Sangue e tinta: a moda é uma extensão do trabalho de Frida Kahlo

Mesmo após 63 anos da morte da pintora, sua vida continua sendo objeto de curiosidade e estudo.

Frida Kahlo completaria 110 anos nesta quinta-feira (6.7). Nascida em Coyoacán, periferia da Cidade do México, a influência e importância da pintora mexicana transcende a cultura de seu país ou da América Latina. A sucessão de tragédias que aconteceram em sua vida — o acidente de ônibus, os três abortos espontâneos, o casamento conturbado com Diego Rivera, as dores crônicas — levou Frida a expressar-se não apenas por meio de sua arte, mas também por meio de suas roupas. A moda virou uma extensão, um outro canal onde ela podia revelar-se para o mundo.

Durante muitos anos recebeu o título de esposa do muralista Diego Rivera porque o acompanhava em viagens de trabalho e tinha sua vida dedicada a ele. Entretanto, percalços fizeram a brilhante artista estabelecer-se no mundo das artes, ganhando o protagonismo de suas obras. Nem sequer o trabalho do marido ofuscou a personalidade da mulher que se tornaria, mais tarde, um dos mais importantes símbolos do século XX.

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A trajetória de Frida foi determinante para o desenvolvimento de suas pinturas, afinal, a mexicana representava a sua realidade, e utilizou a vida como contexto primordial para suas criações. Sua história sempre esteve inerente ao seu pincel, e para entender a arte de Frida Kahlo é preciso compreender que sua biografia é complementar às suas telas e nunca se dissocia delas. 

(ELLE/ELLE)

Aos seis anos de idade, a pintora contraiu poliomielite, o que causou dificuldades no desenvolvimento da perna direita e a deixou durante aproximadamente nove meses de repouso na cama. Em setembro de 1925, sofreu um acidente de ônibus, outro evento que definiu seu destino — ela viria a carregar as consequências desse acontecimento pelo resto da vida.

Durante o período de recuperação de todas as fraturas e machucados, a jovem Frida conectou-se com seus sentimentos mais íntimos e passou a pintar. Seus quadros se tornaram registros autobiográficos e apresentavam as características de tudo que integrou sua existência: sofrimento, frustrações, auto-conhecimento, o relacionamento com Diego, política, feminilidade e a herança mexicana. O próprio rosto da artista foi matéria-prima para alguns de seus trabalhos, a tela era seu confessionário. 

(Museu Frida Kahlo/Reprodução)

Mesmo após cerca de cinquenta anos de sua morte, seus pertences continuavam guardados e intocados no banheiro da Casa Azul (atual Museu Frida Kahlo). Em abril de 2004, porém, seu guarda-roupa veio a público, com cerca de 300 peças, dentre elas, medicamentos, aparelhos ortopédicos, roupas, joias e sapatos, evidenciando uma nova interpretação de Frida. A exposição As aparências enganam: os vestidos de Frida Kahlo, localizada no museu que leva seu nome, mostra esse conjunto que compõe o vestuário da pintora, e nos permite entender como a moda era uma amplificação de seu trabalho. Segundo a jornalista brasileira Izabel Gurgel, leitora assídua de livros e biografias de Frida, “nada enfatiza melhor esse encontro do que os pijamas de hospital da mexicana. As peças foram encontradas com marcas de sangue e tinta”, símbolo dessa união entre a moda, a arte e a doença.

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Vestidos da exposição “As aparências enganam: os vestidos de Frida Kahlo” (Miguel Tovar - Museu Frida Kahlo/Reprodução)

Se a maneira como nos vestimos é sempre pautada por um contexto social e pela forma de enxergarmos o mundo, com Frida isso fica ainda mais evidente. A artista usava o tradicional vestido tehuana, herança da cultura mexicana, mesmo quando morou com o marido em outros países. Isso mostra sua forte conexão com as origens, o quanto sua identidade era influenciada pelo México e essa escolha por reafirmar suas raízes. Izabel também enfatiza que “ali existe a manifestação de uma questão que não é apenas a procura de uma identidade pessoal, mas uma tentativa de atestar seu lugar no mundo e mostrar de onde vem.

(Museu Frida Kahlo/Reprodução)

Muito mais do que essa necessidade de evidenciar o amor pelo país em sua indumentária, especula-se que os vestidos tradicionais poderiam ter outras funções. Uns acreditam que Frida os usava em uma tentativa de encobrir as cicatrizes. Outros defendem que as peças atestam um corpo que sofreu e que está em constante luta. Os trajes largos e estampados produziam o mesmo efeito de contraste que suas obras possuem: Frida tinha um corpo marcado por sofrimentos, mesmo assim usava muitas cores. Seus quadros, apesar dos tons vivos, têm conteúdo forte, dramático, muitas vezes tristes. É a criação refletindo a criadora.

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Todos os esforços de colocar-se como personagem principal de seu trabalho geraram consequências que ela não conheceu em vida. Seu rosto foi aos poucos se transformando em um ícone, muitas vezes, carente de significado. A cultura popular utilizou-se de suas frases e desenhos para criar um signo incorporado em diversos objetos. A comercialização de sua imagem fez com que o seu legado se refletisse mais como a figura da mulher do que como as obras da artista. Seu retrato se tornou o símbolo mais forte do seu patrimônio.

(Museu Frida Kahlo/Reprodução)

Apesar de todo mito criado ao redor de Frida Kahlo, suas roupas e obras são reflexo de sua personalidade. Reconstruir a memória de quem foi Frida Kahlo é entender que sua arte, seu vestuário e seus penteados devem ser interpretados coletivamente. A relação de Frida com a moda não era algo sofisticado, não tratava-se do uso de grandes maisons ou da adoção de tendências, mas era uma relação totalmente particular. Como tudo o que perpassou sua vida, a moda para ela foi apenas mais uma maneira de manifestar o seu íntimo.

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