Marc Jacobs homenageia os jovens negros que mudaram a moda

O fato de Marc Jacobs ter sido um dos únicos a reconhecer a realidade publicamente não faz dele um herói, mas apenas alguém disposto a fazer o que é certo.

A estética do hip-hop é a base de tudo o que consideramos trendy na última década e não para de consolidar seu espaço no high fashion. Os bonés, os tênis, os moletons, as calças e as bombers esportivas, tudo isso vem sendo pensado e repensado por grifes de todo porte, incluindo as grandes maisons. Um tipo de look nascido na década de 1980 nos bairros pobres de Nova York e forjado nas ruas de periferias mundo afora antes de ganhar as passarelas.

As experiências das grandes labels com esse repertório são muitas e com resultados variados – às vezes, patéticos, beirando o desrespeito, às vezes, inspiradores e conceitualmente inteligentes. Na última temporada, porém, um grande estilista deu um passo à frente nesse processo não simplesmente por fazer uma boa coleção inspirada nesse estilo, que veio das ruas, mas por finalmente dar crédito às quebradas de Nova York por tamanha revolução na história da moda. Ficou a cargo de Marc Jacobs esse importante statement.

A coleção foi inspirada no que ele viu no excelente documentário The Hip-Hop Evolution, disponível em episódios na Netflix e que traça um panorama do movimento desde os anos 1970 até agora. Embora o foco seja a música, a estética vem junto, e não como detalhe, mas como uma expressão criativa com força total. “Como alguém nascido e criado em Nova York, foi durante meu período na High School of Art and Design que comecei a ver e sentir a influência do hip-hop em outros estilos musicais, nas artes e no estilo”, escreveu o estilista em uma carta distribuída antes da apresentação. “Essa coleção é um gesto de respeito ao cuidado e à consideração dedicados à moda por uma geração que sempre será o fundamento da cultura jovem e do street style.

Marc Jacobs

Ao final, todas as modelos sentaram em cadeiras na calçada em frente a caixas de som. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Na temporada anterior, Jacobs havia sido acusado de apropriação cultural por botar meninas brancas de dreads em sua passarela raver. Embora a discussão seja realmente válida, como inclusive parece acreditar o designer, dado o conteúdo da mensagem acima, não custa lembrar que na década de 1990 o que mais se via nas festas e raves europeias, e inclusive nas brasileiras, eram pessoas brancas usando dreads.

Naquela época, o debate sobre a apropriação não era algo público, mas o que já fervia havia tempos era o interesse dos jovens por algo que vibrava e vinha da cultura street. Cultura essa protagonizada por negros, embora a indústria tentasse e ainda tente de muitas maneiras apagar ou diminuir esse fato.

Se Jacobs quer ser o novo pastor dedicado a espalhar a mensagem de Grandmaster Flash, Bambaataa e Kool Herc, deuses do hip-hop, um dos profetas dessa estética é o fotógrafo Jamel Shabazz. Inicialmente acompanhado pelo pai fotógrafo e com uma Canon AE1 SLR na mão, Jamel soube captar o que estava rolando nas ruas de Nova York. Paralelamente à onda disco e aos yuppies e seus terninhos engomados, os olhos do fotógrafo captaram o cotidiano de jovens nas ruas de bairros como o Brooklyn e o Harlem, passando pelo Bronx e por outros cantos da cidade. O caminho feito de metrô foi amplamente documentado.

Na frente de casas, nas lojas e nos conjuntos, meninos e meninas, muitos deles envolvidos com música de alguma maneira, reinventavam o uso das peças esportivas, davam novo status aos tênis e criavam o que veio a ser chamado de cultura sneaker. Os tênis já existiam, mas essa geração viu neles outras possibilidades. Usando-os com alfaiataria e com saias, enxergando a inovação de design voltada para o conforto com outra perspectiva e aplicando-a às necessidades na cidade, enquanto brincavam com cores, formatos e cadarços, eles mudaram tudo. No inverno, vieram as jaquetas rústicas com pelo, os chapéus bucket e as boinas, os grupos de garotos negros todos vestidos em shades de marrom e bege, elegantes, sofisticados. O garimpo nos brechós, o veludo, a pele fake ou não. A roupa de brilho e festa usada com os mesmos casacos casuais do dia a dia.

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Depois do desfile de Marc Jacobs, Scott Schuman, do The Sartorialist, maior nome da onda 2000 do street style, escreveu em tom de brincadeira no Twitter: “Não estou dizendo que a coleção foi inspirada no trabalho de Jamel Shabazz. Mas também não estou dizendo que não foi”. De fato, as entradas de tops como Adwoa Aboah e Slick Woods pareciam diretamente saídas das imagens captadas por ele. No  início de abril, Jamel foi convidado pela Bookmarc, loja da rede Marc Jacobs, que mantém em suas prateleiras uma seleção especial de livros de moda, arte e design, para lançar e autografar sua nova coleção de imagens da cidade, chamada Sights in the City – New York Street Photographs.

O fato de o desfile de Marc ter sido feito em silêncio, com as caixas de som do lado de fora, na rua (elas só foram reveladas quando os convidados estavam indo embora), foi um recado. Para começar, cortou aquela vibe de curtir um rap sentadinho sem dar um passo além. É como se ele dissesse: a trilha que dá vida a esses looks está lá fora, procure saber.

A cartela de cores e os shapes também lembram as criações de Dapper Dan, a lenda do Harlem, que usava logomarcas de grifes como Fendi e Vuitton para compor peças icônicas, que falavam dos desejos de status do gueto e de como as ruas enxergavam o luxo. Usando couro de todos os tipos, pele e veludo, os modelos criados pelo alfaiate atraíram a atenção de nomes como LL Cool J, Public Enemy e Mike Tyson. Dan extrapolou os limites da vizinhança e, com a fama, vieram os processos movidos pelas marcas, que acabaram inviabilizando sua produção. Ainda hoje envolvido com a cena fashion local, ele permanece como uma testemunha de um período extraordinário.

Dapper Dan (Larry Busacca/Getty Images)

As histórias de Jamel e Dan, além dos registros de imagem dos pioneiros do hip-hop e milhares de anônimos que fortaleceram a cena, estão sendo resgatadas em vídeo. Além do documentário que inspirou Marc, títulos como Fresh Dressed, Rubble Kings e a série hit The Get Down ajudam a entender melhor a cena. Toda essa produção está ligada ao crescimento da militância e da nova organização dos movimentos de ação afirmativa.

As grandes labels, que estão sempre falando de história e herança e protegem atentamente seus códigos e suas logomarcas, em geral têm pouco cuidado em dar os devidos créditos a legados criativos de grupos coletivos. A importância do que aconteceu em NY enquanto os prédios queimavam no Bronx e uma geração de jovens lutava contra o racismo e a violência com pouca ou nenhuma ajuda é o que é: um movimento de palavras, roupas, música, arte visual e dança, que construiu um mundo próprio, colocando beleza onde ela era negada, dando voz ao que era silenciado. O fato de Marc Jacobs ter sido um dos únicos a reconhecer a realidade publicamente não faz dele um herói, mas apenas alguém disposto a fazer o que é certo. Que outros possam seguir o exemplo.

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