Àlagarçovitch: um momento de transição na ÀLG

A marca foi o grande destaque do penúltimo dia de desfiles do SPFW N43.

“Àlagarçovitch” dizia uma das camisetas do desfile da A La Garçonne que rolou hoje na Bienal.

A união dos nomes me lembrou os apelidos que inventam para casais famosos, tipo Brangelina e Bennifer, juntando os dois participantes do “supercouple”. No caso da marca, trata-se de um casamento criativo entre duas pessoas de personalidades fortes e com visões de moda próprias.

Fabio Souza é um colecionador, alguém interessado na história, na especificidade temporal das roupas, a maneira como elas são feitas e usadas em cada período.

Sua porção do Àlagarçovitch é a da renovação de imagem do vintage, da redescoberta de peças, do upcycling. Saíram desse espírito, muito atual e conectado com os desejos do momento, os hits de venda das últimas temporadas, como as jaquetas e parkas pintadas à mão.

E aí temos Alexandre Herchcovitch.

O universo do estilista apareceu mais evidente nessa coleção. Talvez por isso ela seja tão cheia de imagens e referências. Muitos dos personagens e elementos de identidade de uma das maiores carreiras da moda brasileira estavam ali. O fetiche 90, onde tudo começou a ferver. Os esqueletos (sai a cabeça de caveira, entram costelas, bacias e até um dedo afrontoso). O mood dark, a vibe japão pop, a lingerie, o sexo.

Àlagarçovitch é um sinal de mudança na À La Garçonne. Fábio deu o tom do projeto, que já era dele antes da entrada de Herchcovitch. Em entrevista à ELLE, a dupla falou sobre o processo de criação e como ele funcionava, com todo o direcionamento de conceito partindo de Fabio.

A marca rapidamente estabeleceu território, cresceu e, agora, ao que parece, se faz necessário que Alexandre ganhe território no design, tenha mais espaço para todo esse poder de fogo criativo.

Não que um vá se sobrepor ao outro, mas o interessante é que os dois avancem juntos, como complementares que são nessa empreitada. Talvez Herchcovitch possa ter uma linha dentro da marca, talvez as coisas se misturem mais organicamente, o formato não importa agora.

O que importa é que o talento criativo de Herchcovitch é muito valioso para a moda brasileira. Eu diria sem medo de errar que ele é essencial. E tudo o que ele pode oferecer dentro desse novo formato ainda não foi visto, está só começando.

Essa coleção, desse ponto de vista, parece mesmo um momento de transição interno. E isso acontece em um momento bom, com a grife fechando diversas parcerias de peso, com marcas como Vans, Hering e Hope.

Não à toa a coleção tem uma forte vibe sexual, não tanto pela moda fetichista em si, mas como metáfora da energia em movimento, essa força que ajuda a girar a roda viva de tudo, inclusive no universo da moda.

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