Christopher Kane: “Os designers devem se tornar mais relevantes”

Em 11 anos de carreira, Christopher Kane construiu uma das etiquetas mais fortes da moda britânica. Confira sua entrevista completa com a ELLE.

Desde que estreou na moda, em 2006, Christopher Kane fez de tudo. Expandiu sua etiqueta para linhas masculinas, acessórios e coleções de resort e pre-fall. Vestiu algumas das mulheres mais chics da atualidade, como Alexa Chung, Michelle Obama, Emma Watson e Kate Middleton, apenas para citar algumas.

Ganhou prêmios importantes da indústria, trabalhou com Donatela Versace na Versus, foi um dos nomes mais cogitados para assumir a Balenciaga após a partida de Nicholas Ghesquière e entrou para o grupo Kering, que também contempla Gucci, Alexander McQueen, Stella McCartney e Saint Laurent.

Recentemente incluído na lista de grifes do e-commerce Farfetch, ele abre caminho para o mercado brasileiro ao oferecer seus looks modernos, em que os tecidos tecnológicos são um destaque constante, assim como a preocupação com caimentos e shapes, sempre impecáveis. Em conversa com a ELLE, o estilista fala um pouco sobre o momento atual da moda e suas inspirações.

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Você sempre foi muito criativo? Houve um momento em que percebeu que seria estilista de moda?

Eu não consigo me lembrar de não ser criativo. Sempre desenhei quando era criança, prestando atenção no corpo humano. Na Escócia, durante a minha infância, não sabia o que era um designer de moda. Isso nem era considerado um trabalho. Como sempre fui uma criança criativa, muito ligado às artes, cheguei ao colegial e comecei a ir a festas, fazer contatos com pessoas legais. Todos se vestiam muito bem, e logo depois veio a televisão, que adoro. Comecei a assistir muitos documentários, programas de moda e, a partir daí, decidi o que queria fazer da minha vida.

Você ainda assiste muita TV?

Somos melhores amigos. (risos)

O fato de ser o mais novo dos seus irmãos o influenciou?

Acho que tem a ver com ser próximo de minhas duas irmãs, que eram muito criativas. Sempre estive rodeado de mulheres. Não sei se essas coisas me levaram a ser um designer de moda, mas de qualquer forma a criatividade nunca faltou.

(Christopher Kane/Divulgação)

Na Central Saint Martins, você foi aluno da icônica Louise Wilson (que deu aulas para Stella McCartney e Alexander McQueen e faleceu em 2014). Como isso marcou o seu trabalho?

Louise foi formidável. Uma das pessoas mais incríveis que conheci. Ela era honesta, dura e forte e sempre exigia o máximo de mim, fazendo com que eu chegasse aos meus limites. Acabou também se tornando uma grande amiga, pois eu sabia que poderia confiar em sua opinião. Na maioria das vezes, ela me ensinou que a moda é um universo exigente, e não um conto de fadas. Louise me tirou da zona de conforto e me levou a um nível ao qual eu não pensei que poderia chegar. Serei sempre grato a ela por isso.

Fale sobre os primeiros anos na indústria.

O início é sempre difícil quando se pensa em termos de negócio. Nunca quis ser apenas um artista ou só criativo. Sempre tive ambição e vontade de ter um portfólio de clientes. Aprendi que para ter seu próprio negócio é preciso ir devagar.

Como você vê sua evolução desde então?

Tenho muitos desafios, mas também tenho sorte de ainda amar meu trabalho e isso é uma parte muito importante. Os desafios de hoje são os mesmos do começo, como me fazer feliz, gostar do que faço e obviamente me preocupar com a coleção, se está bonita, se vai vender, se vão gostar etc. Toda temporada é assim.

“A paixão pelo que faço fica evidente ao meu público. Quero trazer o novo.”

Já teve um bloqueio de criatividade?

Acredito que isso aconteceu com todo mundo. Os prazos são rígidos e, às vezes, não conseguimos pensar direito. Nessas horas, é melhor sair e respirar. Com tanta pressão, vêm os bloqueios. Mas, se você se distanciar um pouco, relaxar e levar a vida normal, as ideias voltam.

Qual é a sua filosofia de trabalho? Que tipo de impacto gosta de causar?

A paixão que está dentro do que faço é o que fica mais evidente ao meu público. Nunca quis ser mais um. Quero trazer o novo e, claro, tudo gira em torno de linhas fortes. É o que me separa do resto.

As silhuetas fantásticas que você constrói costumam vir acompanhadas de tecidos inovadores. Essa é uma preocupação constante no seu trabalho?

Isso está sempre na minha cabeça. Amo desenhar e construir looks diretamente no manequim, mas acredito que lidar com tecidos diferentes o separa dos outros porque dá mais liberdade e permite criar coisas a mão ou aplicar novas técnicas. Por outro lado, podemos comprar os mesmos tecidos que os outros e colocar detalhes especiais. É isso o que as pessoas querem de mim. Elas não querem vestidos simples.

Alexa Chung vestindo Christopher Kane. (Ian Gavan/Getty Images)

De onde vêm suas inspirações?

Pode ser de qualquer coisa, como páginas de livros, um holograma, uma pessoas na rua. Ou então posso estar desenhando por horas e aí surge algo. Não me lembro da última vez que fui a uma galeria de arte. Não costumo fazer isso. Está tudo na minha cabeça.

Como você vê o see now buy now?

Pode funcionar sim, especialmente com acessórios. Mas, quando pensamos em um vestido lindo na passarela, as pessoas precisam saber o tamanho do esforço para chegar a ele. Há muito luxo envolvido nesse processo e o see now buy now segue o oposto desse conceito. É uma ideia de moda feita em série. É preciso ser cauteloso com isso.

Com tantas vozes na moda, como bloggers, editores, celebridades, quem você acha que está com o poder?

Para mim, as pessoas que realmente interessam são os consumidores. É para eles que eu trabalho. Hoje, existem muitas opiniões trazidas pelas mídias sociais e nem todo mundo se aprofunda para conhecer de fato quem está falando.

Você gosta do Instagram?

Acho muito legal, mas ele tem sido usado como ferramenta de pesquisa e isso é perigoso. Se você está vendo uma foto que talvez milhões de pessoas já tenham visto, ela deixa de ser uma inspiração única. Ele é ótimo para ver imagens, mas uma pesquisa deve ser feita de maneira tradicional, com livros, revistas, filmes etc. Quando você é alimentado por estatísticas e números gerados por um computador, não é honesto. Mas adoro usá-lo na minha vida porque sou uma pessoa virtual.

Dizem que as revistas impressas irão acabar. O que você acha disso?

Eu adoro revistas de moda, ficar atualizado, saber o que está acontecendo por meio delas e entendo o trabalho que existe por trás de uma publicação de moda. Acho que o papel não perderá seu status, pois precisamos disso tanto quanto precisamos de livros. Por que não podemos viver com todas as mídias?

Qual foi o seu maior aprendizado ao longo de sua carreira?

Acho que basicamente ser você mesmo e se manter original. É preciso ter paixão e não acho que haja algo bom ou ruim.

Existe alguma coleção favorita?

Amo todas e tudo o que já fiz porque aprendi muito com cada uma delas. Me educo a cada temporada e sempre há algo importante.

Sua marca entrou para o Farfetch, um dos e-commerces mais visitados no Brasil. Como define o estilo das brasileiras e a conexão delas com o seu trabalho?

Foi uma boa jogada trabalhar com ele e adoramos. Acredito que as brasileiras buscam cores e diferentes texturas. É um público que gosta de se destacar e isso é muito parecido com os escoceses. Só não temos as praias. (risos) As brasileiras sabem investir nos trabalhos manuais e gostam de diferentes estampas, então tem tudo a ver com o que faço.

Como vê o futuro da moda?

Acho que as pessoas precisam parar de fazer suposições e julgamentos. Os designers devem se tornar mais relevantes e livres e se posicionar cada vez mais. Vai ser muito mais sobre realizar o que sentem dentro de si, e não sobre seguir a indústria. Acredito que as pessoas irão atrás do que acham certo. Pode ser ficar quieto ou ser mais rebelde.

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