O que o cor-de-rosa quer dizer em 2017?

Símbolos de feminilidade como rendas e babados estão de volta, mas passam longe do estilo Barbie girl e ganham um novo significado.

Há algumas temporadas, as semanas de moda passaram a dar ouvidos ao feminismo e, com isso, certa inspiração militante entrou para o repertório do alto luxo. Se por um lado, vozes importantes desse universo se levantam contra o sexismo, o racismo e as políticas absurdas do novo presidente dos EUA, elas não são também parte integrante de um sistema que oprime as mulheres com códigos de feminilidade restritivos, padronizados e preconceituosos?

“A feminilidade é um conceito muito amplo, mas, no senso comum, ela é o conjunto de elementos que compõem a ideia hegemônica do que, supostamente, seria ‘próprio’ da mulher, ‘natural’ a ela”, diz a antropóloga Carla Cristina Garcia, da PUC-SP. Como vivemos em um mundo machista, entre essas características estão a fraqueza, a submissão e certa alienação caricatural. Na moda, por muito tempo, isso foi representado pelo mundo cor-de-rosa de rendas, paetês, plumas, transparências, babados, clichês do sexy e por aí vai. Mas parece que o jogo virou.

New girl in town

Na batalha de criar novos significados para velhos modelos, designers como a britânica Molly Goddard estão dando vários tiros certeiros. Em 2014, com um desfile amador, ela conseguiu chamar a atenção de revistas como Dazed e i-D e logo caiu nas graças dos compradores mais cool do mercado. O trunfo de Molly está na maneira como ela trabalha o tule, tecido 100% ligado ao mundo da feminilidade, que, em suas mãos, ganha um novo significado.

Usando quase 30 m do material em cada peça, a estilista exagera tanto nas proporções do frufru que o resultado chega a ser irônico. Isso combinado a seu casting, em geral composto de suas amigas e pessoas que despertam seu interesse, é o que está fazendo meninas espertas ao redor do mundo investirem em roupas com a sua assinatura. Vale lembrar que, quando as transparências de Molly chegam às ruas, elas aparecem sobrepostas a calças jeans, camisetas com estampas de bandas de rock e outras combinações que colaboram para essa piada inteligente, que a designer faz com o estilo “girlie”.

Leia Mais: A Urban Decay não gosta de rosa desde os anos 1990

(Tristan Fewings/Getty Images)

O mesmo acontece com as fadas e bruxas da alta-costura da Dior de Maria Grazia Chiuri. A italiana se apropria de tecidos leves de modo a dar peso a eles e mostra que o mundo do sobrenatural, representado em suas coleções por elementos místicos e pela astrologia (atividades culturalmente ligadas às mulheres e, por isso, deslegitimadas), também tem seu valor.

O trabalho das meninas por trás da despretensiosa Me & You também merece crédito. Nascida em 2015, com suas calcinhas largas e camisetas divertidas com a palavra “feminist”, a marca das norte-americanas Julia Baylis e Mayan Toledano virou um hit no Instagram. “A maioria das lingeries é feita para agradar os homens. E isso está muito longe de ser uma de nossas preocupações”, disse a primeira ao The New York Times.

(Instagram @its_meandyou//O que o cor-de-rosa quer dizer em 2017?/Reprodução)

Esse ponto de vista millennial (que troca a necessidade da aprovação masculina pela identificação com outras meninas) vem também do coletivo fundado pela fotógrafa da vez, a canadense Petra Collins. Amiga de Alessandro Michele, da Gucci, a it-artista, conhecida por escolher temas relacionados ao corpo feminino em seus cliques, é a criadora do Ardorous, um compilado de projetos artísticos individuais ou coletivos feitos por e para mulheres. A dupla Me & You faz parte dele.

No cinema, quem representa o movimento é a premiada Sofia Coppola. Em agosto deste ano, estreia no Brasil o remake de O Estranho que Nós Amamos. Se o filme de 1971 conta a história sob a perspectiva do soldado, na releitura de 2017 o que importa são as mulheres que resgatam tal homem. O figurino é todo de tons pastel, tecidos acetinados e estampas forais. A cartela poderia servir como disfarce, mas na verdade ajuda a desenhar a força e o poder dos desejos das personagens de Nicole Kidman, Elle Fanning e Kirsten Dunst.

Christopher Kane

(Christopher Kane/Divulgação)

As coleções resort 2018 da Prada e da Valentino seguem essa linha. Elas quebram a delicadeza do pink, das transparências e dos brilhos com um toque esportivo. Enquanto Miuccia trabalha com tecidos aerodinâmicos do tipo performance, Pierpaolo Piccioli namora o hip-hop para alcançar um resultado parecido. Depois deles, Stella McCartney, Victoria Beckham, Marc Jacobs e Altuzarra também entraram na onda.

No fim das contas, o momento indica um convite não à volta da Barbie Girl, mas ao reinado da Imperatriz do tarô, o oráculo que é uma das grandes referências do trabalho de Maria Grazia na Dior. A carta número três desse baralho fala sobre o arquétipo positivo do feminino: a sensibilidade, a abundância, o contato com a natureza, a nutrição do belo, o apreço pela vida. A estratégia da moda para acabar com o inimigo, pelo visto, é rir da cara dele e se divertir mais consigo mesma.

Newsletter Conteúdo exclusivo para você
E-mail inválido warning
doneCadastro realizado com sucesso!
Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s