Tássia Reis fala sobre música, arte e astrologia

Aos 27 anos, a artista se estabiliza como uma das vozes de referência para a questão negra e para as artistas mulheres.

Um dos lançamentos mais bem falados deste ano, Outra Esfera, segundo álbum da paulista Tassia Reis, coloca o feminino em pauta. Nascida em Jacareí, interior de São Paulo, a compositora, cantora e rapper já teve diferentes facetas: tocou em escola de samba, se formou em moda na capital, se apresentou ao lado do rapper Marcelo D2… Um pouco mais elétrico do que seus últimos lançamentos, o novo disco foi realizado entre os meses de abril e setembro deste ano, rendendo-lhe menções em veículos especializados de música e angariando novos fãs, cativados com sua música, seu estilo e seu discurso. “Quando percebi, já estava seguindo uma linha de pensamento em relação ao que queria fazer. A Outra Esfera foi criando corpo rápido, diferentemente do meu primeiro trabalho, que levou quatro anos para ficar pronto”, diz Tássia.

Aos 27, a artista se estabiliza como uma das vozes de referência para a questão negra e para as artistas mulheres. Criou ao lado das rappers Karol de Souza, Stefanie, Mayra Maldjian, Alt Niss, Drik Barbosa e Tatiana Bispo o coletivo Rimas e Melodias, que “tem como proposta desconstruir moldes e preconceitos para fortalecer a presença feminina – sobretudo a negra – no hip hop”. Além de fazer música, usa seu espaço para luta. Leia a seguir uma entrevista da cantora com ELLE.

Em que ponto seu primeiro disco se distancia e conversa com Outra Esfera?

Gosto de compará-los porque em ambos misturo diferentes elementos. Na verdade, passei por onde já vou, mas tentei ousar em outros sentidos. O samba é uma realidade presente na minha vida desde a infância, pois fui de escola de samba e já saí na bateria no carnaval. O rap tem esse caráter eletrônico por causa das batidas e o ritmo. Acho que estamos vivendo em um momento em que pensamos na melhor maneira de se projetar um futuro, uma ideia meio futurista.

A colagem da capa segue essa ideia de espaço e misticismo.

Sim. Sou apaixonada por colagens e conheci a Domitila de Paulo (artista visual mineira) em um evento de imersão chamado Afrotranscedência. Me apaixonei por uma série sobre deusas do Orun. O trabalho dela é todo analógico, ela garimpa as imagens, recorta e cola. Ficamos alguns dias juntas, expliquei por que escrevi cada faixa, desde o que desejava dizer até o que queria sentir. Ela transcendeu a ideia, falou que eu já era um universo cheio de coisas. Então, a capa terminou com várias referências diferentes.

Como quais?

Tem o candomblé nos raios da cachoeira  se comunicando com as flores e a lua. Tenho esse lance de astrologia em que a lua é muito importante. Ela determina muita coisa, desde a colheita até o crescimento cabelo, como ela não vai nos influenciar?

Em Ouça-me você fala que a revolução será crespa. Quais são as implicações disso?

Não sei se uma revolução crespa em específico, mas na ideia de que a revolução precisa subverter os valores que estão impostos. Até pouco tempo, estava olhando a página da L’Oréal, que publicou uma foto de uma modelo de cabelo crespo, e a menina foi atacada na página. As pessoas não entendem que é racismo ao apelarem para o gosto. Falar: “meu gosto pessoal é que seu cabelo parece um guarda-chuva” é racismo, pois não aceita a qualidade da outra pessoa. Para mim, a revolução crespa e negra é algo muito sério. Acredito que precisamos nos levantar, pois as pessoas só vão entender quando nós sairmos para o fronte e bater de frente. A música faz parte disso.

Você acha que o ativismo online se traduz para as ruas?

É muito importante que todos os espaços sejam ocupados. O ataque online também acontece, então é importante estarmos fortalecidos nas redes. Até porque ninguém entende muito bem como funciona a segurança na internet, que, inclusive, acaba beneficiando quem ataca. Tem diversas ativistas que usam as plataformas digitais como trampolim para ter espaço de fala. Acompanho o trabalho de mulheres como Djamila Ribeiro e Stephanie Ribeiro.

Além da música, é possível usar a estética como construção de identidade?

Tenho uma amiga que tem uma filha de oito anos. Ela sempre me manda mensagem falando que a menina está pirando no meu cabelo. Toquei no MASP e via como ela olhava para mim. Quando tinha essa idade, não havia nenhuma artista negra que se parecesse comigo e que eu pudesse me espelhar. Essa falta de referência faz com que nossa identidade seja deixada de lado. É importante você se enxergar, se identificar com alguma coisa, se sentir parte do grupo. A sociedade inviabiliza a mulher, não dando chance para ela ocupar outros lugares e ainda naturaliza esse comportamento.

E a maioria da população brasileira é feminina.

Sim. Não é normal que em um país onde a maioria é mulher e 54% da população é negra ainda aconteçam casos tão extremos de racismo. Pegamos a estética como política porque se sou atacada pelo que pareço, pelo meu fenótipo, a ligação imediata é com a imagem, então, vou pegar isso e enaltecer. Parece que estamos falando de algo que está acontecendo agora, mas isso aconteceu na época dos direitos civis dos EUA e aqui. Precisamos mostrar para essas crianças como transcender isso porque se você não gosta de si, não vai ter coragem para reivindicar as coisas que todo mundo merece.

Qual é o papel de grandes cantoras pop como Beyoncé na grande mídia?

Estamos ocupando espaços, mas acho pouco. Claro que a Beyoncé é dona de tudo. Ela e a Solange. As duas lançaram discos parentes e falam de coisas semelhantes, cada uma do seu jeito. Fico louca porque é a realidade delas lá e é também a que vivemos aqui. Apesar de todas as divergências e pontos de partidas diferentes, me identifico em várias coisas no trabalho delas e isso é importante. Sinto as pessoas me perguntando se fiz um disco feminista, ou se lancei um disco sobre a questão de negritude. Na verdade, estou fazendo um disco sobre mim, que por um acaso sou negra e feminista. E a gente vive aquilo, essa é a verdade.

Quais são seus temas favoritos além da música?

Sempre gostei de astrologia. Mas ultimamente tenho pesquisado sobre Candomblé. É uma procura, não tenho a cabeça feita, mas é uma parada que me fez enxergar a vida de outra maneira. Os orixás são os guardiões da cabeça, tudo em busca do equilíbrio na vida, na profissão, nas relações… Cada orixá representa uma força da natureza e somos todos parte de um organismo vivo. É a religião que mais me senti ligada, respeito muito a intuição e a sensibilidade e acredito que isso está começando a se traduzir na minha música como expressão.

A artista é do signo de Leão, com ascendente em Escorpião e lua em Aquário. E tem três casas em Virgem (Marte, Mercúrio e Vênus.)

Confira também a Playlist: Power Hair no Spotify (@ELLEBrasil) para escutar o trabalho de Tássia e de outras artistas que alinham o discurso engajado com looks icônicos.

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