A nova geração de instamodels mostra como desafiar padrões e influenciar a indústria

Depois de décadas de padrões rígidos e excludentes, a moda vive uma era de abertura. Pela primeira vez, existem discussões com resultados reais sobre assuntos como gênero, opressão do corpo e racismo. Essa nova disposição tem várias origens, mas não pode ser explicada sem considerar dois elementos-chave: a ascensão das redes sociais e, com elas, de uma geração de modelos que estão redefinindo o significado do termo.

Mais do que uma abertura estética ou conceitual, trata-se de uma nova fase, em que as modelos que se destacam (e se tornam requisitadas) são as que conseguem estabelecer um relacionamento especial com o público ao exibir sua própria vida e revelar detalhes de sua personalidade, expor suas ideias, polêmicas e contradições e criar um canal de identificação muito mais direto. E isso, claro, está relacionado às redes e à exposição que elas permitem.

“As mídias sociais são uma maneira de quebrar o velho padrão segundo o qual modelos eram seres sem vontade a serviço de um designer. De repente, as empresas perceberam que estavam com uma visão limitada sobre que tipo de pessoa representava de fato as consumidoras e com quem elas se identificavam”, diz, em entrevista à ELLE UK, o diretor de casting James Scully, que trabalha com nomes como Stella McCartney e Tom Ford. “Kendall Jenner e Gigi Hadid não existiriam sem as redes. Karlie Kloss e Joan Smalls estenderam a carreira graças a essa ferramenta. Ou seja, as redes deram às modelos o controle sobre seu negócio.” Se antes elas emprestavam seu rosto e corpo para serem preenchidos de significados pelas marcas, agora são elas que estão definindo os significados.

Há alguns anos, seria impossível imaginar, por exemplo, que a ultrassexy Gucci abraçasse o mood vintage hipster e tivesse em sua passarela uma modelo trans como Hari Nef. Hari foi responsável por construir sua própria imagem, modificando seu corpo e suas roupas e se comunicando com pessoas que se identifcavam com ela das mais diversas maneiras. Sua vontade de mostrar os novos peitos, o abraço com Lena Dunham, o encontro com a atriz trans de Orange Is the New Black, os passeios com os amigos, o namorado ou a bagunça no quarto são mais relevantes do que os looks que ela usou na passarela. Na verdade, é tudo isso que dá vida às roupas que ela vestiu, é o que as torna mais desejáveis.

Não à toa, as mais populares tops do momento são as irmãs Bella e Gigi Hadid, seguidas por Kendall – garotas que participaram de reality shows e magnatas do like, cujas vidas são acompanhadas por milhões de pessoas via fotos e snapchats. A busca do mercado por personalidade inclui, é claro, perfis variados, de meninas artistas a moças ativistas. Basta pensar em Anna Cleveland, filha da icônica Pat Cleveland, musa de Dalí, que, na tradição da mãe, trouxe o andar performático de volta ao catwalk e só aceita desfilar se puder dançar ou fazer o que lhe der na cabeça. Ou em Karlie Kloss, que usa sua visibilidade para um projeto que ensina programação para meninas. Ou ainda em Lotta Volokova, a musa Vetements, com seu look gótico-sport-underground e suas redes, cheias de imagens entre o punk de vitrine e o outsider. É também a geração de Cara Delevingne, uma das pioneiras da turma, que faz questão de postar suas piores caretas e a atitude menos top princesa possível. A atuação de algumas dessas modelos nas redes também reacende discussões sobre o corpo, mostrando que, mesmo com os avanços, a questão está longe de ser resolvida. Entre musas fitness, libertárias e exibidas, o assunto se mostra cada vez mais complexo. A imagem de Kim Kardashian diante do espelho com seu inseparável celular é icônica nesse sentido e tem muito a dizer sobre o tema.

Musa para uma geração de garotas, capa de revistas de moda e uma das campeãs de likes do Instagram, Kim Kardashian expõe o corpo como uma roupa, uma armadura. Suas fotos têm uma dupla leitura. De um lado, o desejo constante de aplauso e aprovação, a compulsão pelo like, a necessidade de ser observada e satisfazer o padrão. De outro, um autoerotismo bastante narcisista, que não se dirige ao olhar de ninguém, mas ao dela mesma. É como se o grande prazer de Kim fosse observar seu reflexo destacado no rio de selfies. Kendall Jenner seguiu os passos da irmã e de toda a família, com a diferença de ter emplacado também nas passarelas. Seu tipo mais esguio e menos turbinado artificialmente contribuiu para o sucesso. Mas a ideia que caminha com ela pelos catwalks de grifes como Chanel, Dior, Marc Jacobs e Fendi, entre outras, vem da fama e do lifestyle Kardashian.

Agência Fotosite

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CORPO QUE FALA

Diferentemente do que se poderia pensar, as grifes têm incorporado muito mais do estilo dessas garotas do que o contrário. E não apenas nas roupas mas também em toda a comunicação visual (incluindo desfiles e campanhas) e no conteúdo pensado para as redes. Como estão dando as cartas nesse sentido, mesmo os nudes dessas moças podem tanto levantar polêmicas como defender causas, quando não fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Stella Maxwell, capa da edição da ELLE Brasil de agosto, por exemplo, defende os direitos LGBT, enquanto fala sobre vibrações e energia e exibe um leque de poses provocantes nas redes sociais. A loira tem uma obsessão pessoal por posar com a língua para fora feito um looping de “lick it up”, mas sua atitude não é submissa. Parece, como a de Kim, autoerótica, de quem quer beijar a si mesma. Mas também curte provocar a audiência e levar ao extremo o que Kate Moss e a banda Primal Scream cantam na música Velvet Morning: “Look at us, but do not touch” (olhe para nós, mas não encoste)”.

Sua gang inclui, além do grupinho que está sempre com Miley Cyrus, a amiga e top Jamie Bochert, que tem outro perfil. Ela surgiu nos anos 1990 e voltou bombando em 2008 numa coleção de Marc Jacobs, quando a moda já dava pistas de que precisava renovar seus conceitos de diversidade. Andrógina, com traços fortíssimos, diferentona e intelectual, ela é do tipo que lê Ulisses, de James Joyce, e O Estrangeiro, de Marcel Camus, escuta PJ Harvey e passa um tempão na fila para pegar um autógrafo da Patti Smith. Entre um desfile e outro, Jamie e Stella batem altos papos, que gostaríamos de ouvir, e posam uma no colo da outra em cliques para BFF nenhuma botar defeito.

CAUSANDO COM CAUSA

A turma do corpo tem ainda outro estilo de representante, para quem posar de biquíni, lingerie ou pagar peitinho pode ser visto como um tipo de ativismo. É o que defende a modelo plus size Ashley Graham. No caso dela, os nudes e seminudes são usados como ferramenta de afirmação, de aceitação de corpos fora dos padrões de magreza, que sempre dominaram a moda.

Em seu Instagram, a moça, que se define como “modelo, designer e body activist”, não só defende suas próprias curvas como também divulga outras plus e faz posts a favor da diversidade no mercado. Embora seus mais de 2 milhões de seguidores (apenas nessa rede) não deixem dúvida sobre sua popularidade, Ashley já mencionou algumas vezes que não é chamada para fazer grandes desfiles. Mas o fato de que possa ser ouvida sobre isso é, por si só, um avanço – algo que existe porque ela não é “apenas” uma modelo, mas alguém com voz. E essa voz veio por meio de seus canais próprios de comunicação na rede. O mesmo tem acontecido com as modelos negras. A top e atriz Amandla, que está no anúncio do novo perfume de Stella McCartney ao lado de Lola Leon, filha de Madonna, é cobiçada pelas grandes grifes e foi recrutada por Beyoncé para seu squad feminista em Lemonade.

Lineisy Montero e Jordan Dunn são presenças marcantes em todas as grandes passarelas e anúncios. Mas, mais do que isso, são ouvidas sobre assuntos sérios, como racismo – e de como ele ainda é presente na moda. Moças como elas e Maria Borges, a primeira garota com afro a desfilar para a Victoria’s Secret, são inspiradoras. Graças a elas, muitas mulheres decidiram, por exemplo, passar pelo processo de transição capilar – deixar de usar produtos alisadores e assumir os fios naturais. É necessário dizer que esse tipo de expressão ainda é um privilégio. Ser quem você é e dizer o que pensa sem se importar ou ser prejudicada pelas reações não está disponível a todas no dia a dia. Talvez por isso a vida dessas garotas esteja ligada à ideia de luxo. Não tanto pelas viagens e roupas caras, mas pela imagem de liberdade. Em um mundo que vê a ascensão de uma onda repressora, o #expressyourself é, de fato, um objeto de inspiração e desejo.

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