“É natural para mim procurar pessoas fora do padrão”, diz JPG

Fotografamos a alta-costura do estilista e ouvimos uma defesa apaixonada da personalidade.

Jean Paul Gaultier é apaixonante e apaixonado. De seu famoso urso de pelúcia (para quem fez seu primeiro corset com sutiã pontudo) a Madonna (para quem criou a versão mais icônica da peça), ele conquistou seu espaço com um misto de técnica primorosa e um olhar único, capaz de abraçar o pop e os desejos femininos em um só movimento.

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No fim de outubro, o estilista esteve no Rio de Janeiro para o relançamento de seus dois perfumes clássicos: o Le Male e o Classique, com as famosas embalagens de corpos torneados. Depois de uma animada festa em Santa Teresa, com direito a show de Elza Soares, acarajé e pista fervida, o designer recebeu a ELLE no hotel Fasano para uma entrevista divertida e cativante – seguida por um shoot com os looks de sua alta-costura. Leia a seguir e veja se consegue não cair de amores por ele, como caímos. (Spoiler: vai ser difícil!)

A top Anna Cleveland foi uma das estrelas da festa aqui, no Rio. Ela é uma das suas novas musas, certo?

Anna herdou essa exuberância da mãe dela, Pat Cleveland. Fabulosa. Mas nunca usei Pat como modelo. Na época, ela fazia todas as grandes coisas. Desfilava para Tierry Mugler. Eu era novo e queria imprimir meu estilo fora do mainstream. Anna é fantástica, uma rainha cheia de graça. Não atua. É como se vivesse um poema. Ela gosta de estar ali, fazendo tudo o que faz. Tem a ver com o que a move.

Você sempre teve olhos para a diversidade, para modelos não convencionais em todos os sentidos, não?

Sim, sempre. É algo natural para mim procurar pessoas fora do padrão, da mesmice. Como eu disse, não trabalhei, por exemplo, com Pat Cleveland quando era o momento dela. Estava de olho na Edwiges, a rainha do punk, na Farida (a atriz e modelo Farida Khelfa, grande amiga de Gaultier). Algumas me perguntavam: “Como eu devo desfilar?”. E eu dizia: “Só seja você mesma, não faça nada. Você já é perfeita”. A Farida, no começo, desfilava mascando chiclete, e eu achava ótimo. As pessoas achavam estranho, mas era uma atitude natural dela. E eu não gosto da Anna porque ela é performática, mas porque a atitude dramática é algo natural para ela. É um jeito de viver.

Então você está mais interessado na personalidade que elas podem passar com suas criações?

Cada uma tem sua personalidade. Esse é o ponto. Eu gosto disso, de caráter. É bonito poder mostrar personalidades diversas, sabe? Como cada um pode ser belo à sua maneira. Eu gosto de mostrar isso.

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(Bob Wolfenson/ELLE)

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Você já disse que tem um carinho especial pelas mulheres latinas. De onde vem isso?

Honestamente, devo dizer que gosto delas. Primeiro porque eu me sinto próximo delas. A latinidade lembra a minha infância, de quando eu era muito pequeno. Tenho família no País Basco, em uma parte fronteiriça com a França, e eu sempre quis ir para a Espanha, Espanha, Espanha! Falava bem o espanhol antes de ir para a Itália e começar a misturar os idiomas, mas sempre tive esse encanto pelos idiomas de origem latina. Em 1981, eu vim ao Brasil convidado pela Melissa, junto com Claude Montana e outros designers. Sei que é um clichê, mas me apaixonei pela mistura de raças. É a mistura que cria pessoas bonitas, interessantes e singulares. E há tempos tenho uma grande amiga brasileira, Bethy Lagardére. Ela ficou sendo um exemplo dessa mistura brasileira que você descreve? Ela é uma embaixatriz, cheia de alegria. Eu amo isso, sabe? A Bethy é linda, maravilhosa. Ela é louca, mas tem uma loucura linda. Eu me lembro de um momento em Paris em que houve um jogo de futebol entre França e Brasil, e um mês antes ela me pediu para eu fazer um vestido de alta-costura com as cores da bandeira. Ela estava nos Champs-Élysées, era verão, julho. O carro abriu, e ela saiu com aquele vestido, todos gritavam “Brasil, Brasil!”. Mas a França venceu, e ela não falou comigo por duas semanas. Hahaha! Gosto desse tipo de temperamento das mulheres latinas. Uma mistura de inteligência e generosidade. Você sabe, tinha um filme muito bonito, Orfeu…

Sim, Orfeu Negro.

A música é fabulosa. Sim, a música é fantástica. Além do ritmo, a música brasileira é romântica, tem pensamento e uma boa dose de melancolia. Como a (cantora) Amália Rodrigues. Bom, ela era portuguesa. Mas eu me lembro de quando era criança. Vi Mistinguett, Édith Piaf, tudo na TV. Minha avó tinha uma TV e ela me deixava ver tudo o que eu queria. E quando vi Amá- lia Rodrigues cantando no Olympia, em Paris. Eu me lembro das roupas. Ela sempre usava preto, vestidos enormes, no fm dos anos 1950. Não entendia a música, mas sentia a atmosfera. A imagem era tão bonita, marcava uma elegância, tinha um senso trágico, e era lindo. Eu me lembro que era incrível. Minha avó chorava. Estava emocionada. Ela também não entendia, mas chorava porque estava sentindo aquilo, ficava sensibilizada. Viajei um pouco, mas quis dizer que tudo isso tem a ver com o espírito latino, que amo. A emoção, a beleza diversa. Rossy de Palma! (Atriz e musa de Pedro Almodóvar e também de Gaultier.)

Quando você conheceu Almodóvar, imagino que tenha sido poderoso. Acho que vocês têm algo em comum.

Ele é incrível. Vê e mostra as mulheres, entende as mulheres de maneira inteligente. Ele sempre tem papéis muito fortes para as atrizes e não trata as mulheres como objeto, como tantos outros cineastas. Temos em comum a admiração e o respeito pelo feminino.

Seus figurinos para Almodóvar são icônicos. Aliás, seu trabalho como figurinista é muito rico. Agora mesmo você assinou um show de variedades alemão, certo?

Sim, Te One Grand Show. É uma produção enorme, com muita gente, muito divertida e rica. É um show que lembra minha infância. Acho que a primeira coisa que vi na TV com minha avó foi a abertura de Folies Bergère. Eu tinha 9 anos, e só tinha um canal em preto e branco. Havia duas garotas que desciam com meias arrastão, tudo com strass. Amava aquilo. Achava fabuloso. No dia seguinte, fui à escola e fiz um croqui com as dançarinas. A professora viu e colou o desenho nas minhas costas para me humilhar. Mas o que aconteceu foi o contrário. Até então eu era rejeitado, sou filho único, não fazia esportes, era muito ruim em futebol. (risos) Toda hora, era Gaultier isso, Gaultier aquilo. Ninguém gostava de mim. Hahaha!

 Entendo você completamente. Eu também era péssima nos esportes. Mas o que aconteceu depois do episódio da professora?

Com meus desenhos, tudo mudou, e os colegas sorriam, diziam “faça um para mim”. Naquele momento, aquilo foi importante, uma maneira de ser aceito. Foi meu passaporte, uma maneira de me expressar que me fez ser amado.

Foi seu primeiro desfile! Hahaha!

Sim, mas eu prefiro os bastidores! Três anos depois, eu estava assistindo a um programa sobre a história de um estilista, muito dramática, e tinha alta-costura, desfiles, passarelas, modelos. Eu pensava que queria fazer a mesma coisa que ele estava fazendo. O que me atraía era o show, o desfile, não eram as lojas, sabe?

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(Bob Wolfenson/ELLE)

Claro, a moda em movimento.

Era por causa das mulheres reais, se movendo. Elas eram parte daquele show, eram parte da história. Eram heroínas. Então, quando eu fiz moda e decidi ir mesmo para essa área, era exclusivamente para fazer desfiles. Se não fosse para isso, eu não teria feito. Quando criei os sutiãs de Madonna, os corsets, queria criar um espetáculo sobre a escolha de estar sexy, mas não de forma submissa. Era sobre não fazer as coisas exclusivamente para agradar o homem. Era sobre machismo, sobre independência da mulher, sobre a posição da mulher. Tudo isso me interessava. Minha moda derrubou clichês e rebateu o tipo de mentalidade que trata mulheres como tolas, estúpidas. O que não é verdade, pois elas são mais inteligentes do que os homens. Sempre soube disso. É fácil perceber. E minhas apresentações, da roupa à música, procuram criar discursos, apontar intenções. Por isso deixei o prêt-à-porter depois de 20 anos.

Eu já ia perguntar sobre isso.

O prêt-à-porter está virando fast fashion, Zara, H&M, Uniqlo. É claro que há muita gente nova fazendo muita coisa boa, mas a realidade é essa. Na alta-costura, tenho mais liberdade e sou meu próprio ombudsman. A loucura toda do marketing, não, eu não quero nada disso. Quero a minha liberdade. São vantagens que me tornam mais confiante e mais criativo. Eu prefiro assim. Gosto de me envolver em tudo, de ter opções.

Grandes criadores do pop dizem o que você está dizendo. Se ouvirmos Madonna e David Bowie falando sobre os próprios shows, eles dizem “ok, faço música, mas tenho que controlar meu look, o cenário, porque tudo fala de uma coisa só”.

Com certeza. Eu odiava quando alguém se metia e dizia “bem, isso não é muito Gaultier”. Querida, eu sou Gaultier. Eu sei o que é Gaultier! Hahaha!

Né?

Posso errar? Sim. Mas preciso ter liberdade. Por exemplo, você falou de Madonna e David Bowie. Madonna me escolheu porque ela gosta das minhas roupas, ela usa as minhas roupas e, principalmente, porque ela sentiu que o que eu estava dizendo por meio das minhas roupas tinha algo em comum com ela, sabe?

Exatamente. É um tipo de diálogo muito interessante.

As pessoas dizem que eu provoco ou que faço coisas só para provocar. Acredito que podemos provocar determinadas pessoas, mas não fazemos puramente para provocar. Nós fazemos o que o momento pede. É um pouco por intuição. Acho que Madonna é totalmente assim. E David Bowie também. Não fiz nada na minha carreira para ser famoso, rico, isso ou aquilo. Eu fiz porque queria fazer. Para jogar meu jogo, como quando eu era criança. A honestidade é a melhor coisa.

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Nos anos 1990, você tinha muitos fãs aqui não só pela moda mas também por causa do programa Eurotrash, que você apresentava na TV. Você se divertia muito, não?

Sim, nos divertíamos muito. Meu namorado havia morrido e estava tudo difícil quando recebi o convite para fazer o programa. Para mim, funcionou como terapia, como forma de me distanciar um pouco do mundo. Podia ser eu mesmo e falar com meu sotaque francês, que continua idêntico. (risos)

Eu estava lendo uma entrevista da Lotta Volkova, da Vetements, e ela dizia que cresceu vendo Eurotrash.

Sim, fiquei muito surpreso. Fizemos um episódio de reunião este ano e foi igualmente hilário. Não sabia que tanta gente gostava de mim por causa do programa.

Não era só por causa do programa! Hahaha!

Ok, porque quero que gostem de mim pela moda. Claro que sim!

Obrigada pela entrevista. Hoje você vai à praia?

Vi uma pessoa na piscina (do hotel Fasano) e fiquei com inveja. Achei tão bonito. Quero tirar alguns dias assim, praia, piscina, sem me preocupar com nada.

Entrevista originalmente publicada na ELLE novembro.

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