Os clássicos do verão mudaram – e por que isso é importante

A última década foi de luta por abertura e novas escolhas. A moda vai girar, mas as moças de ontem e hoje conseguiram fazer uma rachadura no padrão.

Um verão sem progressiva, sem saltão nas festas, biquínis confortáveis e make diferentão, bem longe do vermelho clássico e do make “de bonita”, todo neutrinho. É o bonde do novo sexy, que não está só de passagem nem é apenas uma megatrend, mas o resultado de um processo lento, que pouco a pouco abriu espaço entre clássicos, clichês e alguns conceitos já muito enraizados no vocabulário fashion.

Como lutar contra a ditadura do saltão, como superar o mito do fio-dental ou passar por cima da dinastia de loiras e morenas de longos cabelos lisos? A insistência foi a palavra de ordem. Discussões sobre feminismo e empoderamento estão no pano de fundo. A ideia de que o conforto e a expressão pessoal devem superar certas visões de feminilidade são um ingrediente essencial. E a adesão de celebridades e it-girls ajuda a amarrar o pacote.

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A entrada das flats no mundo do luxo é um marco do nosso tempo. Não apenas as já manjadas sapatilhas e rasteiras, mas o boom dos oxfords e creepers, os chinelos, babuches, mocassins, slippers e, é claro, os tênis. Não mais usados como peças puramente street, praiana ou de fim de semana, mas aceitos em ambientes de trabalho (exceto os muito caretas) e em festas.

Vestidos de gala com rasteiras são o começo do fim das mulheres descalças de fim de festa, dos brindes de sandálias de dedo em casamentos, dos pés sujos de quem não conseguiu dançar e aproveitar a noite em cima de 10 cm de salto.

Para elevar sem cansar, chegou uma nova geração de flatforms, empurrada pelo revival da década de 1990, aquela que trouxe entre outras coisas toda uma geração de girl bands com pegada feminista e os coturnos detonados para todos e todas.

A sandália hit pesadona da Vuitton e a febre do modelo Elyse, de Stella McCartney, são ícones desse movimento. Usadas para acompanhar desde os looks mais básicos até vestidos de festa, eles ganharam as ruas e os corações.

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LUXO E CONFORTO

Isso não quer dizer, claro, que as loucas por saltos imensos e finos vão deixar de usá-los. O que ocorre é a ampliação de código, um movimento que inclui peças muito mais confortáveis na imagem da festa, do luxo e também do sexy. A mulher “feminina e elegante” não é mais necessariamente a de vestido colado e stilettos, nem a de longo e sapato alto de cetim.

Talvez um dos melhores exemplos dessa onda, que veio para ficar, seja Rihanna. Sexy e poderosa de moletom e chinelo, tanto quanto de look transparente e Louboutins. De extensão lisa ou com seus novos dreads. Linda, chic, poderosa e elegante.

#FENTYxPUMA down to the socks.  SS17 collection at #ParisFashionWeek

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O cabelo é um ponto de resistência das velhas ideias escravizantes de feminino. Mas, fio a fio, também tem sido um grande foco de mudanças. Da transição capilar à revalorização do cabelo black, passando pelos coloridos não convencionais, o movimento merece atenção. Crespo com orgulho, verde, cor-de-rosa, azul, cinza, branco natural ou careca – as opções que contariam o estereótipo saíram do underground para o mainstream. Há quem veja nisso um problema, afinal, quando Blake Lively e a it-aristocrata lady Mary Charteris aderem ao pink-pastel, a coisa perde a rebeldia. Bobagem, amigas, bobagem. A padronização extrema foi um problema real por séculos. No Brasil, com a exceção de ousadas como Monique Evans e sua cabeça raspada, a imagem do sexy, sempre ligada ao verão, era a da moça de cabelo comprido (na linha loira da Califórnia ou morena tropicana) e de biquíni ultracavado, mostrando “o corpo”.

Que segunda-feira é essa, gzuys?! Amém.

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Em grande parte, isso continua valendo, ainda é a tônica dominante. Porém não se trata mais da única configuração possível. Até mesmo a imagem do biquíni brasileiro está mudando no mundo. As top blogueiras locais posam com hot pants, maiôs e tops comportados made in Brazil. Não só de grifes classudas, como Lenny, e conceituais como Adriana Degreas. As peças maiores entraram de vez para a grade da absoluta maioria das marcas. Talvez porque muitas mulheres se sintam mais confortáveis com eles. Não no sentido do julgamento do corpo e dos fiscais de gordura, mas por poder se movimentar, sentar, correr, nadar, brincar com crianças ou ler um livro com peças que abraçam bunda e peitos, em vez de atravessá-los ou deixá-los a um milímetro da nudez.

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Olhando bem, essas peças têm a sua própria sensualidade. Aquela que vem de uma despreocupação que permite viver a vida sem ficar o tempo inteiro controlando a roupa. É claro que o biquíni minúsculo também pode ser libertador em outro sentido – libertador na exposição do corpo sem nenhuma vergonha, sem submissão a padrões. Isso é igualmente uma mudança. Quem usa faz a diferença e escreve a história.

Até mesmo o batom mais clássico do verão, o vermelho, não reina mais absoluto. E seus concorrentes não são mais os rosinhas adocicados nem os discretinhos nudes. Além do sucesso mundial da linha de Kylie Jenner com seus pretos e azuis, as maiores marcas de make do mundo, como a MAC, com sua Bangin Brilliant, estão lançando linhas inteiras com cores que vão do amarelo ao azul-turquesa, passando por metalizados cinza e verdes. Novamente, quem levantou a trend não foram as punks e góticas, mas it-girls que representam marcas de alto luxo, de Susie Lau e Lotta Volkova a Bella e Gigi Hadid.

Definitivamente, não se trata de um truque de mainstream que irá embora com a primeira brisa. A última década foi de luta por abertura, possibilidades e novas escolhas. A moda vai girar, os desejos podem mudar, mas as moças de ontem e hoje conseguiram fazer uma rachadura definitiva no padrão. E continuarão sambando em cima dele depois que o Carnaval passar. É um caminho sem volta. Faça chuva ou faça sol.

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