Afinal, o que é o genderless?

Desde que a moda masculina começou a se misturar com a feminina, o mundo fashion entrou em ebulição. Será que a divisão entre os dois departamentos vai deixar de existir?

Quando Jonathan Anderson desfilou meninos de vestidos, tops e shortinhos de lã com babados, um bug se instaurou no sistema operacional da primeira fila da Semana de Moda de Londres. O inverno 2013 do estilista foi mais do que comentado e, com todo o buzz cercando o seu trabalho, ele até angariou uma celebrada nomeação: a de diretor criativo da Loewe. Naquela temporada, as roupas para garotos se misturaram ao que se entende como ladylike, formando uma espécie de amálgama entre os dois pólos, que refrescou o olhar das fashionistas. Depois disso, o debate acerca dessa divisão explodiu no circuito da moda.

Agência Fotosite

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Look da coleção de Inverno 2016 da Loewe.

Daí por diante, vários designers dedicados exclusivamente ao tal do “genderless” começaram a ganhar destaque. A Hood by Air é uma delas. Sob o comando de Shayne Oliver, a grife emprestou um jeito badass das ruas e, em suas apresentações na Semana de Moda de Nova York, a meta sempre foi chocar. Se for preciso, o estilista investe em cachorros, muletas de armas de fogo e maxichokers de acrílico. Além dele, Eckhaus Latta também surge à frente desse movimento na NYFW. Suas peças desestruturadas servem qualquer tipo de corpo e a passarela em que o designer se apresenta deixa isso muito claro. Modelos de todas as cores, formas e tamanhos desfilam por lá.

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O verão 2014 da Hood by Air contava com modelos fora do padrão e até cachorros entraram na passarela

Quanto mais o tempo passa, outros nomes vão deixando essa lista mais longa. O novo no pedaço? Vejas Kruszewski, o canadense que está sendo indicado ao prêmio LVMH. Com a modelo trans Hari Nef como sua garota-propaganda e musa, ele tem surpreendido por seus shapes arredondados e estilo college reinventado.

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O lookbook do verão 2016 de Vejas é estrelado pela top Hari Nef.

Como se todo esse rebuliço não fosse o suficiente, grandes grifes de luxo também começaram a namorar com a ideia. Não à toa, etiquetas como Givenchy, Prada e tantas outras apresentaram looks masculinos e femininos em uma mesma coleção, independentemente da designação de gênero do evento em questão.

“Cada vez mais sentimos que é certo traduzir a mesma ideia e tendência para ambos os sexos”, disse Miuccia Prada ao The New York Times. Quando alguém do porte da designer diz algo desse tipo, é porque essa proposta merece a nossa atenção.

Para todxs?

Antenadas, as redes de fast fashion já começaram a mexer seus pauzinhos. A Zara, inclusive, lançou uma linha polêmica que se autodenominava genderless. A adição da palavra emprestada do inglês gerou revolta em alguns dos clientes da marca. Isso aconteceu porque, apesar da boa intenção, as roupas não passavam de moletons, camisetas e calças jeans – peças há anos usadas por homens e mulheres. Ou seja, novidade nenhuma.

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Como explica a antropóloga da PUC-SP Carla Cristina Garcia, a universalização das coisas, sempre aconteceu pelo lado masculino da força. “Universalizar a moda de verdade seria se todo mundo pudesse dividir não só os códigos masculinos de indumentária, mas também os femininos. Só teremos um guarda-roupa realmente sem gênero quando uma saia não for mais algo tipicamente dirigido exclusivamente às mulheres”, disserta.

Aqui no Brasil, a C&A acabou se tornando acidentalmente uma referência no assunto. A campanha Tudo Lindo & Misturado mostra modelos com looks que emprestados das seções masculina e feminina: um convite para que os clientes da rede “passassem a se vestir com mais liberdade, explorando novas fronteiras”. Entretanto, eles nunca afirmaram que estariam fazendo uma moda genderless. “Queremos mostrar que as peças de roupas podem ser combinadas e usadas de diversas formas, em diferentes ocasiões, independente do gênero ou qualquer outra divisão. A campanha apresenta o novo olhar da empresa sobre a moda e esse mundo de possibilidades e não especificamente uma coleção sem gênero”, diz Elio Silva, vice-presidente de operações e marketing da empresa.

Campanha em vídeo da C&A

Nova geração

Divergindo da fast fashion, estilistas jovens (e brasileiros!) já estão surfando nessa onda e fazem questão de trazer um posicionamento diferente para o mercado. É o caso da TRENDT, de Renan Serrano. Uma das pioneiras a repensar a ordem de gênero nas roupas no país, a etiqueta conhecida por seus camisetões com transparências e modelagens oversized aderiu a trend para otimizar os negócios. “A questão está muito mais relacionada à sustentabilidade da marca do que a levantar uma bandeira”, explica o homem à frente da label. “Uma vez que o mesmo produto funciona para mais pessoas, você não precisa produzir tanto.”

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Formas amplas fazem parte do DNA de estilo da TRENDT de Renan Serrano.

Para a Ocksa, marca de Porto Alegre fundada por Deisi Witz e Igor Bastos, a situação é diferente. “Foi algo que surgiu com muita naturalidade. Nós trocávamos de roupa um com o outro e, por isso, percebemos que não havia motivos para fazer diferenciações”, justifica Igor.

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Último look do desfile de verão 2017 da Ocksa na Casa de Criadores

Na paulistana e recém-lançada Cemfreio de Victor Apolinário, a regra é o conforto. Quando essa é a prioridade, o masculino e feminino deixam de fazer sentido: o foco está em deixar tudo mais prático. “Além disso, existe uma demanda por esse tipo de roupa. Quando estou criando, penso em fazer algo para um terceiro corpo que foge dessa divisão binária”, conta o designer.

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Look da Cemfreio, à venda no Cartel 011, em São Paulo

Apesar de todos os sintomas de novidade, a tendência não é interpretada como algo transgressor por Carla. “Não acho que isso possa ser considerado como um fenômeno social ainda. Pode até estar na passarela, ter desfiles e estudos mais aprofundados sobre o assunto, mas acho que ainda demorará muito tempo para ser bem aceito nas ruas.”

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