“O mundo não precisa de mais um desfile”, diz Ronaldo Fraga

Com casting composto 100% por mulheres trans, o desfile do estilista mineiro Ronaldo Fraga não foi sobre roupas, e sim sobre as modelos.

Ronaldo Fraga nunca faz só um desfile: o mineiro sempre arma uma apresentação que fala sobre roupas, mas também sobre pessoas, ideias e principalmente mudanças. O designer é (literalmente) um cara iluminado: tem o poder de jogar os holofotes sobre questões de pouca visibilidade e assuntos que merecem destaque. Foi assim ao olhar para os refugiados, o Rio São Francisco e mestres da arte e da literatura brasileira, como Cândido Portinari, Athos Bulcão e Guimarães Rosa.

Por isso que a exibição de hoje, armada no Theatro São Pedro, não foi apenas um desfile. Com um casting 100% transexual, Ronaldo colocou em cima do palco mulheres invisíveis e, por um breve momento, transformou-as em protagonistas – uma mudança e tanto para quem é diariamente hostilizada. A coleção, batizada de el dia que me quieras… (uma referência à loja do estilista Ney Galvão, endereço que fazia sucesso com as travestis em Itabuna, no interior da Bahia) contava com um único vestido em várias versões – os desenhos foram pintados à mão pelo estilista e depois impressos nas peças.

“Hoje me senti valorizada e percebi que a luta das transexuais não é em vão”, comemora a cantora Danna Lisboa, uma das modelos, logo após a apresentação. “Um desfile como esse não dá voz só a mim, mas sim a todas as trans. É preciso falar sobre a nossa resistência e questionar onde fazemos guerra e onde fazemos paz.” No final do show, Ronaldo foi ovacionado pela plateia e se emocionou muito durante o bate-papo com ELLE. Confira nossa conversa na íntegra:

Por que você está tão emocionado?
A história das roupas só existe porque por trás delas existem pessoas com histórias. E essas histórias são de virar do avesso. Hoje, o que menos importava era a roupa – tanto que era a mesma modelagem para todos os vestidos. Mas a história particular de cada uma delas dá dignidade e imprime cor, volume, textura e música que nenhum estilista consegue imprimir em uma roupa. Porque essa impressão é pessoal de cada um.

Por que decidiu contar a história das transexuais?
Eu sou meio repetitivo. Falo sempre de amor, resistência e da moda como ato político, força de protesto e apropriação cultural. São as mesmas histórias. E eu gosto dos invisíveis. Falamos hoje de um grupo que é dizimado no Brasil. São estatísticas que colocam o país no topo do ranking das nações que mais matam travestis e trans no mundo. Mas ninguém faz nada sobre isso. A média de vida de uma trans no Brasil é de 35 anos. Elas morrem devido à violência, suicídio ou pelo tratamento errado de fundo de quintal com hormônios. E ninguém fala nada. Elas saem das escolas aos 10 anos de idade por conta de bullying e não voltam mais. Não dá mais para ignorar isso.

E como você pensou as roupas?
Não temos uma peça bordada na linha – eu que sempre coloco um bordado tirei tudo nessa estação! E o corpo delas que acabou dando forma às criações. As roupas são soltas e, curiosamente, quem deu bunda e peito para as peças foram elas. Em determinado momento eu olhei e pensei: ‘nossa, essas roupas são minhas mesmo?’ E não, elas não são mais minhas, pois quando o outro passa a vesti-la ela já não é sua mais. O outro vai imprimir a história dele ali. Também quis trazer essa coisa da roupa de boneca, com uma brincadeira com as décadas de 1920, 30 e 40, pois são períodos glamourosos que seduzem as mulheres. Eu desenhei os vestidos, os colori com canetinha e lápis de cor e a partir daí já foi para o corpo delas. Foi uma coisa de entender e de não perder de vista a função da moda.

Teve alguma história em particular que foi especial para você?
É muito legal pensar que uma coisa tão superficial como a moda pode ter o poder de libertar alguém. Todas têm uma história emocionante sobre a primeira roupa feminina que ganharam. Uma delas me contou que era de Belo Horizonte e que o primeiro vestido dela era meu, da coleção do Guimarães Rosa. Um item que ela guarda até hoje.

Qual a mensagem que você gostaria de passar com essa apresentação?
Não da pra acender uma vela para Deus e outra para o Diabo. Precisamos ser contundentes. Tem que ler o release. Tem que falar, carregar na tinta. Não dá pra ser mais ou menos. Minha forma de protesto é essa. Minha forma de ir para a rua é essa, que é meu trabalho e o meu oficio. As pessoas me dizem: ‘você vai deixar de vender desse jeito.’ E eu estou aqui pra vender? Eu estou aqui pra viver bem. Estou aqui pra justificar o meu ofício e poder dizer que eu tenho orgulho daquilo que faço. Da mesma forma que um dia eu senti orgulho de chegar no Piauí e ouvir de um jovem que ele só leu Drummond e Guimarães Rosa porque viu um desfile meu na TV. Eu espero que isso aqui plante uma semente em uma país onde pessoas como o Bolsonaro só crescem. Não dá para brincar com essa nuvem negra que está tomando conta do mundo.

Como você montou o casting?
A Roberta [Marzolla], que é minha grande diretora de desfile, já tinha me dito: ‘vamos fazer um desfile de drag queen?’. Eu falei que queria fazer algo em um contexto mais especifico. E sabia que não existe agência de modelos trans? A primeira agência especializada no mundo abriu em Los Angeles há três semanas. Não tem no Brasil, não tem em Londres, não tem em Berlim e não tem em Tóquio. Então três ou quatro delas são modelos, mas o restante é professora de dança, dona de casa, atendente de banco ou até mesmo garota de programa. Elas são de tudo, um retrato do nosso Brasil. Se ser mulher hoje em dia já é difícil, imagina ser um homem cuja alma feminina está presa em um corpo que não combina com aquilo.

Por que você escolheu o Theatro São Pedro para o desfile?
Pois ele também passa essa mensagem de resistência. O mundo não precisa de mais um desfile. Nós precisamos de outras coisas. Esse lugar, nossa… Não posso nem falar que eu choro! Aqui foi palco da estreia de Macunaíma, em 1973, entre muitos outros feitos incríveis.

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