O futuro da moda irá unir tecnologia e sustentabilidade

Na moda de hoje estão as pistas para entender o que deve acontecer nos próximos anos.

O interesse da moda pelo futuro é muito antigo. Filmes das décadas de 1920 e 30, nos primórdios do cinema, mostram um estranho desfile de ideias sobre como as pessoas se vestiriam nos anos 2000. Gadgets e roupas inteligentes já estão no repertório dessas produções, assim como looks estelares e minimal. A questão continua aberta, mas a resposta agora parece extrapolar os limites do design e da função dos objetos e obedecer a uma série de códigos cada vez mais complexos. Apesar de a curiosidade sobre o amanhã intrigar mentes criativas desde que o tempo passou a ser entendido como algo que pode ser projetado e imaginado, foi na década de 1960 que a moda realmente se apropriou disso e transformou em roupa uma série de visões futuristas. Foi o reinado de Pierre Cardin e Courrèges.

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Os trajes minimalistas e com referências ao cosmo eram uma mistura do desejo por um design simplificado, muito marcante na época e sinônimo de modernidade, e das possibilidades e novas fronteiras trazidas pelas grandes potências mundiais e sua corrida pela conquista do espaço. As viagens tripuladas e a chegada do homem à Lua, cercada de euforia e espanto, abriram o caminho para uma onda de interesse não só pelo caminho das estrelas mas também pela cara que a sociedade teria quando morássemos em cidades ultratecnológicas.

O minimalismo e o futurismo sessentistas, aliás, continuam sendo em grande parte nossa referência estética de futuro. Da saga Star Wars ao 2001 de Kubrick, chegando ao hype da série Black Mirror, tudo explora o contraste de branco e preto, linhas simples, tons pastel e poucos enfeites. Nas produções de cinema e TV, o visual minimal clássico de certa maneira aponta para um mundo com recursos, mesmo que em guerra permanente ou eticamente falido. No comentadíssimo episódio de estreia da terceira temporada de BM, Bryce Dallas Howard interpreta uma neurótica em busca de popularidade num mundo em que o status social das pessoas, e suas conquistas, é totalmente determinado pelas notas que elas recebem numa rede social opressora, que conecta absolutamente todas as pessoas. Perversos, frustrados e doentios, os personagens usam roupas claras, impecáveis e de cortes limpos, assim como no 1984 de Orwell. São diferentes visões de uma espécie de uniforme.

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O FIM DO MUNDO COMO O CONHECEMOS

Até mesmo em O Planeta dos Macacos original, de 1968, o figurino segue a linha minimal para os líderes e maltrapilho para os escravos. Os humanos não estão mais no poder, mas os símios assumiram o posto e podem se dar uma série de luxos, inclusive o de preferir roupas sofisticadas e elegantes.

A evolução dessa ideia nos leva às visões mais catastróficas do futuro. De novo graças ao cinema, outra linguagem visual começa a tomar conta dos olhares mais atentos. Com os anos 1970 avançando, as grandes utopias desmoronando e o cidadão comum passando a se dar conta e ser informado sobre questões ligadas à natureza, a percepção de que o futuro poderia ser um grande deserto passou a figurar entre as mais fortes imagens relacionadas a esse tópico.

Filmes como Mad Max ajudaram a moldar o look fashionista do caos, com seus modelos rasgados, desabados ou então com volumes desproporcionais endurecidos e estranhos. Não por acaso, algo semelhante ocorria na moda. As escolas japonista e belga de design têm ligação direta com esse tipo de estética, da assimetria, do estranhamento e da dificuldade de comunicação.

Rei Kawakubo, Ann Demeleumeester, Yohji Yamamoto, Martin Margiela e tantos outros ajudaram a consolidar essa imagem futurista, que, mesmo diferente e focada no estudo do desencontro, da impossibilidade, também é minimalista à sua maneira. É um minimalismo teatral, dramático, exagerado. Para ser mais exata, é paradoxalmente um minimalismo maximalista, um minimalismo levado às últimas consequências. De certa forma, ele reflete perfeitamente um cenário extremo, em que a tragédia é imensa e cada recurso restante tem de ser usado até o seu limite. Tanto literalmente (falta de água, superaquecimento etc.) quanto metaforicamente, no sentido de valores humanos que precisam ser resgatados e destacados.

ALGORITMO FASHION

Foi graças a belgas e japoneses que a moda deu um grande salto no escuro de um futuro abismal, que ela foi além das gerações anteriores e olhou mais de frente questões como a morte, a inteligência artificial e o X-corpo, o corpo mutante. Essa revolução tem um nome: Alexander McQueen.

O mais brilhante dos pessimistas e sua mítica Atlântida de Platão, primeiro desfile da história transmitido ao vivo e que teve como imagem mais forte os impossíveis sapatos Armadillo, feitos para pés não humanos, ou para a musa mama-monster da coleção, lady Gaga. Antes disso, o designer britânico já havia questionado em desfiles que podem ser chamados de obras de arte os limites da sanidade, da vaidade, da carne e da presença. O holograma de Kate Moss mostrado na coleção inverno 2006/07, as roupas pintadas por máquinas durante o show da primavera 1999, as mulheres plastificadas até a deformação no inverno 2009 – a lista de ousadias do designer é longa e oferece uma leitura riquíssima.

McQueen tem momentos minimal. Porém é, em geral, máxi. Muitos detalhes, recursos, bordados e texturas compõem a narrativa de suas roupas e apresentações. É um futuro em que o mundo não foi devastado nem deu muito certo, de grandes inovações e atrasos monumentais. É um futuro sempre próximo, mapeado de perto e, por isso, sempre parecido com o presente, embora com gadgets e tecnologia mais avançados e com roupas cada vez mais luxuosas.

Com a morte de McQueen, iconicamente enforcado em seu guarda-roupa, a moda entrou numa fase de códigos cada vez mais complicados e difusos. Talvez ele tenha ido longe demais como hacker de trends, e o sistema fashion, sentindo- -se muito exposto, tenha encontrado sua defesa se escondendo numa espécie de algoritmo complexo.

É claro que sempre podemos falar de Iris Van Herpen e de Hussein Chalayan, com suas técnicas extraordinárias, seu domínio da wearable technology, sua sofisticação em termos do que as novidades criadas pelo homem estão mudando em nossa maneira de vestir. Mas eles estão bem longe de ser os estilistas mais influentes de nosso tempo. E isso já dá uma pista de que eles não estão, de fato, captando e dando forma ao lado mais humano de nossa atual visão de futuro. No fundo é um pouco como olhar para as estrelas: a luz que se enxerga nelas é na verdade um reflexo do passado, vem de estrelas mortas há milhares e milhares de anos.

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Há mais novidade, por exemplo, na roupa antiguinha de Alessandro Michele para a Gucci. Ela diz mais sobre o futuro segundo o que pensam os millenials, por exemplo. Um futurismo nostálgico, que só vê vantagem em retomar as glórias de um passado aristocrata, como se os “antigos valores” fossem restaurar a fé no mundo. O futuro do pretérito, novos castelos de uma geração de princesinhas e príncipes moderninhos, fascinados pela herança (inclusive fashion) da vovó.

Não à toa, essa é a moda mais desejada do período em que o mundo alcançou seu patamar mais alto de concentração de renda nas mãos de menos de 1% da população mundial.

De outro lado, mas no mesmo barco, o mundo da não-ostentação caríssima de Demna Gvasalia e sua galera completa o quadro. Quanto mais rua, melhor, desde que com itens com preço de alto luxo. Não é um pauperismo como o proposto pela escola japonista, mas um “vidalokismo” de butique, na vibe de quando a cena punk chegou às passarelas. “No future for you”, diziam os Sex Pistols. Mas enquanto Sid Vicious morria de overdose, pouco tempo depois, Johnny Rotten virava um esquisitinho cool com o seu novo grupo, o PIL (sigla de Public Image Ltd.). Sintomaticamente, quando isso aconteceu, ele se livrou das tachas e dos alfinetes e recorreu a um look meio minimal desconstruído.

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DAQUI PARA A FRENTE

Os millenials aos poucos ficam para trás e as gerações Z e A entram em cena. De seu gosto pela vida do dia a dia, pela rotina mais comum vista via InstaStories e Snapchat, começam a sair os novos códigos. E eles são cada vez mais nichados e específicos.

A programação do novo futuro fashion tem a ver com a tecnologia, mas não para nas novidades dos laboratórios. Ela está focada na diversidade e na recriação dos afetos, em como as pessoas vão se reaproximar fisicamente através do virtual, em como evitar extremos e encontrar algo que, apesar de único e baseado na experiência individual, também seja dotado de espírito coletivo. Todo o papo sobre diversidade e inclusão será colocado à prova e terá de mostrar sua verdade, muito além do marketing.

O look esportivo sai na frente nessa onda porque há tempos conversa com o sem gênero e com o design mais acessível e com personalidade. As novidades devem vir de novas injeções de criatividade sobre esses conceitos. A nova moda será a do avanço de robôs, mas também a da reconstrução do humano. O novo grande fashion designer dessa moda ainda está por vir. Talvez seja um coletivo ou milhões de indivíduos sem um nome nos letreiros (uma grife com coleções ultrapersonalizadas, com lançamentos “assinados” à distância por seus consumidores, por exemplo).

No final, o que interessa é se a nova onda da moda vai mais uma vez adaptar as roupas às regras sociais do status ou se, como em raros momentos, finalmente trabalhará, longe do oba-oba e da correria que não sai do lugar, por uma mudança genuína.

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