagens da Rússia são cenários pintados no palco principal. “A abordagem foi muito revigorante. Nós passamos três meses praticamente morando nesse teatro, onde foram criados mais de 100 cenários.” A fascinação de Keira por filmes épicos é fácil de ser explicada. “Sempre gostei de estudar história. Se não fosse atriz, acho que seria historiadora.” Não são apenas os roteiros com figurinos de época que a atraem – ainda que ela adore “espartilhos, vestidos longos, muitos babados e chapéus”. “Voltar ao passado representa um excelente artifício para o ator pelo simples fato de obrigar a nos desconectarmos de nossa realidade. Adoro me perder em outra época, sendo forçada a esquecer o que sei e me engajar emocionalmente em uma personagem distante de mim. Do contrário, quando interpreto mulheres contemporâneas, é difícil não me comparar com suas escolhas de vida e suas visões do mundo e da política.”

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Filha do ator de teatro e TV Will Knightley e da atriz Sharman Macdonald, roteirista e dramaturga, Keira começou a atuar logo na infância, aos 6 anos, em Teddington, cidade onde nasceu. “Não troco a minha profissão por nada. É a melhor maneira de tentar entender a humanidade. Não sei se cada personagem faz de mim uma pessoa necessariamente melhor, mas pelo menos me obriga a refletir sobre as minhas ações, o que já é um primeiro passo.”

 

Chega de choro

Depois de tanto drama, Keira decidiu enveredar por uma produção hollywoodiana de “puro entretenimento’’. Sua próxima personagem, em Can a Song Save Your Life?, atualmente em pós-produção, é uma aspirante a cantora que se muda para Nova York para correr atrás de seu sonho. Como em toda comédia romântica, ela chegará lá, depois de alguns tropeços, com a ajuda de um produtor charmoso (Mark Ruffalo). Talvez essa opção mais leve seja um reflexo da fase pessoal luminosa de Keira, que aceitou recentemente o pedido de casamento do namorado, James Righton – covocalista e tecladista da banda inglesa Klaxons, de indie rock.

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Por Elaine Guerini, de Toronto

Publicado em 19/02/2013