A democratização da moda passa a ser celebrada com castings preocupados com a diversidade

Até o começo dos anos 2000, para você pisar em uma passarela ou estar em uma grande campanha de moda, tinha que vir de fábrica com alguns equipamentos básicos: mais de 1,70 m, peso pena, sorriso Colgate. A regra era súper: supermodel, superwoman, supermagra, superinacessível. Basicamente, o mundo era dividido assim: de um lado, as deusas à la Cindy Crawford e Gisele Bündchen, reinando no alto do Olimpo. Do outro, a milhões de anos-luz, nós, reles mortais, se esperemendo na calça 40, subindo no salto 15 e tentando se parecer com… Bom, com o impossível. 

Esse cenário de projeção, que nunca vira realidade, porém, parece estar com os dias contados. Basta ver o casting do desfile de resort 2016 da Louis Vuitton. Elas são magras e altas? Sim, de fato são. Mas ter uma australiana com descendência oriental e cabelo rosa (Fernanda Ly), uma careca tatuada (Tamy Glauser), uma brasileira negra (Viviane Oliveira), ruivas sardentas (Madison Stubbington e Magdalena Jasek) e uma indiana (Pooja Mor), entre outros tipos diversos de beleza, é no mínimo um sinal dos tempos, bem captado pelas antenas de Nicolas Ghesquière e Ashely Brokaw, aka diretora do casting. “A impressão que eu tenho é que a Louis Vuitton quis ter um pouquinho de cada mulher do planeta”, diz Anderson Baumgartner, dono da agência Way. O que, convenhamos, faz sentido para uma marca global. E mais: ajuda a desmitificar a ideia propagada por séculos de que apenas loiras nórdicas e morenas sexy, com lábios de Angelina, podem ser consideradas lindas. 

Das passarelas para os anúncios, não é diferente. A See by Chloé acaba de voltar para o mercado com uma campanha que, no lugar das tradicionais modelos, traz 20 garotas cool selecionadas pelas ruas de Berlim, Bruxelas, Copenhagen, Londres, Paris e Estocolmo – alô, streetstyle! O mais legal é que cada uma delas foi escolhida para representar um dos motes da grife: romântica, moderna, sarcástica, etc. Ou seja, elas não atuam como cabides, mas ganham os holofotes por causa de sua personalidade.

A primeira label a fazer da diversidade sua bandeira foi a Benetton, lá nos idos dos anos 1980. Criada por Oliviero Toscani, a United Colors marcou época ao retratar várias etnias ao mesmo tempo, em uma espécie de ONU fashion, que tinha como objetivo diminuir preconceitos, além de aumentar vendas.

De lá para cá, o caráter político cedeu espaço ao comportamental, filho da internet, em que todo mundo pode ter seus 15 minutos de fama – ou mais, se for parar em uma campanha como a #Reboot, da Diesel. Primeira ação de Nicola Formichetti como diretor artístico da etiqueta italiana, o projeto fez de jovens anônimos embaixadores da label por meio de um concurso no Tumblr, que começou em 2013 e dura até hoje.

Marc Jacobs, Kenzo e Dona Karan (em parceria com Cara Delevingne na DKNY) foram outros big names que ajudaram a engrossar o coro “I want you!” ao selecionar neomodelos pela net, coisa que a fotógrafa Marina Abadjieff, da recém-criada We Are Alive Agency, está acostumada a fazer. “Escolhemos muitas meninas que fotografamos pelo Facebook e Instagram”, afirma ela, que, a exemplo da australiana Stick & Stones, investe em uma estética próxima do natural, sem muitos retoques, e já tem clientes como a Hering no portfólio.

Como nada no mundo é mera coincidência, se você já linkou essa tendência ao boom das blogueiras, voilà, está certa! Foram elas que ao brincar de modelo, postando looks do dia e angariando milhares de fãs ao redor do mundo, muitas vezes bem mais do que consagradas tops, ajudaram a redefinir as regras do jogo. “Essas meninas, que são pessoas comuns, fizeram o sonho parecer possível”, acrescenta Anderson, que, aliás, está abrindo uma nova divisão na Way, batizada de Talents.

Se na Way e em toda grande agência de modelo, altura, peso, busto e cintura ainda são condição sine qua non, na Talents, outro número entra em cena: o de seguidores. É o reinado dos anônimos superstar, que vendem estilo, e não só roupas.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s