Dapper Dan, o couturier que transformou a moda e o hip-hop

25 anos após falir por processos de marcas de luxo, o alfaiate para quem moda, política e música era um trio indissociável está novamente nos radares.

As menções ao couturier Daniel Day, também conhecido como Dapper Dan, foram às alturas após o desfile resort 2018 da Gucci em Florença. Uma das jaquetas da marca italiana é muito similar a uma criação especial de Dan, que foi um dos mais importantes nomes da interseção entre a moda e o hip-hop da Nova York dos anos oitenta. Com a popularização de seu trabalho, logo as vestimentas e acessórios repletos de estampas de marcas de luxo se tornariam uma referência do Harlem para o mundo.

Apesar da polêmica, a história de Dapper não é muito conhecida no mainstream. Seu pai era funcionário público e sua mãe dona de casa, e junto com seus três irmãos e três irmãs, cresceu no bairro predominantemente negro de Nova York. Em 1982, depois de uma temporada na África, ele inaugurou a Dapper Dan’s Boutique na 125th street. O negócio foi ao estrelato e resistiu 10 anos até que o excesso de processos por cópia das marcas europeias impedissem o funcionamento da loja.

My storefront on 125th Street. October 5th, 1984. #dapperdan #harlem

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Dan já era um alfaiate reconhecido quando um homem entrou em sua boutique carregando uma pochete da Louis Vuitton, impactando a moda para sempre. “O cara ficava falando sobre a pochete. Eu pensei: se ele se sente assim, como ele se sentiria se ela formasse toda a roupa?”, contou ao The New York Times. Ele contratou então um grupo de costureiros formados por africanos que conheceu no bairro de Midtown, além de familiares e um amigo da Nação do Islā, para dar vida às suas criações icônicas. A maneira como fazia os tecidos estampados, no entanto, ainda é um segredo.

Steve Stoute, o chefe-executivo da Translation, fala ao veículo sobre o impacto do alfaiate na cultura negra: “Naquela época, as marcas de luxo não eram para a gente. Toda vez que eu entro em uma Louis Vuitton para comprar um par de tênis ou um par de calças do meu tamanho, eu sei que eles estão fazendo isso apenas por causa de Dapper Dan.”

“É possível que, nos anos 1980 e 199o, Dapper Dan era o mais lançador de tendências da cidade. Seu trabalho era um presságio tanto do aparecimento da indústria fashion do hip-hop quando da reinvenção das casas de design de luxo europeias”, conta a The New Yorker.

Mas o couturier é cético em relação aos seus dotes de estilo: “meu senso veio de ter buracos nos meus sapatos. Eu colocava papelão e papel na sola. Mas chegava em um ponto em que elas acabavam. Cheguei em casa da igreja em um domingo e disse à minha mãe: ‘ma, meus pés estão me matando. Eles doem muito’, e eu tinha lágrimas nos olhos.” No dia seguinte, ele e seu irmão mais velho Cary foram em busca de um novo par. “Eu escolhi  sapatos legais e experimentei. Cary me perguntou: ‘como você se sente?’ e eu respondi: ‘me sinto bem.’”

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Quando jovem, Dapper saiu da escola e nunca pensou em estudar moda. Pouco tempo depois ele se tornaria presidente da Sportsmen Tots, a divisão jovem de uma temida gangue da cidade. Quando ficou mais velho, no entanto, entrou em contato com a política e as ideias de pensadores negros americanos. Tornou-se crente das virtudes da sobriedade total, mesmo que alguns de seus amigos mais próximos estivessem envolvidos em atividades ilícitas.

O passo essencial de seu novo caminho foi na Urban League, um centro de ajuda e incentivo a jovem afro-americanos que oferecia um programa para levá-los para a África no verão. Se na América ele já estava lendo autores como Elijah Muhammad — o líder da Nação do Islã —, e Jethro Kloss, as tradições africanas e as novas políticas do país ofereceram a ele uma imersão no tipo de segredo que ele parecia buscar.

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Antes de fazer seu próprio design, no entanto, seu desejo era ter uma loja de multimarcas — que nunca foi realizado pela recusa dos fornecedores. “As coisas que eu queria revender não estavam disponíveis para mim, as grandes empresas queriam me vender. Eu atribuí isso ao preconceito ou a localização — então isso me inspirou”, descreve ele à revista britânica.

“Minhas primeiras experiências sobre etnia foram em casa. Eu ouvia a minha mãe e meu pai falarem sobre como as estruturas da sociedade nos afetavam. Eu lembro também de Hulan Jack. Era um homem negro, prefeito do bairro de Manhattan, que vinha falar à sexta série da minha escola sobre como o conhecimento era poder. Aquilo me fascinou.”, descreve ao The New York Times.

My fully Gucci-customized Mercedes Benz. #dapperdan #harlem

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Sua boutique ficava aberta sete dias por semana, 24h por dia. Rappers, celebridades, esportistas e líderes de gangues, como Alpo Martinez, tiravam polaroids dos lançamentos em seus guarda-roupas, e aquelas fotos alcançavam outras cidades americanas. “Às duas da manha, pessoas de lugares como a Filadélfia estavam comprando na Dapper Dan”, conta o cantor de R&B Jeff Redd.

As experiências que Dapper descreve exibem o quanto as roupas refletem um status social. Mas apesar das fotos de arquivo focarem em seu lado obsessivo com os logos, foram os casacos de pele gigantes que fizeram seu negócio decolar. “O mais interessante são itens feitos de seda, linho, couro e peles exóticas. Essas coisas determinam seu status”, conta ele à Dazed and Confused.

“O que Dap fazia era tomar o que as grandes marcas da moda estavam fazendo e fazer melhor”, conta o rapper Darold Ferguson Jr. ao jornal norte-americano. “Dap era o curador da cultura hip-hop.” Quando questionado sobre o que faz desde que sua boutique fechou há 25 anos, Mr. Day olhou para o seu filho, Jelani Day: “ele foi para o underground”, contou Jelani. “É uma longa história, mas é tudo que precisamos falar agora.”

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