Os jovens franceses que querem manter viva a Alta-Costura

Desbravando os caminhos no circuito mais exclusivo da moda, um grupo de jovens apaixonados ajuda a manter viva a chama da Alta-Costura.

Muito se questiona sobre a vida útil da alta-costura francesa. Há quem diga que é uma profissão em extinção, uma vez que já não existe quase público para consumir as peças, muito menos mão de obra especializada. Teoricamente, os adolescentes de hoje não estariam interessados em aprender o ofício, complexo e demorado. Mas não é bem assim. Em Paris, cresce cada vez mais o número de jovens interessados em uma vaga de aprendiz nos ateliês couture de maisons como Dior e Chanel. Os jovens empenhados em ocupar esses postos têm, na média, entre 21 e 25 anos e são quase todos nascidos na França. Eles querem seguir os passos de criadores como Yves Saint Laurent, Gabrielle Chanel, Jean Paul Gaultier e ainda o mais recente chuchu da moda francesa, Jacquemus.

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Louise Simonin já teve passagens pelos ateliês Montex e Jean Paul Gaultier. (Fe Pinheiro/ELLE)

Caso de Salome Bamba, Louise Simonin, Jen Jallier e Yanis Ouabed, que se conheceram na Escola Superior de Artes Aplicadas Duperré, lugar onde todos desenvolvem sua formação em moda e estilismo. Focados em aprender as técnicas que envolvem o mágico mundo da alta-costura, esse grupo troca mensagens e faz reuniões informais semanalmente para saber sobre novas vagas, além de discutir o trabalho em si.

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Fazer um estágio ou aprendizado em uma casa como a Dior pode ser o começo de uma carreira de sucesso. “Recebemos aprendizes aqui por períodos que podem ser de seis meses a dois anos. Depois, se eles se saem bem, podemos até contratá-los”, conta Kamil Arslan, diretor do primeiro ateliê de alta-costura da Dior. Conseguir esse feito, porém, não é algo simples nem fácil. O caminho de um aprendiz que realmente quer seguir a carreira de couturier começa cedo e é longo. Além de ter talento e estar dentro de instituições ligadas às marcas (escolas como a Duperré, que fazem a ponte com os empregadores), os estagiários precisam de muita paciência e perseverança. “Comecei cedo. Sempre quis trabalhar em ateliês de alta-costura. Meu pai era o chefe dos ateliês da Dior. Cresci com este sonho: um dia ser o que meu pai havia sido. E aqui estou eu”, recorda Kamil.

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Yanis Ouabed, que fez seu début na moda na equipe de bordados da Alexander McQueen. (Fe Pinheiro/ELLE)

Apaixonada por cores, Louise Simonin, 25 anos, tem várias experiências dentro dos ateliês. Em dois meses, ela termina seu curso na Duperré e se lança como estilista freelancer. “Após terminar a escola, fiz um curso de design de produtos e me concentrei nos métiers de arte. Isso me permitiu fazer estágios na Montex (ateliê que desenvolve bordados para a Chanel e outras maisons) e na Jean Paul Gaultier”, conta ela, que vê no jovem estilista francês Jacquemus a maior inspiração. “Eu o admiro por seu frescor, indispensável nos nossos dias. Mas também gosto muito de Gaultier por sua audácia e de Issey Myiake por suas roupas-objeto”, elege.

Entre as técnicas utilizadas para a confecção das roupas de alta-costura, Louise vê o maior desafio no trabalho de bordados. “É muito importante não deformar as peças. Já tive que bordar tubos de crochê nas costas de um colete de jérsei de seda para o Gaultier. A precisão tem que ser impecável.” Com tudo isso no currículo, ela não vê a hora de começar. “Em pouco tempo, poderei enfim me lançar na carreira de designer”, diz.

Quando terminou a escola, Jen Jallier, 23 anos, queria seguir o caminho dos ateliês de arte, mas hesitava entre a joalheria e a moda. “A joalheria é um mundinho, sempre as mesmas marcas, técnicas e fontes de inspiração. Foi quando comecei meus estudos de bordados que descobri a alta-costura, o prêt-à-porter e todo o resto.” Hoje ela já tem dois diplomas, um ligado à joalheria, na Escola Boulle, e outro em bordados, na Octave Feuillet.

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A francesa de origem marfinense Salome Bamba, aluna da Escola Superior de Artes Aplicadas Duperré. (Fe Pinheiro/ELLE)

Apesar de já ter sua própria marca de acessórios, a La Jungle, continua aprendendo a técnica de bordar nos ateliês de Jean Paul Gaultier, por quem tem uma admiração particular. “Já fiz estágios na Cartier, na Van Cleef and Arpels e depois nos ateliês de joias da Chanel e Sonia Rykiel, mas na Gaultier encontrei o ambiente mais caloroso e é onde quero trabalhar.”
Francesa de origem marfinense, Salome Bamba, 21 anos, está na estrada em busca de aprendizagem de moda há pelo menos seis anos. Aluna da Duperré, ela atualmente passa suas horas vagas entre testes e entrevistas em busca de um estágio em ateliês da alta-costura. “Comecei a me preparar para trabalhar com moda ainda na escola, quando optei por um curso de artes aplicadas. Estou me especializando em design de moda, mas ainda não iniciei minha carreira.”

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Apaixonada pelo universo da alta joalheria, Jen Jallier estagiou na Cartier e na Van Cleef and Arpels. (Fe Pinheiro/ELLE)

Enquanto não finaliza os estudos, Salome tem feito frilas durante as semanas de moda. O mais importante é o contato com a roupa, os bastidores, as modelos e os criadores. “Meu sonho é conciliar as técnicas de savoir-faire tradicionais com novos recursos, como a nanotecnologia. E por que não desenvolver tecidos com funções medicinais ou espaciais?”
Yanis Ouabed, 21 anos, é o mais jovem da turma. “Ainda não posso falar de carreira na minha idade!”, diz, brincando. Mas a verdade é que também acumula boas experiências. Desde que entrou na Duperré, já foi encaminhado para diferentes tipos de estágio. Em 2014, debutou nos bastidores de Alexander McQueen como assistente de bordados. Quase morreu de emoção ao ver, dias mais tarde, dentro da série de documentários de Loïc Prigent sobre grandes estilistas, o desfile para o qual havia trabalhado. “Essa é a minha mais linda lembrança. Ver, em um filme, exatamente o desfile que eu ajudei a fazer acontecer. Foi mágico”, diz.

Cheio de sonhos, o jovem quer um dia dirigir uma grande maison. Por enquanto, tanto faz se serão criações produzidas em grande ou pequena escala. O que importa é continuar a busca em uma carreira que já inclui experiências importantes, como ter estado no time da Hermès. Atualmente o empolgado Yanis estagia dentro da Montex. “Sou assistente de design e bordados. Trabalho com pesquisas para marcas como Chanel, Givenchy, Dior e Céline. É um privilégio trabalhar com eles.” Na verdade, é uma via de mão dupla: também é um privilégio para a alta-costura contar com essa energia jovem para se perpetuar.

 

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