Valentina Sampaio conta sobre como chegou às passarelas

A modelo foi a capa da #ELLE novembro!

As tardes eram quentes em Aquiraz, município cearense onde Valentina Sampaio nasceu e cresceu. Quando criança, vira e mexe ela pegava um vestido fresquinho emprestado das primas e corria para a praia. Ali, em uma comunidade praiana de 77 mil habitantes, sempre foi chamada de “bebê” por amigos e família. A modelo cearense, de 19 anos, gostava desse apelido que mantinha secreto o seu nome original. É que Valentina nasceu menino. E, por isso, em sua certidão de nascimento constavam um nome e um gênero com os quais ela nunca se identificou. “Sempre me senti uma menina”, diz.

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Valentina é uma mulher transexual. Ou seja, ela se sente mulher, mas nasceu com um corpo masculino. “Aos 8 anos, comecei a pedir para me chamarem com o nome que tenho hoje.” E esse nome agora vem ganhando cada vez mais espaço na moda. Este ano, ela se tornou a primeira transexual a ser porta-voz da L’Oréal Paris no mundo, estrelando a campanha Louca por Cabelos ao lado das globais Grazi Massafera, Taís Araújo e Juliana Paes. Após mostrar seu bronzeado no São Paulo Fashion Week, em desfiles de grifes como Vitorino Campos, Ronaldo Fraga, Fernanda Yamamoto e À la Garçonne, ela estampa a campanha de verão da Morena Rosa.

A cearense foi descoberta em 2014, desfilando para a coleção de uma amiga em uma faculdade de moda de Fortaleza. Nunca tinha pensado em ser modelo, mas hoje sonha grande. “Quero fazer trabalhos mais importantes e ser Angel da Victoria’s Secret”, diz, vestida de macaquinho, rasteirinha e cabelão solto em uma padaria no bairro paulistano do Itaim-Bibi, onde divide um apartamento com outras modelos.

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Filha de uma professora de educação infantil e de um pescador e a segunda filha de sete irmãos (quatro meninas e três meninos), ela terminou o ensino médio aos 15 anos e, com 16, já cursava faculdade de moda. Em seguida, mudou para arquitetura. “Não conseguia costurar. Meu jeito era mais para desenhar, para a arte mesmo”, lembra. A universidade particular, bancada pelos seus pais, ficava a cerca de 30 minutos de Aquiraz. Caseira, surfista e apaixonada pela praia, ela não costumava deixar essa vila, “onde todo mundo se conhece e se respeita”.

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IDÍLIO À BEIRA-MAR

Ter nascido em uma família liberal, que a deixava seguir seus instintos, e o fato de ter crescido em uma comunidade acolhedora fizeram com que Valentina se tornasse uma exceção diante da realidade das transexuais brasileiras. “Tive sorte pelos meus pais me amarem e me respeitarem do jeito que eu sou”, diz. Na escola, não era diferente. “Sempre foi uma coisa muito natural. Se eu dizia que era uma menina, como poderia não ser? Passava despercebida e ao mesmo tempo era muito popular. Até porque crianças não nascem com preconceito. Isso vem dos adultos”, diz. Todo começo de ano letivo, sua mãe ia até a escola para pedir aos professores que a garota fosse chamada pelo nome social, o que escolheu, e não o da lista de chamada.

Na vida adulta, ficou difícil ter rosto e corpo de mulher e um RG com nome masculino. Há sete meses, porém, a modelo deu entrada em um processo para ajustar sua carteira de identidade e certidão de nascimento ao gênero com o qual ela se identifica. “Fazia de tudo para não precisar mostrar os documentos. Era uma coisa que doía, me sentia incomodada com a situação”, diz. Ela acaba de conseguir essa autorização judicial para fazer a mudança. “Foi como me livrar de um peso muito grande, que tive que carregar por um tempo”, diz. A cirurgia de adequação de gênero – aquela que transforma o órgão sexual –, ela não revela se fez ou pretende fazer. “É um assunto muito íntimo e que não interfere nada em quem eu sou. Desde criança, tenho certeza de que nenhuma mudança vai me fazer sentir mais ou menos mulher.”

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Na moda, que cada vez mais abraça a ideia do genderless e de um mundo menos binário, sem regras de comportamento e vestimenta, ela se sentiu bem recebida. “O mundo todo tinha que ser assim, e não só a moda”, acredita. O primeiro contato que ela teve com o preconceito foi pela internet. Depois de dar uma entrevista, surgiram comentários maldosos. “Pude ver o quanto as pessoas são cruéis. Doeu bastante, me machucou, mas resolvi não me abater com isso. Tanto que estou aqui, dando entrevista de novo”, diz, rindo. Ela gostaria mesmo é de não precisar mais falar sobre o assunto e que fosse simplesmente aceita do jeito que é. “Mas é uma coisa que precisa ser discutida para que deixe de ser tabu em algum momento. Muita gente associa os transexuais à prostituição, a coisas ruins. As pessoas precisam aprender que o ser humano é diverso e que a gente sente e ama do mesmo jeito”, diz.

De fato, Valentina segue a vida como qualquer outra garota na sua idade. Com o namorado, ela sonha construir uma família e ser mãe. “Dói não poder engravidar. Mas isso também não me faz menos mulher”, diz a modelo, que se sente mais confortável usando um biquíni do que em qualquer vestido de marca.

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