Por que Rei Kawakubo merece uma exposição só para ela

A mostra The Art of In Between dedicada à japonesa acontece no MET até o dia 4 de setembro.

“Descreva sua coleção Body Meets Dress-Dress Meets Body (corpo encontra vestido-vestido encontra corpo)”, pede Susannah Frankel para Rei Kawakubo durante uma entrevista para a AnOther Magazine. Kawakubo responde, mas de forma inusitada: pega um pedaço de papel e desenha um círculo.

Campanha da coleção de 1997, Dress Meets Body-Body Meets Dress (Comme des Garçons/Divulgação)

O fato é apenas um exemplo de Andrew Bolton – curador da exposição do MET que homenageia a designer, Art of the In-Between  para declarar o quanto ela sempre odiou entrevistas. Na verdade, até mesmo o diálogo entre eles, que encabeça o catálogo da exibição, é aberto com a frase “Eu realmente odeio entrevistas.” Quando lembrada que aquilo era apenas uma conversa, ela respondeu que “era só uma questão de semântica”.

Coleção de inverno 2017 (o segundo vestido da esquerda para a direita foi utilizado por Rihanna no baile do MET) (Jemal Countess / Stringer/Getty Images)

As passagens não deixam dúvida: em seu fazer artístico, Kawakubo deixa as coleções falarem por si próprias. Para resumir os lançamentos e evitar o contato com jornalistas, – desde 1973, quando criou a Comme des Garçons em Tóquio – ela escolhe títulos provocativos, que oferecem insights sobre as peças: entre eles Bad Taste (Mau Gosto), Not Making Clothing (Não-Fazendo Roupas) e Transcending Gender (Transcendendo Gênero)

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Body Meets Dress-Dress Meets Body, coleção de primavera de 1997 (Jemal Countess / Stringer/Getty Images)

Ela é a segunda designer viva a ganhar uma retrospectiva no Costume Institute. O primeiro foi Yves Saint Laurent em 1983. Por lá, 150 outfits estão dispostos em um set criado por ela, desenvolvido com as próprias mãos em um galpão em Tóquio. Quem visita a exposição poderá saborear toda a estética de Kawakubo nas sessões que se dividem entre Passado/Presente/Futuro, Modelo/Múltiplo, Ordem/Caos, Fashion/Antifashion e outros temas que já foram alvo de sua obsessão.

A história da exposição começa com a primeira vez que desfilou uma coleção em Paris, em 1981 – suas roupas eram o oposto da normativa fashion vigente, que tinha Gianni Versace e Thierry Mugler no topo da indústria do luxo. Volumes bizarros, cortes inusitados e um desdém por roupas desenhadas de acordo com gênero – tudo numa paleta preta – renderam à coleção o título de “apocalíptica” pela imprensa da época. Trinta anos depois, ela ainda não se importa em ser a mulher do fim do mundo, e o desfile da Comme des Garçons ainda é um ponto altíssimo da semana de moda.

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Passarela do desfile de inverno de 2009 da semana de moda de Paris (Chris Moore/Catwalking/Getty Images)

23 anos depois do primeiro desfile, em 2004, a Comme des Garçons deu mais um passo que parecia absurdo: inaugurou uma loja de departamento com diversas marcas, o Dover Street Market, em Londres. Apesar de ter mudado de endereço, o que une a presença de nomes como Alaïa, Céline e Gosha Rubchinsky é a visão da designer de comercializar apenas itens nos quais ela acredita. O mesmo princípio vale para sua colaboração com designers que crescem dentro de seu ninho e que ganham linhas próprias ou até mesmo marcas adjacentes, como Junya Watanabe.

Entre outros highlights da exposição estão as peças criadas por Julien d’Ys, seu lendário hairstylist, que contribuíram para o estilo característico da marca – será possível ver véus, perucas, e peças únicas para a cabeça, que incluem um sinal de paz e amor. “Ela sempre me pressionou para ir muito longe, então eu sempre quis dar para os shows algo novo e diferente – eu me pressionava, então era perfeito para respeitar as roupas”, contou d’Ys. 

Uma das sessões que não poderiam faltar é a Body Meets Dress-Dress Meets Body, coleção de 1997 que explorou a sexualidade feminina e acabou ficando conhecida como Lumps and Bumps (Caroços e Inchaços), por exibir roupas com enormes erupções onde elas, teoricamente, não deveriam existir. 

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Na primavera de 2014, porém, Kawakubo perdeu o interesse por desenhar roupas ordinárias. Apesar de ser um susto para a moda, essa ruptura é um dos momentos que mais agradou Rei – ela afirmou que preferiria que somente os momentos daí para a frente estivessem na exposição, como algumas de suas peças da última coleção: casulos humanos sem buracos para as mãos.

Apesar da exposição não responder a pergunta sobre quem exatamente é Rei Kawakubo, será uma das mais desafiadoras mostras do MET, e abrirá as portas da história da marca para um grande audiência. Eu escolhi Comme des Garçons como um nome porque gostei do som. Não significa muito para mim, e eu não tinha a intenção de me promover – e é por isso que não coloquei meu nome nela”, contou Rei em 1992. Entre as premissas que guiam a visão da designer está o pensamento de que cada um deveria vertir-se para si mesmo – suas roupas convidam o olhar masculino (ou feminino) com sua selvageria, mas logo o repele por seus shapes rebeldes, que transformam a forma corporal. Isso, sim, está dito claramente em suas roupas.  

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