Vivian Whiteman fala sobre o debut de Raf Simons na Calvin Klein

Segundo nossa editora-sênior de reportagem de moda, o desfile foi um "lacre".

Existem muitos jeitos de se ler um desfile. O mais chato e tolo deles é ficar falando só das roupas. O mais safado é falar de todo o resto e deixar as roupas de lado. Mas sempre se pode partir de algum lugar. Da trilha sonora, por exemplo. Então vamos partir do fato de que, em sua estreia na Calvin Klein, Raf Simons escolheu duas versões de This is Not America para abrir e fechar sua apresentação em Nova York.

This is Not America, aquela música de David Bowie que fala assim: “um pedacinho de você, um pedacinho de mim vão morrer/ Porque essa não é a América/Os botões não vão desabrochar nessa estação/Prometi não olhar por muito tempo/ Porque esse não é o milagre”. O primeiro look é uma menina loira de camisa jeans/azul, blusa de gola alta branca e uma calça vermelha, as cores da bandeira americana, uma menina branca e loira, um look meio esportivo com uma leve lembrança de uniforme. Vocês já devem ter entendido onde quero chegar.

Calvin Klein - Raf Simons

Este foi o look que abriu a primeira apresentação de Raf Simons à frente da Calvin Klein. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

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A letra segue enquanto variações do mesmo look entram em cena. Com garotos e garotas de cabelos e rostos diferentes, morenos, cabeludos, uma moça negra. As cores se misturam. Aparecem abas que se abrem nos tops. Algumas listras e cores já não lembram a bandeira americana, mas a dos Confederados, que virou um dos símbolos dos apoiadores de Donald Trump.

Ah, sim, Donald Trump. Não há nada que se crie nesse momento nos EUA que não esteja ligado ao que ele está promovendo no país. Nada que realmente importe, pelo menos. Os convidados de Raf Simons estão todos usando bandanas brancas enviadas com os convites. Elas fazem parte do movimento #TiedTogether, um movimento em defesa da inclusão, da união e contra o discurso separatista e a loucura de deportações, muros e ameaças insanas e revoltantes desse início do governo Trump.

A música muda. Entra Roy Orbinson cantando In Dreams. É uma canção de separação, em que ele chora por só poder estar perto da pessoa que ama em sonhos. Na passarela, looks que deixam o peito aberto, transparente. Ou recortado, como se faltasse um pedaço. Os tops de alfaiataria são literalmente recortados bem na altura do peito, deixando um buraco.

Calvin Klein - Raf Simons

Transparências na região do peito se contrapunham a mangas de tricô pesado nas mangas. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

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Troca a música. Uma versão sombria e com voz feminina de I Wanna Be Sedated, dos Ramones. Na transição aparece o primeiro look coberto por uma capa plástica. Um garoto de terno e um suéter que desenha um jato vermelho no peito. E muitos outros looks plastificados seguem. Feito aqueles móveis cobertos pra não sujar. Feito uma película feita pra não encostar. Feito uma barreira pra isolar. E a música diz me tire daqui antes que eu enlouqueça, etc.

Entra a introdução de Midnight Cowboy, gaitinha sofrida de John Barry, a menina com a saia de bandeira desconstruída. Os jaquetões de couro. O jeans total. A letra não entra em cena, mas fala de um caubói com grandes objetivos, um solitário que aprende da vida que viver é dividir, que amar é a mais alta das aspirações.

Calvin Klein - Raf Simons

O casaco de Julia Nobis foi um dos highlights na passarela da marca. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Corta para o grupo vocal negro The Flamingos, cantando “só tenho olhos para você”. Um casaco retrô-elegante. Mais looks militares, com jaquetões estilo aviador revisitados. Um amor cego, para onde nos levará? Eis que entra parte da trilha do filme As Virgens Suicidas, feita pelo Air. A voz fala de meninas mantidas em um mundinho fechado, que só tinham contato com o exterior por catálogos de moda e folhetos de viagem. Os recortes agora mostram a base dos seios, as cinturas sobem, e as capas plásticas cobrem plumas que parecem flores mortas e tecidos delicados, como pele.

Calvin Klein - Raf Simons

Plumas recobertas por plástico davam efeito melancólico aos cocktail dresses da coleção. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

No filme, as irmãs suicidas se comunicam com os garotos da vizinhança por músicas tocadas pelo telefone. Como mensagens cifradas.

E chega a porção final, com a versão original de This is Not America (que foi trilha de um filme sobre um agente que, desiludido como envolvimento dos EUA em conspirações internacionais resolve vender segredos de governo aos russos), cantada por Bowie. E volta a fila completa.

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Não é só a música. Não são só as roupas, que falam da vestimenta americana desde a terra dos caubóis aos ternos e roupas de trabalho dos nova-iorquinos e de todos os escritórios de uma terra fundada sobre a ética e os milagres do trabalho. Não são só as referências à guerra, ao separatismo contraposto a um país que deve muito aos imigrantes (a modelo e ativista etíope Liya Kebede estava no casting) e que também é composto por eles, por seus esforços e suas famílias. Não é só por rever o repertório urbano da Calvin Klein e fazer referências a diversos designers (alguns deles estrangeiros, inclusive, como Helmut Lang) que fizeram da moda americana o que ela é. É sobre roupas, símbolos, utopias e decadência, é sobre pesadelos, luta, imagens e sonhos desfeitos.

Calvin Klein - Raf Simons

A modelo da etiópia Liya Kebede foi uma das estrelas do casting repleto de diversidade escolhido por Raf Simons. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Existem muitos jeitos de fazer um desfile. O mais chato e tolo deles é pensar só nas roupas. O mais safado é pensar em todo o resto e deixar as roupas de lado. Mas quando alguém consegue juntar tudo pra falar do mundo, incitar mudanças, misturar com uma trilha incrível, com peças que dá vontade de usar por muitos motivos e ainda fazer refletir, aí é diferente. Os jovens de hoje em dia chamam de lacre, de dar o nome.

E o nome é Raf Simons, máximo respeito.

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