Um papo sobre autoestima com a blogueira Joana Cannabrava

Ao lado da amiga Carla Paredes, Joana fala sobre o processo que levou à mudança do blog Futilidades, que hoje inspira mulheres a falarem sobre autoestima.

Cerca de 40 mulheres se reúnem em um fim de semana de maio em um parque no Rio de Janeiro para falar sobre beleza e a relação com seus corpos. O evento é simples, um piquenique no último sábado do mês, mas fazer com que mulheres saiam de casa para simplesmente conversar pode e deve ser visto como algo transformador — especialmente em uma sociedade machista e recheada de padrões que induz à competição feminina e ao ódio ao próprio corpo. Levar esses debates ao mundo offline faz parte do projeto #PapoSobreAutoestima do blog Futilidades, que passou por uma transformação no início deste ano.

As designers Joana Cannabrava e Carla Paredes são parte da geração de blogueiras brasileiras que conquistaram seus seguidores em domínios na internet antes da explosão de digital influencers nas redes sociais. Seis anos após o lançamento, elas se reinventaram, lançaram uma hashtag no Instagram e engajaram verdadeiramente centenas de leitoras. Elas estão, sim, nas redes sociais, mas com o espírito de reflexão que acreditam que é inerente ao começo dos blogs.

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Encontro com leitoras no Rio de Janeiro, do projeto #paposobreautoestima. (Futilidades/Divulgação)

“Com seis anos, a gente percebeu que muita coisa tinha mudado. Semanas de moda não faziam mais sentido no nosso conteúdo, e a pressão pelo consumo não tinha muito a ver com a nossa personalidade. Paramos para olhar tudo e percebemos que as coisas mais incríveis que já haviam sido publicadas tinham a ver com autoestima, com a vontade de se conhecer”, explica Joana sobre o processo que levou a uma mudança de layout e à criação de um grupo do blog no Facebook. Poucos meses antes da grande virada, Carla colocou o tal grupo no ar e o resultado foi surpreendente. “De repente, eu me vi em dezembro postando uma gordurinha nas costas que eu sempre tentei esconder. Não era para fazer um ode às gordurinhas, era sobre ter um olhar carinhoso pelo meu corpo”, relembra. “Eu sabia que estava transmitindo verdade. Se todo mundo me atacasse, eu estava preparada para o pior. Mas quando eu brilhei, eu descobri que nunca mais queria parar de brilhar, e comecei a me ver com amor. No fim, esse projeto não é sobre aceitar o corpo, é sobre se conhecer“. O post acabou inspirando outras meninas do grupo que, no ano novo, compartilharam suas fotos e histórias de verão. Dessa rede de narrativas, surgiu a vontade de fazer os encontros offline.

“De repente, eu me vi em dezembro postando uma gordurinha nas costas que eu sempre tentei esconder. Não era para fazer um ode às gordurinhas, era sobre ter um olhar carinhoso pelo meu corpo”, relembra.

O primeiro deles, uma pool party na cobertura de um hotel, também marcou a reviravolta do blog, que agora prefere ser chamado apenas de Futi, um apelido que foi a solução que as amigas encontraram para adequar melhor o nome ao novo momento. “Na época, o blog chamava F(utilidades) e o slogan era ‘quem disse que o fútil não é útil?’ porque considerávamos que tanto na moda quanto na beleza existiam muitos artifícios que eram vistos como fúteis, mas que são bem úteis na nossa vida prática”, esclarece.

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A pool party que marcou o novo momento do blog. (Futilidades/Divulgação)

Esse pensamento tem bastante relação com a razão pela qual muitas blogueiras surgiram. Se olharmos lá para fora, vemos que Emily Weiss, do Into The Gloss, Tavi Gevinson, da Rookie Mag, e Leandra Medine, do Man Repeller, também deram seus primeiros passos online por volta de 2010 com uma motivação similar. Leandra, por exemplo, queria provar que era possível falar de moda de uma forma séria e engraçada, mas não via espaço para suas habilidades no mercado tradicional. Em um de seus textos mais populares, “Blog is a Dirty Word”, de 2013 (em que responde ao crítico “The Circus of Fashion” de Suzy Menkes, na época no New York Times), ela ressalta: “Assim como todos os escritores não escrevem com a mesma caneta, todas os blogueiros não digitam com o mesmo teclado. E mesmo que fizéssemos, é impossível negar que o mundo está mudando. Empregos tradicionais na moda são poucos e cada vez mais escassos. Talvez Menkes não entenda, e tudo bem. Ela não precisa. Mas a fome e o interesse pelo jornalismo de moda não diminuíram apesar das pouco animadoras circunstâncias para a demanda. No fim das contas, há uma razão pela qual a Geração Y foi chamada de geração empreendedora. Muitos de nós não conseguiram alcançar o trabalho que queríamos, então fizemos o nosso próprio trabalho”. Atualmente, Leandra encontrou seu espaço, lançou livros, podcasts e consolidou seu Man Repeller como um veículo inovador e respeitado; Emily é dona de uma das marcas de beleza mais interessantes do mercado, a Glossier, e Tavi continua sendo uma representante jovem que inspira garotas a quebrarem paradigmas.

Leia mais: “Eu nunca me vesti para agradar ou seduzir os homens”, diz Leandra Medine à ELLE 

Desejando uma oportunidade para entrar na indústria da moda, a criação de um endereço virtual também foi o recurso que Carla e Joana, formadas em Design Gráfico, utilizaram para mostrar do que eram capazes. “Como fazer parte desse mercado se não era o que a gente tinha estudado? A forma que enxergamos foi montar um blog de moda com conteúdo bacana para criar um portfólio. E deu certo. Em menos de seis meses, nós duas tínhamos clientes de conteúdo de moda, mas já estávamos apaixonadas pelo blog e não queríamos abrir mão”, recorda Joana. Em comum com Leandra, Emily e Tavi, as cariocas agora têm uma missão que vai além de passar novidades e compartilhar seu dia a dia por meio de fotos de look do dia e cafés da manhã fotogênicos. Não que esse tipo de post esteja banido, mas elas desejaram seguir pelo caminho da reflexão e não do consumo.

Quando a gente começou, em 2010, eu entendia que o papel das blogueiras era divulgar novidades. Só que a gente viveu um boom econômico em que mais pessoas podiam comprar mais coisas. Era normal receber e falar de muitos produtos, o mercado estava aquecido”, pondera. “Acredito que a maior diferença tenha sido uma mudança de comportamento. Estamos em um outro momento econômico do Brasil, e a nossa leitora tem uma demanda muito maior hoje de se conhecer, de refletir sobre o comportamento humano, do que de sair consumindo tudo. Hoje, eu presto atenção nas experiências que tenho e o quanto eu aprendo com elas para escrever sobre isso. Saímos daquele universo do ‘tem que ter’ para o ‘quem sou eu’. Alguns produtos, algumas marcas, estarão inseridas no quem somos nós, mas já não na mesma quantidade que antes, nem com a mesma demanda”.

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A blogueira Carla Paredes (Carla Paredes/Divulgação)

Escolher abordar temas como feminismo e autoestima não é, necessariamente, o caminho mais fácil para quem quer estourar na internet, apesar de um recente aumento no interesse das marcas em entrar na conversa sobre diferentes tipos de beleza. Na verdade, pode ser escorregadio tentar desvendar o motivo pelo qual as mais conhecidas blogueiras de moda e beleza que costumam falar sobre esses assuntos não possuem tantos seguidores no Instagram, por exemplo, quanto as que correspondem a boa parte dos padrões e apostam na fórmula “look do dia em lugares lindos”. Afinal, não existe apenas uma razão e ela tampouco é válida para todas as influenciadores, mas vale ressaltar um estudo da Royal Society for Public Health feita em parceria com o Young Health Movement, publicada pela Forbes em maio. Nela, os pesquisadores afirmam que o Instagram é considerada a rede social que mais afeta negativamente a saúde mental dos jovens. Os participantes da pesquisa avaliaram as plataformas dentro de categorias como “imagem corporal, bullying, ansiedade, solidão, autoexpressão e autoidentidade”, o que mostra que, ainda, a rede é bastante usada como um local de compartilhamento de fotos e momentos aparentemente perfeitos — por mais que ela esteja incentivando os usuários a serem mais espontâneos, com iniciativas como o Stories e os Lives.

Uma foto ‘perfeita’ ainda dá mais likes e seguidores. Com a visibilidade que eu tenho, talvez se eu atendesse a todos os estereótipos de perfeição, eu teria mais seguidores”, cogita Joana. “Mas eu não teria uma causa, um propósito, não teria aquilo que move o meu coração, assim como a Carla. A gente prefere ter o número de seguidores que for, mas dentro do que acreditamos ser verdade. Mas, sim, esse é um tópico que fica na minha cabeça: como uma causa tão bacana, num grupo tão bacana, fica em um Instagram tão limitado?“. Em sua experiência, ela, de fato, aponta a tal busca pela perfeição, mas sublinha que os fãs são um grande fator de engajamento no Instagram. “Minhas leitoras não são minhas fãs, elas admiram meu trabalho. Elas nunca me encontram e pedem para tirar foto, elas sempre me contam como um texto meu fez diferença para elas”, exemplifica.

O cenário, no entanto, é otimista. Tanto a geração Y como os millennials e, agora, os Z (de forma bastante natural) estão usando a internet para expor cada vez mais questões que os incomodam e encontrar outras pessoas que compartilham dúvidas e inquietações. Basta olhar para algumas modelos e atrizes, que usam seus espaços online para debater e inspirar mulheres a, como Joana diz, olharem para seus corpos com carinho e discutirem o consumo. Pense em Ashley Graham, Hari Nef, Adwoa Aboah, Ebonee Davis, Willow Smith e até Emma Watson. Algumas realmente têm fãs, mas claramente estão mais interessadas em abrir um diálogo com seus projetos, canais no Youtube e, até mesmo, perfis no Instagram. 

Ao que tudo indica, estamos vivendo um momento de retomada. A contestação (de formatos, de pautas, de métodos) foi um dos motivos iniciais que, lá atrás, fez com que os blogs nascessem. Sete anos depois, dá para dizer que essa vontade de repensar estruturas deu base para que vários nomes tenham conseguido se reinventar e sobreviver — até meninas como Chiara Ferragni, a rainha do look do dia, começou mostrando que o estilo comum de uma menina da Itália poderia interessar tanto quanto um editorial de revista –, e que acaba sendo um elemento fundamental de destaque das que estão começando. O “fale de mim” está abrindo espaço para o “fale comigo”, e isso é essencialmente a definição de um papo. E, se ele for sobre autoestima, melhor ainda!

Comentários
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  1. Ana Luiza Palhares

    Uma delícia ler uma matéria tão importante e empoderadora quanto essa. Um orgulho de participar desse grupo maravilhoso, as meninas arrasam!

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