Morre Sylvia Monteiro, a primeira diretora de arte da ELLE Brasil

A designer lutava contra um câncer desde 2014 e faleceu aos 71 anos.

“Quando a gente tomou a decisão de lançar a ELLE no Brasil, sabíamos que nossa missão era a de dotar essa nova revista de uma aura de refinamento”, relembra Thomaz Souto Corrêa, Vice Presidente do Grupo Abril – um dos responsáveis pelo desembarque do título francês no País. “Lembro que Gilles Bensimon [fotógrafo de moda] era o diretor da ELLE norte-americana e, por aqui, queríamos encontrar alguém que correspondesse a essa figura.”

ELLE

Segundo Thomaz Souto Corrêa, a ideia da primeira capa de ELLE era a de usar as cores da nossa bandeira com delicadeza. (ELLE/Reprodução)

A escolhida? Sylvia Monteiro, designer formada pela FAAP, em São Paulo, e mestre em tecnologia gráfica pelo Instituto de Tecnologia de Rochester, nos Estados Unidos. Em 1980, ela já tinha provado o valor do seu olhar afiado ao criar o projeto gráfico de Veja São Paulo e oito anos depois se uniu ao diretor de redação Leonel Kaz para levar um pouco do gingado brasileiro ao estilo chic francês da mais nova revista de moda da casa.

Nos dois anos em que esteve à frente do lado gráfico da publicação, ficou conhecida por suas soluções inteligentes e pela paixão que a movia a grandes ideias. Não à toa, ligada nos bons resultados da nossa versão do título, a ELLE Internacional se interessou por seu trabalho. Em 1990, Sylvia era a nova diretora de arte da ELLE alemã, onde permaneceu até 1992. Daí por diante, assinou capas da marca ao redor do mundo antes de voltar para sua terra natal.

No dia 13.11, Sylvia Monteiro faleceu, aos 71 anos, devido a um câncer contra o qual lutava desde 2014. Abaixo, Leonel Kaz relembra os bons momentos na redação ao lado da parceira de ELLE.

Sylvia Monteiro é uma evidência clara de que o corpo — com as partes que o constituem — é por si só uma obra de arte. Ou uma direção de arte. Sylvia era bela, sem demonstrar seus dotes. E era discreta, discretíssima, na sua forma de se entregar ao trabalho. Quando ELLE foi criada, a mesa da Sylvia sempre foi o epicentro do burburinho geral, bem em meio à redação. Era lá que as coisas cresciam e apareciam, como fermento de bolo. Sempre dirigi revistas em dupla com o diretor de arte: “o texto no contexto”. Primeiro, compor a página; depois, adequar o texto a ela. Por essa técnica, chegávamos a ter o mesmo volume de texto, em algumas edições, que a revista VEJA. Por isso, a equipe faturou, com o apoio de esplêndidos fotógrafos, inúmeros Prêmio Abril; éramos os líderes e, quem diria!,  chegamos até a ganhar o Prêmio de Jornalismo de texto. Sabe o porquê? A matéria era bonita. Sylvia era capaz de distribuir manadas de texto em meio à belezura das fotos que produzíamos. Lembro-me de uma foto que consegui numa agência: a de uma mulher lambendo um gelo. Disse à Sylvia: vamos abrir esta foto em close, amplamente, com o verso do poeta Drummond como título: “Entre beijo e boca tudo se evapora. Liguei, então, para o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, disse o título e pedi o texto. Ficou magnífico o conjunto! Tínhamos a preocupação de compor com nossa deliciosa equipe, em cada edição, uma completa partitura musical de contrapontos entre fotos, textos, grafismos. Sylvia era admirável pela capacidade de perpassar a atormentada equipe de ELLE (incluindo seu diretor) sempre altiva; ela sabia onde colocar os acordes, as delicadezas de uma flauta ou o rufar de um tambor por meio de claros e escuros, de luz e sombra, de títulos que surpreendiam, de cortes de fotos que tocavam a menina-dos-olhos. Um dia, tínhamos uma bela foto de uma massa italiana antes de virar macarrão sobre uma mesa. Sylvia me disse: “Precisamos de um título magro como um espaguete, com pouquíssimas letras”. Fui ao Japiassu, paraibano de boa cepa e redator-chefe. Cinco minutos depois, estava pronta: “AH!MASSA”. De início, a maior dificuldade era convencer ao distinto público de que a revista tinha muito conteúdo, sim, só que não precisava ter volumes de textos exaustivos, já que as informações também estavam distribuídas nas próprias fotos, nos grafismos: a ELLE se antecipava ao mundo virtual, com seu mix de imagens e textos. Nós superamos dificuldades junto a agências, clientes, leitores e mesmo jornalistas pela persistência e denodo na busca incessante da qualidade editorial e gráfica; fotos eram refeitas três, quatro vezes no Estúdio Abril até se adequarem ao nosso desejo. Superamos porque a redação de ELLE era repleta de desejos, a começar pelo de Sylvia, ao cultuar o belo.

Confira aqui algumas páginas que relembram o estilo elegante do layout da revista em suas mãos:

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(ELLE/Divulgação)

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(ELLE/Divulgação)

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(ELLE/Divulgação)

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