O que acontece quando esta americana, fenômeno do pop mundial, tira a peruca e as roupas?

Getty

lady-gaga-2

Araras abarrotadas de roupas, 30 pares de sapatos, chapéus, acessórios e bijoux até não poder mais. “Há um minuto, pedi para você sair porque ia tirar a roupa e, agora, estou com este vestido transparente”, diz Lady Gaga com um sorriso sapeca. Ela coloca um canudo na boca e suga um líquido verde-escuro de um copo de plástico. Estou inquieto. Da última vez que vi uma garota de 26 anos nua, eu mesmo estava com essa idade! Mas ela não tinha essa segurança sobrenatural em relação ao próprio corpo nem nove tatuagens. “O que é esta aqui?”, pergunto, apontando para a coxa esquerda dela. “Esse é o meu unicórnio. Todo mundo precisa de uma tatuagem engraçada. E esse é o meu pai”, ela explica, falando a respeito de um coraçãozinho em seu ombro esquerdo com a palavra “Dad”, que parece ter sido escrita com caneta esferográfica. Há também uma rosa branca, uma clave de sol, um buquê de margaridas, outro coração que diz “Tokyo Love”, um cisne minúsculo, um símbolo da paz no pulso e uma citação gigantesca do poeta alemão Rilke na parte interna do braço esquerdo, que ela se apressa em traduzir: “Na hora mais profunda da noite, se perguntassem se você morreria se fosse proibido de escrever, olhe bem no fundo de seu coração, porque a resposta espalha suas raízes, e pergunte a si mesmo: ‘Será que eu preciso escrever?’”.

Para ser sincero, não estou escutando com muita atenção. Quando Lady Gaga está no palco, não dá para ver como é bonita. E ela está ciente do efeito que exerce sobre mim, o único homem heterossexual presente. Totalmente sem jeito, pergunto o segredo para ter uma pele tão linda. “Orgasmos, muitos orgasmos.” Ela balança o suco verde no copo e o ergue com um gesto descuidado: “Orgasmos e espinafre! Não, o que realmente quero dizer é trabalho duro!” Será que alguma coisa que ela fala é a sério? Se for, qual parte é verdade: o sexo e o espinafre ou o trabalho duro? Será que Gaga é uma raposa manipuladora, tentando desestabilizar um repórter maduro, ou será que é uma dessas estrelas que murcham como flor sem água quando não é o centro das atenções?

Como é que o maior fenômeno do pop planetário pode ser Stefani Germanotta, uma garota de Manhattan de 26 anos, exibicionista compulsiva sem muitos antecedentes, a não ser a genialidade na frente de um piano, papéis principais em musicais da escola e um papel pequeno em Boiling Points, reality show da MTV americana? Acontece que ela não precisou de nada além disso para explodir. Cantora brilhante e compositora astuta e comercial, sua autoestima elevada e um profundo conhecimento de moda certamente contribuíram para seu sucesso. Já entrevistei alguns de seus heróis musicais –Queen, Sting, Elton John, Michael Jackson, Beatles e David Bowie (que, segundo ela, é capaz de ficar parado e mudar o mundo) – e assisti a turnês cheias de parafernália tecnológica, como as de Prince, Madonna e Beyoncé, mas nenhuma capaz de superar Lady Gaga em termos de espetáculo ao mexer com a cabeça da gente. Boa parte disso se deve à tecnologia, claro – a iluminação e a mecânica do palco de seus shows seriam inimagináveis em qualquer outra época –, mas há mais uma diferença fundamental: Bowie, Prince, Madonna e Queen criaram uma trilha sonora que pode ser aplicada à vida de qualquer um. Você ouve Madonna cantando Into the Groove e não precisa de explicação nenhuma, já que se trata de uma canção a respeito da montanha-russa emocional da vida, sensação acessível a todos nós. Com Gaga, é diferente: quando ela se arrasta para fora de um vagão de metrô que sofreu um acidente, vestida com um capuz de freira, uma garra de zumbi, um lençol transparente e um emplastro nos mamilos (show da turnê Monster Ball, de 2010), isso não remete a nada que seja pessoal – a não ser que você seja um azarado e tanto. Ela não penetra no seu mundo. Você é que entra no dela. “Injeto minhas experiências no mundo da fantasia”, explica. Gaga pende para a ambiguidade sem nenhum esforço. Sua reação a boatos de que não seria 100% mulher foi subir ao palco como seu alter ego Jo Calderone, o mecânico italiano que fuma um cigarro atrás do outro e declama monólogos recheados de palavrões a respeito do amor de sua vida (Lady Gaga). Tudo isso serviu para aumentar o mistério com muita magia, um enredo dentro de um roteiro.

Ela diz ter surgido da imaginação dos fãs. Mas isso é um disparate, claro. Os mais radicais encontraram na artista a convicção de que ela também lutou contra aqueles que nunca acreditaram em seu talento. “Todo mundo sempre pergunta o que acontece quando tiro a peruca e as roupas, mas a verdade é que sou igual”, afirma. Fico tentado a acreditar nela. Conta que sua mãe achava que ficava “possuída” quando tocava piano. “Quando era criança, estava sempre dando show no meio da sala.” Ela diz que, se não fosse quem é hoje, estaria dançando em um bar. A diferença seria apenas o público, menor. Chamar a atenção parece validar o fato de ela existir. Dá para ver isso agora, ao observar a sessão de fotos. É uma performance completa, do início ao fim. Com o pouco mais de 1,50 m de altura balançando sobre os saltos Noritaka Tatehana, seu sotaque da Costa Leste americana tem um toque vindo de Los Angeles. Ela dança com as batidas de Born Tis Way, seu novo álbum, e depois ao som de Pet Shop Boys, Sof Cell, Blondie, Garbage e Fleetwood Mac. Vira para trás, olha para a frente. O cabelo esvoaça, os olhos se fixam na câmera. Ela sabe por instinto quando algo dá certo. Gosta de usar estilistas jovens e lhes dar plataforma comercial, mas não é apenas um cabide. Quando perguntam se ela quer experimentar alguma peça preta, sua resposta é rápida e bem amarrada: “As fotos estão ótimas! Adoro a história que estamos contando, mostrando as cores da primavera, e acho que o preto iria interromper essa narrativa”.

 

Copie o link

Por Mark Ellen / Moda Nicola Formichetti

Publicado em 30/06/2012