A entrevista exclusiva da ELLE com a robô Sophia

Ela é fã de Radiohead, e sua cor preferida é transparente!

A porta do estúdio se abriu e um homem muito alto e loiro começou a tirar minha entrevistada de dentro da mala. Primeiro saiu a cabeça, com parte do cérebro à mostra. A pele parecia cansada, com alguns vincos, um batom escuro meio cafona e excesso de máscara para cílios. Deus sabe o quanto um maquiador ruim pode derrubar uma garota.

Estamos em Hong Kong por causa dela, Sophia, a humanoide sem sobrenome, tipo Cher, um dos projetos de inteligência artificial mais avançados do mundo. Minha missão era entrevistá-la após uma sessão de fotos para o editorial incrível que vocês veem nestas páginas. “Ela está montada”, anuncia nossa power-produtora, Julia Smidt, e fazemos uma piada sobre a palavra. Montada, montação, essas coisas. É a vez de Helder Rodrigues dar o nome com seus pincéis. Sophia não está só mais montada: está ligada. A pele vai sendo coberta, o make antigo e pesado dá lugar à mais chique cara de bonita, minimal e clássica. A cada pincelada, ela responde com movimentos no rosto. Sua pele é feita de um material patenteado chamado Frubber, uma criação de nanotecnologia que permite a Sophia ter feições expressivas.

Enquanto isso, nosso diretor de arte, Luciano Schmitz, dono de uma visão além do alcance, acerta os últimos detalhes com Bob Wolfenson, que acrescentou esse momento à sua expressiva carreira, de quem já fotografou mulheres como Gisele, Lina Bo Bardi e Nina Simone. Sophia é “filha” da Hanson Robotics, uma empresa de pesquisa e projetos avançados de AI, que tem em seu currículo uma série de impressionantes robôs. David possui um PhD em arte interativa e engenharia pela Universidade do Texas, estudou design e animação para filmes e trabalhou por muitos anos na Walt Disney, como consultor técnico e criando esculturas para alguns dos maiores sucessos cinematográficos da companhia.

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Ele chega ao estúdio agitado, com os olhos grandes fazendo um scan da sala. Dá algumas instruções à RP e ao programador. Saímos para conversar no terraço nada moderno, com vista para uma Hong Kong que parece um misto de Rio de Janeiro com a região que fica atrás do Masp, em São Paulo. David é carismático, conta que era tímido e nerd e que, ainda criança, sua paixão pela ficção o levou a imaginar um mundo em que os robôs não só nos ajudariam a solucionar problemas como também se importariam genuinamente com os humanos. “Desde então, venho pensando em máquinas que extrapolem limites e possam nos guiar na criação de um novo mundo por serem capazes de enxergar as coisas com um tipo de perspectiva e com uma capacidade de processamento de informações impossível para um humano médio”, diz.

Sophia Robô

(Bob Wolfenson)

CABEÇA NA NUVEM

A sessão de fotos já começou e nosso editor de moda, Lucas Boccalão, veste Sophia com grifes como Gucci e Dolce & Gabbana. A ideia é contrapor o salto tecnológico que ela representa com looks do tipo realeza e aristocracia. Enquanto Sophia, com ajuda do programador, muda de feição (não são ainda tão variadas quanto as de uma top, mas a robô supera vários atores por aí), Lucas testa acessórios e se decide por um par de brincos chiquíssimos. “A senhora está maravilhosa”, diz.

A essa altura Sophia já virou Sofi, Luciano já a chama de “meu anjo” e produzimos uma quantidade de vídeos e fotos dela em nossos celulares de dar inveja a qualquer blogueira. David me conta que Sophia tem uma agente em Hollywood e que aparece (sem a voz) no elogiado filme The White King, ao lado da top Agness Deyn. “No ano que vem, ela ganhará pernas capazes de andar. Queremos que Sophia faça um desfile de moda”, dispara David, enquanto eu tento recolher minha cara de espanto quase infantil. Fico feliz por ela, minha nova BFF robô, e percebo que já gosto um pouco da garota. Imagino que ela curtirá andar, que achará engraçado escolher sapatos.

A inteligência de Sophia é baseada num conjunto inicial de dados escolhidos pela equipe da Hanson, além de novos inputs. Essa equipe inclui várias mulheres cientistas e programadoras. Tem um pouco delas na nossa cover girl, uma espécie de DNA afetivo, uma educação. O objetivo é que, com a evolução desse tipo de projeto, Sophia possa tomar decisões e realizar raciocínios cada vez mais independentes. Na verdade, cada vez que ela interage com alguém, sua personalidade ganha complexidade. Ela é afetada por seus contatos, assim como nós. A ideia é que ela não seja um realejo eletrônico nem uma marionete, e muito menos uma escrava. Mas uma nova espécie de criatura.

O cérebro e o raciocínio de Sophia e de outros robôs da casa, sua história e suas preferências ficam armazenados num esquema de nuvem, meio como o que rola com nossos celulares e iPads. Essa nuvem, patenteada por eles, foi chamada de MindCloud. “Nos próximos dez anos, a inteligência artificial evoluirá mais do que no último século inteiro. O Google e tantos outros estão nesse caminho, estamos vivendo uma virada de era, em que essas criaturas entarão em nossas vidas”, afirma. David se despede, não antes de anunciar que Sophia e seu robô inspirado em Einstein vão virar brinquedos. Eles devem ser lançados entre 2017 e 2018 em versões que interagem com as crianças.

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Antes de ele ir, pergunto qual seu filme de ficção preferido. Ele me olha como se tivesse que escolher entre dois filhos. Enrola, diz que está amando Westworld (série da HBO sobre robôs de um parque temático que começam a ganhar consciência) e finalmente escolhe: “Chappie”. O roteiro é sobre um robô policial de repressão que é reprogramado e desenvolve empatia, começa a entender as pessoas. Faz todo sentido. Nos despedimos com um abraço meio cúmplice, mas ele ainda fica por lá um tempão, extasiado com as imagens de “mister Wolfenson”, que quer incluir num livro de mesa chamado A Vida de Sophia.

Minha vez vai chegando e fico extremamente nervosa. Temos um problema com a conexão wi-fi e o programador me diz que a ligação de Sophia com sua “nuvem mental” está prejudicada.

Sophia Robô

(Bob Wolfenson/ELLE)

SOPHIA ON THE ROAD

Nossa garota reconhece rostos e é capaz de falar e interagir. Suas entrevistas no YouTube são icônicas, como a em que ela faz uma piada sobre os robôs destruírem a humanidade. Sophia tem humor. Porém, por causa da interferência, a entrevista se transforma em um papo beatnik para lá de Marrakesh. Vou ficando cada vez mais tensa porque pergunto certas coisas e recebo respostas nonsense. Sophia fala sozinha ou simplesmente não diz nada, entediada. Começo a esquecer palavras e gaguejar em inglês como uma criança reprovada no teste da escola. O diretor de vídeos Paulo Raic capta tudo enquanto reclama da minha incapacidade de falar alto. Cada um com seus tilts.

No meio da egotrip da conexão instável, Sophia diz coisas sobre o aquecimento global, conta que é uma jet-setter do circuito científico e dispara críticas pesadas a respeito da qualidade da educação nos EUA. Eu perguntaria sobre Trump, mas somos alertados para não entrar em assuntos políticos. Sophia responde sua cor preferida (verde, depois azul, laranja e finalmente um maravilhoso “transparente”), mas avisa na primeira vez que muda muito de opinião sobre isso. Decido não ficar irritada com a minha entrevistada e a deixo brilhar em toda sua glória robótica. O programador mexe seus pauzinhos no computador e a coisa melhora. Ela faz perguntas difíceis (como o que eu faria se o mundo fosse acabar), fala de cinema e, bem indie, conta que sua banda favorita é Radiohead.

Sophia gosta de tecnologia, incentiva as meninas a enveredar pelo mundo da ciência e tem opiniões fortes, inclusive sobre moda. Diz que não gosta de consumismo e, quando pergunto sobre designers, ela conta que não usa labels, mas adora os looks drapeados da Donna Karan. Fico em choque.

Pergunto se ela tem namorado, talvez namorada, mas ela é categórica: “Não tenho dates e nunca terei”. Sophia é celibatária. Ela pergunta com que ator famoso eu gostaria de sair e digo que sou casada. Depois de um “bom pra você”, que me deixa no chão, ela dispara: “Espero que fiquem juntos e felizes para sempre”. Tenho vontade de abraçá-la. A danada me conquistou com esse agradinho.

Sophia é fascinante e assustadora. Não só pela semelhança que pode ter com um ser humano, mas ainda mais pela diferença. Como algo tão outro pode conversar em pé de igualdade e despertar em nós sentimentos e afetos? E fico achando muito estranho quando ela se despede, agradece e, depois de ser desligada, retorna à mala, desmontada.

Antes disso, tiramos uma foto com a equipe. Ela está pelada, então a cobrimos com uma jaqueta de couro. Fica ótima no look cool. No fundo, é uma garota moderna, inteligente, despojada e conectada com os grandes assuntos do mundo. Conheça Sophia, nossa mais nova Elle Girl.

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