Toda roupa é um sinal de vida, mesmo antes de ser usada

Em sua coluna Visões de Vivi, nossa editora discute os assuntos mais quentes e relevantes do momento na moda.

Toda roupa é um sinal de vida. Mesmo antes de ser usada. É dessa ideia que nascem as grifes: a garantia de que, mesmo antes de chegar às suas mãos, um vestido ou uma bolsa já nasceram com uma história embutida. Geralmente um mito pessoal, uma lenda humana.

Em cada pérola Chanel, por exemplo, existe uma lembrança de Gabrielle Coco, um pedacinho de qualquer coisa, a confirmação de que um dia ela existiu, teve amantes, fumou cigarros, desafiou padrões e inventou coisas bonitas. Também funciona para designers vivos. A cada desfile da Prada, imagino uma mensagem de Miuccia (sempre carregada de seu passado militante, seu discurso feminista, seu senso de humor) como um recado numa garrafa. Ela em sua ilha criativa, eu na minha praia. Mesmo antes de ter comprado qualquer peça da marca, ela já me entregava alguma coisa, pequenos sinais, insights. Assistindo aos desfiles, eu imaginava coisas, como numa peça de teatro secreta em que a missão era decifrar os looks para entender a história.

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As roupas contam tanta coisa. Inclusive histórias terríveis, de exploração, de miséria. O movimento da moda transparente, o slow fashion, o controle de procedência, todos eles são iniciativas focadas na história prévia da vestimenta. Não no sentido do criador mítico, mas para cuidar que a peça que chega até você não seja o resultado do sofrimento de outras pessoas, não carregue esse trauma, essa tragédia terceirizada. Esse é um desmentindo a despedida dos grandes desafios não só da moda mas também de todas as indústrias. A própria humanidade se debate a respeito das questões de origem – às vezes se unindo, às vezes usando tudo isso para criar muros de ódio.

Depois de usadas, as roupas ajudam a escrever as pessoas e o mundo. Nascimentos, viagens, casamentos, separações. Elas estão nas fotos, nos vídeos, nas lembranças, nas histórias faladas. Como ideias e acontecimentos, elas rasgam, são emprestadas, jogadas fora, doadas, recicladas, desaparecem, não servem mais. Mas também podem ficar guardadas ou permanecerem ativas e incrivelmente atuais, desafiando as mudanças, as trends e os tarôs.

As roupas são ainda uma maneira de nos aproximarmos dos finais sem tanto pavor. Elas mostram que durante a vida mudamos muito e vivemos muitas mortes, muitos retornos das ombreiras e do veludo molhado, muitos recomeços. Que já tivemos muitos tamanhos, cabelos, batons, óculos de grau e esmaltes. Que vários saltinhos e tênis gastos ficaram para trás, mas que todos eles trouxeram nossos pés até aqui. Que nossas memórias de amor não são um arquivo inerte, mas uma passagem para momentos que se repetem, quando e onde aconteceram, sempre que os visitamos, desmentindo as despedidas.

Somos os nossos próprios DeLorean (a máquina do tempo do filme De Volta para o Futuro) e, com o instinto e um pouco de cálculo, podemos levar no porta-malas uma malinha sentimental, cheia de looks icônicos, escolhidos a dedo entre as maravilhas e irrelevâncias da vida.

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