Exclusivo: um teaser em vídeo do que a LAB apresenta hoje no SPFW

A LAB fecha o SPFW N43 nesta sexta-feira e revela com exclusividade um preview de seu fashion film Herança, uma mostra do que vem por aí na passarela.

No dia 24 de outubro do ano passado, o São Paulo Fashion Week parou para observar a estreia da LAB em sua passarela. Aquela temporada contou com outros pontos altos, como a apresentação de Ronaldo Fraga, que correspondia bem à ideia do prefixo TRANS que o evento incluiu em seu nome, mas foi o significado das palavras que Emicida rimou logo na segunda-feira que ecoou com força pelo resto da semana.

Agora, ele e Fióti voltam como o desfile de encerramento deste SPFW, quase como uma espécie de headline de um festival de música morno. A expectativa é grande por vários motivos, entre eles a falta de nomes fortes e queridos no line-up (Ronaldo, Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho se ausentaram desta edição), mas principalmente porque há muita gente ansiosa para conferir o que a marca que sacudiu a moda brasileira há cinco meses, incitando debates como a falta de representatividade de corpos e de modelos negros, preparou para esta noite.

A coleção “Herança” tem novamente a direção criativa de João Pimenta e vai explorar a relação dos irmãos com o samba. Nesse contexto, é muito provável que ela sirva mais uma vez como catalisadora de conversas importantes que pouquíssimas vezes foram feitas por aqui. Afinal, falar de raízes em um país como o Brasil é afrontar um presente bastante racista e desafiar noções arraigadas de beleza. Para isso, eles contam com homenagens a personagens como Cartola e ao legado de sua mãe. “A gente precisa estourar a bolha e ter essa conversa sobre elegância. Não somos de Pinheiros, dos Jardins ou de Moema, mas também temos beleza, elegância e originalidade, e isso precisa estar na semana de moda”, reitera Emicida. Nada mais inteligente do que se voltar aos que os fortaleceram no passado, como grupo e como indivíduos, para afrontar com fôlego um hoje desafiador.

Enquanto espera pela apresentação, que vamos transmitir ao vivo pelo nosso Facebook, confira com exclusividade um teaser do fashion film da coleção, dirigido por Tavinho Costa e direção de srte de Tim Perissé, e uma entrevista com Emicida, feita na segunda-feira (13.3).

A coleção que vocês vão apresentar na sexta fala sobre herança. De alguma forma, a da estreia também trazia esse debate de raízes, ancestralidade, certo? Como essas duas coleções se relacionam?

A gente sempre busca referências em alguns episódios da nossa história dentro da nossa narrativa porque ela começa antes da nossa chegada. Outras pessoas vieram antes, e o que nós temos é a oportunidade de dar continuidade a elas. É uma ideia de que todas as pessoas podem se perguntar o que culturalmente elas herdaram do passado.

Fiquei sabendo que a sua mãe bordou algumas peças para essa coleção, o que tem tudo a ver com o nome dela. O que você herdou da sua mãe?

Eu sou um artesão do que eu faço. Ontem, fazendo a trilha do desfile, a gente entrou num papo filosófico, e eu comecei a refletir… eu sou um artesão da música. Eu faço uma coisa que minha mãe também faz. Ela fez o próprio tear, ela fez o próprio tecido e contou a própria história de acordo com os padrões que ela respeita. Eu me sinto à vontade dentro disso. É a forma que eu tenho de oferecer o meu artesanato às pessoas. É tudo muito emocional, muito orgânico.

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Emicida no backstage do desfile da LAB. (Thomas Rera/ELLE)

A sua mãe foi o seu primeiro contato com a moda?

Ela não começou a bordar na minha infância. Minha mãe ficou um tempo sem bordar e voltou para contar uma história, o que traz uma outra riqueza para coisa. No meu contato com a moda, as primeiras pessoas que me fizeram refletir foram da cultura hip-hop, quando a gente customizava a roupa. O fazer você mesmo, desenhar no seu próprio boné, camiseta, foi o que abriu minha porta para reflexão, foi daí que saiu a moda. Claro que depois vieram editoriais, clipes de música e tudo ficou mais amplo. Antes você estava dançando, estava na rua, e se você caísse e rasgasse a calça não tinha dinheiro para comprar outra, aí tinha que remendar, e assim vinha a customização. Em termo de vestuário, as roupas sempre tinham que ser confortáveis.

E você acha que o que hoje é chamado de moda de rua continua desse jeito?

Acho que sim. Tem peças mais ousadas, que funcionam mais para passarela, ou para foto, mas acho que a prioridade do street é a vontade, tem que dar para usar. Usar aquela peça de forma que não te limite tem que ser o norte.

A trilha sonora foi essencial para o desfile da vez passada e imagino que será novamente, principalmente pelo tema da coleção. O que podemos esperar desta vez?

A música tem tudo a ver com o universo da onde a gente vem. Acho que no fundo a gente move tudo isso para fazer música, e agora temos a oportunidade de homenagear um gênero que é a síntese do universo brasileiro. A Fabiana Cozza participa da trilha e ela redefiniu o que a gente estava pensando ontem no estúdio. De uma maneira muito natural, a gente quer rever o samba.

Dá para perceber que a música influencia muito o seu trabalho na moda. De alguma forma a moda passou a influenciar a sua música?

As duas coisas são elos de uma mesma corrente, que faz parte de um estilo de vida. São elementos que constroem uma atmosfera, que faz com que as pessoas se sintam bem. A música é assim, e dependendo de quem está com a agulha na mão, a moda também pode fazer isso, incluir ou excluir.

A estreia de vocês no SPFW foi muito comentada e elogiada principalmente por trazer à tona questões como racismo, elitismo e representatividade. A proporção que o desfile da LAB teve no ano passado pressionou vocês de alguma forma para este?

A gente não sofre nenhum tipo de pressão. A gente se orgulha disso e acha que o SPFW perde muito quando essas questões não estão ali dentro. A gente precisa estourar essa bolha e precisa ter essa conversa sobre beleza e elegância. Vai dizer que o Cartola não é a coisa mais elegante que o Brasil já viu? Ele nunca teve stylist, ele é naturalmente elegante, e isso precisa estar na semana de moda também. Agora, o que precisamos entender é o quanto as outras pessoas estão dispostas a entrar nessa discussão, o quanto as outras marcas estão dispostas. A gente representa um ponto de vista sobre o Brasil, um ponto de vista diferente. A gente não é de Pinheiros, dos Jardins e de Moema, e isso não é negativo. Nós também temos beleza, elegância e originalidade.

O SPFW sempre teve um público majoritariamente de elite. O que você pensa sobre essa elite usar a camiseta “I Love Quebrada” da última coleção da LAB?

Acho que se as pessoas se identificam com isso, elas têm o direito, da mesma maneira que eu, quando tinha 14 anos, quis estudar japonês. Eu não quero julgar ninguém nesse sentido. Agora temos que repensar o que significa a palavra elite. A elite são os melhores, representa o que um determinado grupo tem de melhor, na minha maneira de ver. A elite é uma vítima da língua portuguesa, como me disse Caetano Veloso. Ela é o melhor, e o melhor que a gente tem pode estar no Capão Redondo. Eu não uso essa expressão “elite”, mas, sim, a gente nasce no contraponto disso. Só que depois que eu conheci o Paulo [Borges], eu vi que ele não é uma barreira, e isso me inspira e me motiva dez vezes mais. Pressões precisam ser feitas para que a gente esteja cada vez mais lá.

E quem é o público-alvo da marca hoje? Você sente que ele mudou depois do primeiro desfile?

Nossa música passeia por lugares que nem a gente vai, e assim é com a moda também. Uma coisa que chamou atenção foi o Carnaval. Muita gente marcou a LAB nas fotos. Eu quase nunca saio à noite porque sou pai de família, mas quando saio para algum trabalho vejo que não é só o rolê do rap que usa e aí eu sempre volto repetindo “quem foi que colocou as barreiras?”. Fico feliz de estar ajudando a demolir. Quem disse que as roupas têm que ficar restritas à mesma idade, à mesma identidade de gênero? No casting do desfile, a gente teve três pessoas trans. Conseguimos construir uma atmosfera bonita e elas se sentiram bem para ir lá competir como qualquer outra modelo.

Vocês têm uma grade bem completa que tenta atender ao maior número de tamanhos possível. E isso é um dos maiores debates da moda atualmente. Sendo uma marca pequena, como vocês fazem para essa conta fechar?

É realmente complexo desenvolver uma grade assim. A reflexão que tem que ser feita é de como dar esse passo e construir peças bacanas em tamanhos maiores. A gente veio do merchandising e era mais fácil porque eram apenas camisetas. As pessoas precisam saber conduzir essa discussão porque para uma marca pequena é oneroso. As pessoas não têm possibilidade de produzir, e elas não cometem esse tipo de erro porque querem excluir. É claro que existe um padrão de beleza que não estamos interessados em participar, mas entendo que é complicado para uma marca pequena. A gente se esforça para produzir, e desde o momento em que a gente decidiu se assumir como marca, temos que reiterar isso cada vez mais no nosso discurso.

E como foi lidar com o questionamento sobre os valores das roupas? Vocês chegaram a soltar um texto no site da LAB sobre isso…

As pessoas bateram nessa tecla, sim, e no fim das contas foi uma oportunidade de debater, e nós nunca fugimos de debate. A ideia de escrever foi do Fióti e com a carta a gente acabou reforçando a construção da nossa história. Foi bom no fim e agora está lá fixo pra quem quiser ver.

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