A brasileira que usa a moda como forma de justiça social na Índia

Letícia Salles viu de perto como a indústria da moda pode ser cruel e decidiu colocar a mão na massa para empoderar artesãos indianos.

Fundada em 2014, a marca Happee foi idealizada pela brasileira Letícia Salles em parceria com o indiano Peeyush Rastogi. A ideia da companhia é incentivar artesãos indianos no desenvolvimento de seus trabalhos por meio de um preço justo, ensinando-os a empreender e investir. Seguindo uma lógica totalmente contrária à maioria das empresas inseridas na indústria da moda, a Happee funciona com ações colaborativas, valorizando o trabalho artesanal local. O resultado pode ser visto em acessórios coloridos e com muitos bordados, que são vendidos online para o mundo todo. Eles levam entre 3 a 6 semanas para serem entregues no Brasil, mas alguns que têm estoque em São Paulo demoram menos, cerca de uma semana.

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Estamos em uma onda irreversível de consciência, e isso é bom. As pessoas estão se questionando mais e isso é importante porque você começa a entender que tudo o que você consome tem um custo humano e ambiental”, diz a designer e empresária sobre o processo de compreensão de responsabilidade pelo qual ela vem passando há alguns anos e que, aparentemente, também vem preocupando o mundo da moda.

Abaixo, conheça a história da marca e como foi a trajetória de Letícia para criar a Happee.

(Happee/Divulgação)

Como começou a sua  jornada na moda?

Eu sou formada em desenho de moda e trabalhei durante um tempo no Brasil com moda e marketing. Antes de sair do país, eu me encontrava desacreditada com esse meio, principalmente com as diferenças de preços que as empresas ofereciam para os costureiros e o valor pelo qual o produto era vendido. Acabei ficando saturada do jeito que a moda estava sendo feita, e como sempre tive vontade de morar fora, encontrei um programa de intercâmbio e decidi arriscar. Descobri várias vagas na área em países como Vietnã, China, Índia e Itália. Me inscrevi em duas opções de trabalho, passei em ambas, e em praticamente duas semanas eu já estava embarcando para Milão para trabalhar em um projeto voluntário.

E como foi a experiência por lá?

O meu chefe morava na Itália há aproximadamente vinte anos e decidiu me levar para conhecer os fornecedores nos arredores de Milão e Florença. Foi um soco no estômago. Me deparei com uma realidade diferente da que eu imaginava. Eu estava super feliz com a viagem e então tomei um choque quando descobri as condições de trabalho daqueles lugares, eu não sabia que aquilo acontecia. As pessoas costuravam em péssimas condições, amontoadas em galpões, alguns até sem banheiros. Posteriormente li sobre o assunto e descobri que muitas fábricas italianas eram de famílias chinesas, com funcionários chineses, mas que produziam produtos de marcas de luxo, valorizando a etiqueta Made in Italy.

Como a Índia foi parar no seu roteiro?

Depois da Itália vim para Índia trabalhar para empresas que desenvolvem roupas para grandes marcas no Brasil (M. Officer, Marisa, Pernambucanas). Como a barreira linguística é um aspecto muito difícil, eles sempre contratavam brasileiros para conseguir novos fornecedores e clientes. A empresa tinha 400 funcionários e apresentava o certificado de qualidade, mas os chefes sempre faziam coisas para burlar as inspeções. Um exemplo foi quando me deparei com muitas crianças em minha sala de trabalho. Era obrigatório que a companhia oferecesse creche para seus funcionários, mas, em vezes disso, enquanto a vigilância acontecia, eles montavam uma creche provisória na minha sala para poder passar no controle de qualidade. Tinham muitas coisas dúbias, e foi se tornando cada vez mais difícil vestir a camisa de uma empresa que fazia tantas coisas erradas.

Anchal – artesão de sapatos (Happee/Divulgação)

A criação da marca própria

Como surgiu a ideia de criar a Happee?

A Happee é um trocadilho com a palavra feliz e também uma junção do nome do Peeyush, meu sócio, com o meu, porque Letícia em latim significa felicidade. A ideia era criar uma empresa que oferecesse remuneração mais adequada, que valorizasse a produção local e, ao mesmo tempo, fizesse uma moda mais honesta, de um jeito mais justo, ajudando pessoas. O conceito é deixar o cliente feliz por estar ajudando alguém que realmente precisa. Nós começamos auxiliando crianças, mas agora estamos focando no trabalho artesanal, ensinando empreendedorismo e melhorando as condições para cada artista que colabora conosco. Quando decidimos montar a marca, entramos no carro e fomos batendo de porta em porta em busca de artesãos em vilarejos. Foi maravilhoso, nós nos conectamos com as pessoas e tivemos a oportunidade de conhecer trabalhadores honestos. Você tem que ir na fonte para ter certeza que está auxiliando a pessoa certa, e é um sentimento muito bom quando você percebe o resultado.

Conte um pouco sobre o processo de produção

Nosso modo de produção foca nas pessoas, ele é mais humano e, por isso, trabalhamos direto com os artesãos nos vilarejos. Quando produzimos o tie-dye, por exemplo, passamos alguns dias nessas vilas e desenvolvemos amostras juntamente com os artistas. Nosso objetivo é aplicar o conceito de ergonomia (também conhecido como o estudo da relação entre o homem e o seu ambiente laboral). Nós queremos que eles continuem tendo outros clientes e, por isso, estimulamos a venda dos seus trabalhos para outras pessoas. Para incentivar, nossos itens vêm com etiquetas com o rosto do artesão que fez a peça e sempre contam um pouco da história do produto. Já os itens bordados são feitos por mulheres de tribos na Índia, e é possível identificar de que tribos elas fazem parte de acordo com o tipo de bordado produzido. Eu não desenho nenhum exemplar, só acompanho o processo, elas que fazem combinações de cores e nós. No máximo, mudamos o tamanho de acordo com o acessório em que o trabalho será aplicado.

(Happee/Divulgação)

Como a empresa consegue se manter mesmo indo na contramão da lógica de produção da indústria da moda?

Nós vendemos pelo e-commerce porque 70% dos nossos clientes são brasileiros. Além disso, possuímos compradores nos Estados Unidos, na Austrália, Inglaterra, França Espanha e Colômbia.

Quais os planos futuros?

Nós ainda não possuímos uma documentação com os artesãos, mas queremos trabalhar com selo de certificação. Nossa empresa é registrada na Índia e no Brasil e possui documentos e licença de exportação. Queremos começar no mês de julho um sistema de bonificação para todos os nossos artistas parceiros, ou seja, se eles terminarem os produtos no prazo estipulado e com uma qualidade 100%, vamos pagar mais por eles. A ideia é que cada artesão confie em nós, queremos ser parceiros porque se apresentarem uma qualidade melhor, eles também irão se beneficiar, é um sistema onde todos ganham.

A comunicação é uma barreira durante as negociações?

É bem complexo mesmo, mas aqui muitas pessoas falam inglês. Os indianos aprendem na escola por causa da colonização britânica, mesmo assim não são todos que sabem. Eu estou aprendendo o hindi pra poder me comunicar melhor. O Peeyush fala hindi e inglês, então sempre vamos juntos fazer as negociações, eu explico para ele em inglês e ele conversa em hindi com os artesãos. Tem que rolar um pouco de paciência, porque, às vezes, as informações se perdem.

Vocês já tiveram contato com funcionários que estavam em situações precárias de trabalho em outras empresas?

Todos eles acabam passando por situações precárias de trabalho. O artesanato é uma das maiores fontes de renda na Índia e o governo não possui esse número exato porque acaba considerando nas estatísticas uma pessoa na família, mesmo que todos os membros façam um pouco do trabalho. São produções bem familiares. Um exemplo disso é o artesão Salman (responsável por nossos tecidos de tie-dye). Ele acabou largando o emprego de engenheiro para trabalhar e ajudar o pai, mas esses são casos raros, pois a Índia está se industrializando e acaba não valorizando muito o trabalho manual. Os filhos dos artesãos, por exemplo, já estão menos propensos a se submeter a esse tipo de trabalho porque sabem das dificuldades.

Salman de camiseta azul (Happee/Divulgação)

De que outras maneiras as pessoas podem ajudar a combater o trabalho escravo?

É preciso se conscientizar cada vez mais sobre o tipo de produto consumido, saber a origem dele. Estamos em uma onda irreversível de consciência, e isso é bom. As pessoas estão se questionando mais, não só na moda, e isso é importante porque você começa a entender que tudo o que você consome tem um custo humano e ambiental.

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