Um guia alternativo para comprar em brechós

Esqueça a busca por peças de luxo: o garimpo de hoje quer transformar o seu estilo e a forma que você consome moda.

Até 2030 mais de 5 bilhões de camisetas serão produzidas no mundo. Os dados são do Copenhagen Fashion Summit, uma das maiores autoridades em pesquisa de previsões de consumo do mundo da moda. Não é apenas o panorama ambiental que sugere um caminho mais consciente: o viés ético também aparece na história. A queda do Rana Plaza, em 2013, foi um grande choque para a moda, dando partida em iniciativas que repensam a produção e o consumo, como o Fashion Revolution. Não é de se espantar que lojas de departamento como a Zara e a H&M estejam perdendo público. Nesse contexto, os brechós aparecem cada vez mais como uma alternativa viável para a moda.

“Comprar em brechó vai muito além da graça. Embora eu tenha começado por esse motivo, acabei encontrando ali uma solução para o que eu acredito”, conta Fernanda Lensky. Em 2017, junto com Fernanda Xavier, ela criou o Vagarosidades, brechó que garimpa em diversos pontos de São Paulo e prega o consumo consciente. “Está tudo ligado: capitalismo, moda, fast fashion, feminismo.” E ela não fala apenas do vintage, aquelas peças que têm mais de 20 anos de produção.

“Quando você compra em brechó, você automaticamente tem uma peça com carga política. Por mais que seja uma peça que veio de fast fashion, ainda assim ela é reutilizada.” Para Fernanda, há sempre uma solução consciente para driblar o consumismo. “E é aí onde a minha história com brechós se fortifica.” O Vagarosidades surgiu inicialmente como um canal no Youtube para dissipar essas dicas e conceitos, “mas acabamos encontrando nele uma possibilidade de fazer com que não só as roupas de terceiros ganhassem rotatividade, mas as nossas também. Percebemos que o nosso garimpo podia continuar fazendo história na outra ponta do Brasil, e essa ideia nos animava muito”, descreve.

Heloisa Faria, dona da marca homônima que desfila na Casa de Criadores, começou a garimpar quando tinha 12 anos para montar looks diferentes para as festas da escola. Mais tarde, ao encarar tecidos e estampas que não são mais produzidas, ela descobriu uma oportunidade de mercado — e de instigar sua criatividade: o upcycling. “O garimpo já nasceu no DNA da minha marca. A primeira label que eu tive, a P’tit, só trabalhava com upcycling. O garimpo sempre foi parte essencial do meu processo criativo, porém agora tenho inserido isso de maneira mais consistente no processo produtivo.”

É nesse viés social, político e criativo que nasceu também o Brechó Replay, criado por Eduardo Costa. Parte de uma safra de brechós que têm mudado a cara do garimpo — inclusive da compra virtual — ele desenvolveu uma identidade própria que envolve casting, editoriais autorais e uma visão muito própria das roupas, sempre partindo da experiência pessoal e das questões que vive, como o racismo e o colorismo. “Depois dos brechós, a minha relação com a moda mudou muito: ela parou de ser impossível para mim. Tudo que era inacessível financeiramente falando se tornou realidade”, descreve.

Esses três nomes experts no assunto dão cinco dicas que vão além do que é normalmente propagandeado sobre o garimpo. Confira:

1. Não foque em brechós de luxo

“Os meus brechós preferidos sempre foram os mais incomuns, os mais bagunçados, os mais escondidos. Quando alguém diz que ‘não conseguiu encontrar nada lá’ é que mais me prende. A prática do garimpo, para mim, é a mais surpreendente”, conta Fernanda Lensky. Heloisa também entra no coro da defesa dos brechós populares e seus preços mais econômicos: “os brechós baratérrimos podem oferecer pérolas e treinar seu olhar para a moda. Os de igrejas de bairro são ótimos, e a Feira do Bixiga aos domingos também tem coisas lindas (embora não sejam particularmente baratas).”

Uma outra opção são as garage sales, que no Brasil tomaram forma nos “Família Vende Tudo” — como as pessoas querem se mudar rápido, é possível encontrar peças valiosas — para o corpo ou para a casa — por preços baixos. Foi indo a cada umas delas que Sophia Amoruso, da Nasty Gal, conseguiu iniciar o seu império vintage. Por aqui, fique de olho pelas ruas que passa.

Nosso Camisetão Estrelinea foi um dos primeiros a serem comprados, babado né?! Foto: @pimeneon Make up: @nathaliaeloi

A post shared by Vagarosidades (@vagarosidades_) on

 2. A roupa não precisa ser perfeita: ela é única.

“Não evite nada”, conta Fernanda Lensky. Furos, manchas, e sinais de desgaste fazem parte da história de uma peça. “Tudo é uma possibilidade, e não o contrário. Em primeiro lugar é importante ter em mente que absolutamente tudo pode ser reaproveitado. Uma peça de roupa sempre tem um potencial, se não for pelo corte, pode ser pelo tecido, pela cor, pela estampa ou pela história”, descreve ela.

Ela também dá o passo a passo para aproveitar as visitas: “eu sempre começo olhando as roupas pelas cores, porque eu sei se a paleta for da minha preferência, com certeza um ajuste na costureira fará com que eu a ame. Depois disso, eu passo para o corte da peça e depois para o tecido. Assim fica impossível sair de um brechó sem uma peça na mão.”

3. Escolha peças que possam desenvolver seu estilo

Pense no que você tem no armário. Apesar de ter se encantado por uma peça de fast fashion, é bem provável que algum dos itens antigos que você garimpou se destaquem mais de alguma forma. “As diferentes formas e modelagens que você encontra em peças de brechó trazem novas ideias a respeito de como se vestir. É um exercício interessante de styling. Para quem está buscando ou desenvolvendo seu estilo acho uma opção muito interessante para encontrar um visual que é só seu”, descreve Heloisa.

4. Busque o inesperado

Uma roupa vintage pode surgir do lugar que você menos espera — como o armário da sua vó que nem é tão fashion assim. Diferente das peças que são produzidas baseadas nas tendências de agora, as peças de 50 anos atrás tinham outras prioridades — como tecidos, qualidades e formas. Por isso, olhos abertos são necessários para a melhor garimpada da sua vida — seja naquela gaveta pela qual você nunca deu nada. “Antigamente as peças eram feitas em baixa escala, artesanalmente, com acabamento perfeito e o que agregava valor numa roupa era justamente a durabilidade. O que já significa uma ótima aquisição”, declara Fernanda.

5. Use a criatividade

“Paciência e coração aberto”, começa Heloisa. “Se for muito fechado em uma ideia, como ‘quero uma saia branca’, você acaba não reparando naquele casaco anos 80 divino. A gente nunca sabe o que vai encontrar“, elabora a designer. É preciso também pensar nas formas inusitadas e nas novidades que você pode levar para o armário e para a vida: “é uma experiência que eu indico para todos os meus amigos, você sempre vai ter a chance de encontrar uma peça do sonhos pagando pouco e ajudando o mundo ter menos lixo”, conta Eduardo.

“Eu achava que as roupas contavam coisas sobre aquele que as vestia, mas na verdade elas contam a história de uma sociedade inteira. Quando você pensa num look e você só liga para o que irá atrair (seja auto estima, seja algo simbólico), é uma visão muito limitante. Lidar com brechós diariamente me fez ampliar minha visão, e de maneira muito mais otimista”, finaliza Fernanda.

 

 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s