A Cemfreio representa uma nova forma de fazer moda no Brasil

O 'bonde da Cemfreio' quer ganhar as ruas com seu streetwear cheio de significado.

Conversar com Victor Apolinário, nome por trás da Cemfreio, é perceber uma nova geração na moda brasileira, muito mais preocupada com ideias do que com viabilidade financeira, e com sede expressiva por mudanças. É animador, contestador e levemente mind-blowing, uma vez que estamos bastante acostumados com marcas que surgem apenas como empreendimentos.

“Eu primeiro tento conhecer as pessoas para saber os esquemas de privilégio, até onde elas podem pagar. O mais importante para mim é o Cavalo de Tróia, invadir espaços. É claro que eu não vou vender um produto a um preço que ele não se pague, mas eu ter uma marca e poder viver dela, mesmo com todas as dificuldades políticas, culturais e o desaquecimento econômico, é um grande privilégio meu. A necessidade está na rua e eu atendo as pessoas que querem conversar comigo”, declara.

Leia mais: A DMamacita cria roupas básicas para quem valoriza a diversidade de corpos e estilos

Na mesma linha, já contamos por aqui a história da paulista DMamacita, feita por e para mulheres negras que não querem esconder suas curvas, e da MIG, focada em upcycle, criada em 2015 por três garotas cariocas. Mayra Sallie é uma dessas meninas, e, não à toa, também foi uma das integrantes do casting 100% negro do desfile de estreia da Cemfreio, na última Casa de Criadores. “Se não fosse com o meu bonde, não faria sentido”, declarou Apolinário sobre a escolha das modelos que atravessaram a sua passarela. E o tal bonde da Cemfreio cresce rápido, com dezenas de pessoas que acreditam no projeto e que ajudam a disseminar suas criações pelas redes sociais, pelas festas de São Paulo e também pelas ruas. “Minha maior vontade é descolar um espaço criativo pra mim e pro meu bonde. Criar uma rede que trabalha a Cemfreio de forma imagética, com fotógrafos, modelos e pessoas que atravessam meu corpo como Apolinário e passam a mensagem Cemfreio de desconstrução, de descolar arquétipos. A intenção é chegar em um ponto em que eu não precise mais ser porta-voz”, explica.

Leia mais: Os destaques do quinto dia da 40ª edição da Casa de Criadores

 

Porém, diferentemente de outras marcas que estão despontando no cenário da sustentabilidade e do questionamento de gênero, pilares nos quais a Cemfreio também se apoia, Apolinário quer ir além da venda de roupas. Um discurso que se aproxima do que Ronaldo Fraga mostrou no São Paulo Fashion Week ao dizer que o mundo não precisava de mais um desfile tradicional. “A história das roupas só existe porque por trás delas existem pessoas com histórias”, declarou o estilista mineiro que apresentou a mesma modelagem de vestido em todo o seu show composto apenas por mulheres trans.

Se formos pensar na história da Cemfreio, ela dialoga diretamente com a trajetória do próprio Apolinário que sendo negro, gay e da periferia representa muitos dos estereótipos que ainda precisam ser quebrados no mundo da moda. É uma mensagem forte que não se limita ao discurso meritocrático, mas que, de acordo com ele, mostra que é possível chegar a lugares que até então estavam fechados. “Não tenho a pretensão de reinventar a roda, não sou a Coco Chanel, nem o Alexandre [Herchcovitch]. Eu quero ser uma pessoa que vai mostrar que é possível. É difícil pra caralho, mas o lance é descolar da elite, e pensar na periferia”, declara.

Cemfreio

E assim como a Lab fez no SPFW, o desfile da Cemfreio na Casa de Criadores emocionou por mostrar que há muitos espaços a serem ocupados. Ambos terminaram com uma festa na passarela, como se houvesse uma grande vontade de extravasar frente aos inúmeros bloqueios encontrados no caminho. “É a minha festa de 15 anos, a minha quinceanera”, comemorava no backstage. E aqui se dá a grande diferença entre os desfiles da Lab e da Cemfreio, e do Ronaldo Fraga. Enquanto para este as roupas tinham papel secundário, para aqueles elas são fundamentais. É como se a rua e a periferia, normalmente excluídos, decidissem contar a sua própria história através dessas peças e deixassem de ser apenas objeto de inspiração. Para completar, as saias, blusas e moletons de inspiração levemente oriental são extremamente desejáveis, confortáveis e feitas para quem quiser usar, sem limitação de tamanho. “Você enquadrar uma peça de roupa em algum gênero é uma construção social sua que temos que desvincular. Eu posso exercer meu corpo da forma que eu quiser e as roupas precisam ter versatilidade para acompanhar isso”, debate quando perguntamos sobre a moda sem gênero pela qual a Cemfreio ficou em evidência nos últimos tempos.

Alguns vestidos de sua primeira coleção viraram blusas enquanto outros itens tiveram os forros trocados, e há muita coisa ressignificada. Sim, dá para chamar de upcycling, a palavra do momento, mas para quem ainda não está familiarizado com ela, se trata simplesmente de perceber que muito já foi criado e que, na maioria das vezes, não é preciso extrair mais da natureza para desenvolver novos designs. “Isso aconteceu comigo pela necessidade de criação, de uma forma bem orgânica. Um produto manufaturado era pouco viável, o gasto era muito alto, mas existem em brechós produtos muito próximos a esses, então eu tentei criar uma ferramenta de descaracterização”, explica sobre o processo de pesquisa. “Termina que ele é um produto com história. O upcycling tem esse poder de trazer a lembrança, a recordação. Aquele item já viveu um milhão de rolês diferentes, e essa verdade inserida em cada peça eu não quero perder”.

Leia mais: Investir em upcycling é produzir moda sem que isso seja caro ao meio ambiente

E quando não trabalha com reaproveitamento, Apolinário sabe onde encontrar bons tecidos e tirar suas ideias do papel em uma fábrica em que conhece os processos de produção, como mostrou no projeto Melissa Meio-Fio, do qual também faz parte.

“Eu sei do trampo da costureira, eu to in loco, eu ajudo nos envios, compro os aviamentos. A minha roupa tem muitos processos caros, mas isso não necessariamente encarece o produto. A minha roupa é humana”, defende. A questão do preço é uma grande discussão no meio da moda sustentável, já que essa preocupação com o que acontece antes da roupa chegar às araras faz com que o valor final fique muito mais alto do que uma peça de fast fashion.

Pretendendo atingir a maior quantidade de pessoas possível e não deixar de olhar para quem não pode investir em uma peça statement, esse é um tema que não passa batido. Mas a resposta para ele está na intenção da Cemfreio de ir além do consumo como estamos acostumados. “O que vai fazer a diferença daqui 5 ou 10 anos, e que incentivará as pessoas a pagarem um pouco mais, é saber que você está ajudando a costureira, fomentando o que você acredita. E eu quero continuar criando essa narrativa”. Atualmente, todas as embalagens vão com uma carta feita à mão pelo próprio Apolinário. “Querendo ou não, e é o que eu desejo, pode ser que chegue um momento em que a marca fiquei maior que eu, mas, enquanto é próximo, eu quero ter esse trato com quem consome minha roupa”. Afinal, são eles que fazem com que uma blusinha estampada com a frase ‘Vamoqvamo’ espalhe a mensagem e continue aumentando esse bonde Cemfreio.

Algumas peças da coleção apresentada na Casa de Criadores já estão à venda no novíssimo Freak Market.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s