O afeto ganha a moda com objetos simbólicos e laços pessoais

Memórias, objetos simbólicos e laços pessoais alimentam coleções que buscam gerar conexão ao sublinhar valores em comum.

Money can’t buy me love”, diziam Lennon e McCartney vestidos com seus terninhos alguns anos antes do chamado Verão do Amor e dos comerciais fofos de cartão de crédito. Os cínicos dirão que eles estavam errados. Humanistas, que estarão sempre certos. Enquanto o debate avança e o mundo queima entre a promessa do caos geral e a construção de novos modelos de organização social, um grupo de designers aposta no resgate do afeto e faz dele e de suas expressões o grande tema da moda no momento.

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O filme de Petra Collins para a campanha de eyewear da Gucci é uma ótima chave para entrar nesse movimento. Ele mostra dois irmãos que, usando os óculos da avó, entram num mundo de poesia em que senhoras tocam guitarras durante um misto de pool party e cerimônia de batismo, um lugar em que crianças e adultos caminham e dançam de mãos dadas e onde as memórias e as sensações não são soterradas pelo peso da vida adulta média e o que ela tem de mais medíocre e cruel.

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Campanha “Faça Amor, não muros”, da Diesel. (Diesel/Reprodução)

Os óculos representam o olhar da avó e seu jeito de ver o mundo, mas também um olhar sem um rosto específico e que tudo pode ver, os “eyes without a face”, como diz a música da trilha sonora. Por outro lado, também refletem a perspectiva criativa de Alessandro Michele e sua visão de moda singular, movida pelo desejo de colecionar bons momentos.
Petra é neta e prima dos protagonistas e escolheu filmar tudo em seu país natal, a Hungria. A campanha, portanto, reúne todos os elementos que estão se transformando em coleções, desfiles, anúncios e produtos de moda: noção de origem, ligações familiares, herança afetiva (incluindo os objetos), fraternidade e visões de um mundo com espaço para a suavidade.

Alinhavando memórias

Michele é o grande nome de uma onda que vem antes dele, um movimento de valorização do passado, que na moda se traduziu com o hype do vintage em diversos formatos. O diretor criativo da Gucci, com seu talento especial para os detalhes, levou esse espírito à excelência do design e da imagem. Suas peças, tão cheias de elementos quanto um flea market ou um baú do tesouro, questionam e confundem os marcadores de tempo pelo viés afetivo. Será o cachorro da estampa um retrato de um cão da família, o padrão de uma almofada da casa de alguma tia, um pedaço de lembrança de uma blusinha de lã usada na infância? Essa moça desfilando de mala e chapéu, para onde será que vai? Será essa uma imagem do futuro ou do passado de sua mãe, a história de uma prima que deixou tudo para trás? O que é o tempo perto da extrema e eterna proximidade que sentimos com aqueles que amamos e as memórias que herdamos ou construímos juntos?

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Desfile da Dolce & Gabbana, inverno 2017. (Agência Fotosite/Agência Fotosite)

Além da estamparia e das aplicações, outros elementos da própria roupa ajudam a ilustrar a ideia. O kitsch decorativo que lembra o interior de casa e os patchworks, que juntam pedaços de diferentes tecidos (e são usados como metáfora das relações humanas), apareceram em muitas coleções, de Dolce & Gabbana e Etro a Alexander McQueen. Os corações, as roupas casulo (sinônimo tanto de aconchego quanto de autoproteção),os acessórios que parecem ou são suvenires, objetos afetivos especiais, herdados ou garimpados, os bordados feitos à mão, tudo isso fala sobre história pessoal e vários tipos de conexão.

A passarela de inverno da Prada foi construída como um quarto para contar a história de sua dona. A casa, a cama, os pôsteres, os livros – é assim que Miuccia Prada tenta explicar sua mulher, que ela chama de “inconformista”. Pedacinhos do que se vê ali vão para as roupas, criando uma conversa íntima, cheia de pistas sobre como funciona o pensamento dessa mulher, do que ela gosta e, em última instância, quem ela é.

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O quarto-cenário da Prada. (Prada/Divulgação)

Talvez ela seja amiga das garotas Missoni, que entraram na passarela com os pussyhats, gorros cor-de-rosa com orelhas de gato que foram usados na Women’s March e se tornaram um dos novos símbolos da luta feminista. No fim do desfile, Angela Missoni convocou seu clã para se juntar às modelos e dar um recado sobre moda, união e política. “Sinto a necessidade de dizer que, nesse tempo de incertezas, existe algo que pode nos unir e nos deixar mais fortes e seguros. Estou falando do elo que une todos aqueles que respeitam os direitos humanos.” A mensagem se referia especialmente aos desmandos e às declarações inaceitáveis do presidente Donald Trump nos EUA, incluindo suas posições xenófobas.

O discurso de Angela amplia a ideia de família, indo do vínculo familiar para a ideia de comunidades unidas por mesmos valores e crenças. Esse link muitas vezes foi esquecido na moda, especialmente depois que o conceito de heritage começou a ser usado como sinônimo de algo que pertence à marca, a seu acervo de criações, e a quem adquire suas peças.
Porém, com os avanços da economia colaborativa, das parcerias e da influência de causas maiores (lutas contra o racismo, marchas feministas) sobre os códigos de estilo, a questão dos valores em comum retoma sua importância para as marcas. Algumas colaborações inusitadas, como a da própria Missoni com a marca de streetwear francesa Pigalle, podem ser lidas por essa perspectiva. É uma marca de luxo italiana se unindo a uma grife que trabalha com jovens do bairro homônimo, uma região que tem em seu passado um histórico de prostituição e hoje abriga uma comunidade diversa e muito unida.

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Esse tipo de parceria, de grandes labels com ícones street ou marcas menores e engajadas, aliás, é a cereja do sundae do momento. Para alguns, é algo genuíno e realmente significa união de forças, comprometimento. Para outros, uma forma de apenas aproveitar o histórico de certos grupos marginalizados para fazer muito dinheiro. A chamada cultura black, incluindo aí o hip-hop, está dando as cartas nas imagens de moda. B-boys, rap, bailes, grafitti, são muitas as referências a esse universo. Porém, enquanto as jaquetas customizadas com spray estão sold out por aí, grafiteiros e pichadores são perseguidos pela polícia, e o racismo ainda é um problema mundial muito sério. Muitas vezes falta envolvimento e comprometimento com o que uma cultura representa, a relação permanece apenas superficial.

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Campanha Stella McCartney “Tudo é amor”. (Stella McCartney/Reprodução)

O sentimento de se conectar com alguém, com alguma ideia, de estabelecer uma comunicação real é uma das forças mais poderosas entre os seres humanos. Que esse encontro seja intermediado por objetos que ganham status quase mágico, sejam óculos, vestidos , amuletos ou anéis de BFF, não é ruim e nem é novo. Objetos que simbolizam união e de homenagem estão registrados desde os primórdios. A questão é outra.

A moda evolui muito quando substitui imagens de violência estetizada, de objetificação e de repressão feminina por imagens de afeto. Que alguém ganhe dinheiro com isso, também não é problema. O lamentável é tentar transformar o amor em si, as raízes afetivas, a solidariedade, em mercadoria descartável.
O amor está em constante reinvenção e é capaz de se conectar com toda a produção humana, inclusive com a moda. Generoso e aberto, combina com quase tudo, menos com mesquinharia e com a cegueira seletiva de almas pequenas.

 

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