Por que os EUA precisam de seus estilistas imigrantes?

Ao contrário do que pensa Donald Trump, o mercado de moda norte-americano depende de designers estrangeiros.

Em abril deste ano, o CFDA (Council of Fashion Designers of America), organização que defende as demandas do mercado de moda norte-americano, se juntou à FWD.us, uma ONG dedicada as causas dos imigrantes no país, para criar um documento que mostrasse como as políticas anti-imigratórias do presidente Donald Trump estão equivocadas e podem causar sérios danos ao bom funcionamento o sistema fashion dos Estados Unidos. Nele, descobrimos que 40% dos estudantes que estão na principal escola de moda de Nova York (a Parsons, The New School For Design – de onde surgiram nomes como Tom Ford, Alexander Wang e Marc Jacobs) não nasceram em solo estadunidense. 50% dos designers incluídos na pesquisam disseram que trabalham lado a lado com estrangeiros em suas empresas e 31% deles ainda afirmaram que não poder contratar um imigrante traria graves consequências financeiras para seus negócios.

“A missão do CFDA é fortalecer a influência e o sucesso da moda norte-americana globalmente”, disse o CEO da instituição Steven Kolb em uma nota emitida à imprensa. “Para que possamos garantir bons resultados, precisamos recrutar os talentos incríveis que estão espalhados ao redor do planeta. Se os Estados Unidos pretendem continuar a ser uma força inovadora no mercado internacional, nós precisamos de políticas pró-imigração para abraçar estes talentos estrangeiros que vêm até aqui para acrescentar e crescer em conjunto.

Leia mais: Bella Hadid afirma: “eu tenho orgulho de ser muçulmana”

É nesse mesmo sentido que surgiu o movimento #TiedTogether, idealizado e capitaneado pelo site The Business of Fashion. O editor e fundador da publicação (uma das mais influentes e respeitadas do circuito fashion) Imran Amed fez um apelo durante a temporada de moda para que marcas, revistas, fashionistas, influencers e todos que pudessem usassem uma bandana branca em seus looks e postassem fotos deles usando a hashtag do movimento. O acessório funciona como um símbolo de união e de respeito entre as culturas, um incentivo à aceitação e à empatia em tempos nefastos na política dos EUA. Além disso, a campanha sai do âmbito ideológico e parte para a prática. Junto de empresas parceiras, o #TiedTogether já conseguiu levantar mais de US$ 50 mil para instituições como a American Civil Liberties Union e a UN Refugee Agency.

Décadas atrás, eu vim para Nova York com uma mala cheia de vestidos, um coração cheio de sonhos e um bebê na minha barriga. A cidade me abraçou e, antes que eu pudesse perceber, eu já tinha me tornado uma mãe realizada, uma profissional de sucesso e estava vivendo o sonho americano. Milhões de pessoas viveram esse sonho e sentiram o que eu senti. Eu acredito que essa é a beleza dos Estados Unidos e eu jamais tiro o pé daqui!

Diane von Furstenberg

Entre um dos momentos marcantes a esse respeito durante Semana de Moda de Nova York está, é claro, a estreia de Raf Simons na direção global da Calvin Klein. Seu primeiro desfile para esta que é uma das maiores e mais reconhecidas marcas norte-americanas veio acompanhada de um discurso que reverberava não só pelas roupas, mas também pela trilha sonora que finalizou a apresentação com a canção “This Is Not America”, de David Bowie. Vale lembrar que Simons é belga e mudou-se para Nova York logo que Donald Trump assumiu a Casa Branca. Isso sem falar nas camisetas de Prabal Gurung que foram desfiladas com frases/manifesto bem direto ao ponto.

Influencers com camisetas de Prabal

Influencers usam camisetas desfiladas no desfile de Prabal Gurung, durante a NYFW. (Leo Faria/ELLE)

Além disso, são incontáveis os estilistas que ajudaram a definir o que chamamos hoje de “estilo norte-americano” e não necessariamente nasceram lá. Oscar de la Renta é, possivelmente, o melhor exemplo. O costureiro nascido na República Dominicana foi o responsável voltar os olhos da mídia internacional ao que estava sendo feito dos Estados Unidos. Seus vestidos belíssimos se equilibravam em um misto de glamour e elegância raro que não demorou para conquistar clientes no mundo todo. Diane von Furstenberg (natural da Bélgica) – que ainda é presidente do CFDA – entregou ao país uma criação que ficou marcada na história moda universal: seu icônico vestido-envelope que foi um sucesso entre as fashionistas dos anos 1970 e até hoje continua sendo reinventado, relido e refeito por diversas marcas. Isso sem contar na contribuição de novos designers como Thakoon Panichgul (Tailândia) e Joseph Altuzarra (França) que desafiam as barreiras da criatividade e propõem modelos de negócios inovadores.

Em recente entrevista a uma publicação norte-americana, DVF declarou seu amor aos EUA. “Décadas atrás, eu vim para Nova York com uma mala cheia de vestidos, um coração cheio de sonhos e um bebê na minha barriga. A cidade me abraçou e, antes que eu pudesse perceber, eu já tinha me tornado uma mãe realizada, uma profissional de sucesso e estava vivendo o sonho americano. Milhões de pessoas viveram esse sonho e sentiram o que eu senti. Eu acredito que essa é a beleza dos Estados Unidos e eu jamais tiro o pé daqui!

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s