Diversidade na moda: onde estamos e para onde vamos?

Durante o SPFW N43, debatemos o tema com estilistas, maquiadoras, professoras, assessoras de imprensa e bookers de modelos.

“Para falar sobre padrões de beleza precisamos entender a origem da ‘modelo'”, diz Astrid Façanha, coordenadora do bacharelado de moda do Senac durante a última edição do SPFW. Durante um almoço no café da Bienal, ela e a professora Simone Mina explicaram tudo sobre Marie Vernet, a esposa de Charles Worth, o primeiro grande couturier da história na França. “Ela serviu de manequim para ele (…) e depois teve essa ideia de treinar moças humildes para se tornarem modelos. Ensinava os trejeitos das mulheres ricas da época para que as clientes de seu marido pudessem se identificar”, continuou. No começo, elas até eram chamadas de sósias: “Marie Vernet, inclusive, rebatizava essas meninas com apelidos que lembravam o nome das freguesas da casa”.

E quem fazia parte dessa clientela? “Supostamente, mulheres ‘bem nascidas’, brancas, ricas…” Ao que tudo indica, esse estereótipo ainda está arraigado no inconsciente coletivo do mercado de moda.

Segundo uma pesquisa do IBGE de 2014, 53,6% da população brasileira se identifica como negra ou parda. No entanto, nas passarelas do evento que aconteceu no decorrer da semana passada, apenas 14,6% do casting de cada desfile era composto por negros.

A voz do novo

“Eu acredito que a moda é um retrato de seu tempo”, conta o rapper Emicida, no backstage de sua segunda apresentação por trás da LAB, ao lado de seu irmão Evandro Fióti e do estilista João Pimenta. “O que a gente tem feito aqui é imprimir um outro ângulo desse tempo.” Não à toa, o desfile da marca foi o único casting com maioria negra. E eles ainda foram além: pessoas mais gordas, mais velhas e um modelo com vitiligo estavam entre os modelos da etiqueta. “Eu passei a minha vida inteira sem me ver na televisão, nas revistas, nos jornais… Quem me mostrou isso foi o hip-hop. Ele fez a gente desenhar nos nossos bonés, escrever o nome do nosso bairro neles. Ele disse ‘você tem uma história, mano. Seu cabelo não é feio, sua cor não é feia, levanta a sua cabeça’

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Emicida no backstage do desfile da LAB. (Thomas Rera/ELLE)

Desde sua estreia na principal semana de moda do Brasil, a LAB trouxe o debate da diversidade para o circuito fashion. A ascensão de movimentos sociais feministas, contra o racismo, a favor da inclusão LGBT e tantas outras causas relacionadas a direitos humanos fez com que a moda começasse a abrir os seus olhos, mas ainda estamos muito atrasados.

A internet mudou toda a regra do jogo. Às vezes, uma pessoa legal no Instagram tem um magnetismo muito maior do que uma modelo de agência tradicional

Thais Mendes, da SQUAD Agency

“Acho que o cenário ainda é bem ruim. Claro que ninguém acorda do dia para a noite com mudanças efetivas, mas consigo enxergar melhoras”, analisa a blogueira Juliana Romano. “Como pode a moda, que é tão inovadora em tantos aspectos, ainda ser tão conservadora quando se fala de diversidade?”. Para ela, o bom estilista de hoje não precisa somente ficar “viajando em ideias conceituais”, mas sim criar roupas que vistam bem qualquer tipo de corpo. “As pessoas ainda têm esse pensamento infeliz de que só a magra é elegante e bonita. É mentira! Isso só acontece porque a moda trabalha só para ela. Se as roupas fossem feitas para as mulheres gordas, elas também ficariam lindas. O que precisa acontecer é uma mudança de raciocínio. A gente precisa enxergar a beleza no diferente.”

Leia mais: “Não somos dos Jardins, mas também temos beleza e elegância, e isso precisa estar na semana de moda”, diz Emicida.

Ju Romano

Ju Romano (Gustavo Lacerda/ELLE)

Juventude transviada

Segundo Beatriz Modolin, pesquisadora de tendências do WGSN, assim que os millennials passarem a representar a população com maior poder de compra do mundo, este cenário pode mudar radicalmente. “Essa geração cresceu com muito acesso à informação, devido à internet. É uma geração que abraça as diferenças. Eles enxergam o diferente como positivo e natural. É algo a ser celebrado. Para eles, diversidade importa“, explica. Por enquanto, esses jovens ainda estão economizando para comprar uma peça de luxo por ano, se muito. “No entanto, em 2020, os millennials serão 40% da população mundial, fora a influência que eles já exercem no meio em que estão.”

Quem me mostrou isso foi o hip-hop. Ele fez a gente desenhar nos nossos bonés, escrever o nome do nosso bairro neles. Ele disse ‘você tem uma história, mano. Seu cabelo não é feio, sua cor não é feia, levanta a sua cabeça

Emicida, rapper e criador da LAB

Mesmo que eles ainda não sejam o público-alvo das marcas que estão no line-up das semanas de moda mais respeitadas do mundo, já estão surgindo algumas agências especializadas em modelos  que fogem do padrão que reina atualmente. Na linha de frente está a SQUAD Agency. Thaís Mendes, responsável pelo “scouting” da empresa, conta que, para ela, “corpo e medidas nunca foram um parâmetro“. “Eu simplesmente começo a pesquisar nas redes. A internet mudou toda a regra do jogo. Às vezes, uma pessoa legal no Instagram tem um magnetismo muito maior do que uma modelo de agência tradicional”.

Tay Oliveira ✨ #squadbrazil

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Liliana Gomes, diretora-geral da JOY Models, uma das maiores agências do Brasil, também acredita nisso. É por isso, por exemplo, que eles investiram na top do momento das passarelas brasileiras: a transexual Valentina Sampaio, capa de ELLE em novembro do ano passado. “Por enquanto, as marcas que procuram mais por diversidade são aquelas que têm um público jovem, moderno e descolado“, conta. “Hoje, acho que estamos conseguindo mostrar muita gente bonita que antes não tinha espaço no mercado. Esse é um momento muito bonito e muito importante para a moda.”

Valentina Sampaio usa parka militar, Alexandre Herchcovitch, brinco, A la Garçonne + Hector Albertazzi no editorial de moda “Dupla Dinâmica”, da revista ELLE. (Bob Wolfenson/Reprodução)

Pense duas vezes…

No entanto, para Amanda Schonmaquiadora feminista que anda desafiando noções de feminilidade com seu trabalho e ganhando cada vez mais destaque no cenário – é preciso ter cuidado. “É uma linha muito tênue que divide o que é real do que é uma estratégia mercantil pesada. Novas estéticas estão começando a aflorar. O mercado não cede tão fácil, mas eu ficaria muito feliz se o novo padrão de beleza fosse o respeito à personalidade de cada um. Assim a gente acabava com essa ideia de corpo perfeito de uma vez por todas.”

⚡JUSTKIDS⚡ #tb #spfw42

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Se você levanta uma bandeira e depois esquece ela erguida, sua marca acaba perdendo a credibilidade. Hoje, o consumidor não é mais besta

Samantha Simon, assessora de imprensa na MktMix

Ainda que tenha uma postura crítica frente a essa onda de iniciativas pró-diversidade, Amanda acredita que os tempos mudaram… Pelo menos, um pouco. “Apresentar um trabalho como o meu antigamente seria muito mais difícil, com toda a certeza.” A modelo trans Hari Nef, nossa capa de fevereiro, disse numa mesa de discussão promovida pelo Business of Fashion que “diversidade é diferente de inclusão“. Inclusão é colocar as minorias na conta: acrescentar alguns modelos “diferentes” só para manter a sua integridade ideológica frente aos seus clientes. Diversidade é fazer disso uma prática constante.

(Mariana Maltoni/ELLE)

“Além de ter uma linha plus-size ou qualquer coisa do tipo, é preciso ter continuidade“, reforça a assessora de imprensa Samantha Simon, da MktMix, empresa que faz o RP de marcas como À La Garçonne e UMA por Raquel Davidowicz. “Nosso direcionamento é sempre para que essas iniciativas sejam feitas de forma verdadeira, que estejam ligadas à essência de cada marca”, explica. “Se você levanta uma bandeira e depois esquece ela erguida, sua marca acaba perdendo a credibilidade. Hoje, o consumidor não é mais besta”.

E agora?

Para progredir rumo a um cenário de moda menos injusto, Hari Nef dá a letra. “O meu futuro está nas mãos de vocês“, disse para a plateia lotada de grandes players da moda internacional no #BoFVoices. “A moda é uma indústria poderosa porque tem a capacidade de mostrar ao público o que é respeitável, o que é bonito, o que é sexy, o que é limpo, o que é inspirador. Com uma situação política tão retrógrada, a gente pode mandar uma mensagem diferente. Pode até parecer ingênuo ou idealista, mas basta ligar para uma agência de modelos e dizer ‘eu quero tais e tais pessoas no meu casting’. Existem profissionais que já estão preparados para isso. Nem toda representação na mídia é boa, mas se todo mundo se engajar verdadeiramente nas causas que pretende representar em suas campanhas, desfiles e editoriais, é possível mandar mensagens extremamente poderosas e empoderadoras para uma clientela que está sendenta por saber se ‘ser quem se é’ é algo ‘ok’.”

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  1. Robert Willian

    Uma matéria bem feita, parabéns, a diversidade na moda evoluiu bastante, mas temos que tomar cuidado para não “elitizar” uma nova geração e esquecer como disse a nossa colega ” as bandeiras erguidas”.

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