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O segundo dia esteve agitado, com a presença das tops mais badaladas do mundo: as brasileiras Raquel Zimmerman (na Animale) e Carol Trentini (na Zoomp). A canadense Coco Rocha (de quem todo mundo não cansava de falar, mas que quase passou despercebida entre as nossas beldades) pisou na passarela pela Zoomp. Outra personalidade do mundo da moda que chamou a atenção foi Vivienne Westwood. Durante uma coletiva para a imprensa, a estilista inglesa declarou que o ideal é comprar menos e melhor. Certa ela. Consumismo demais às vezes pode ser sinal de personalidade de menos. Por falar em mulheres poderosas esse foi o espírito dominante do segundo dia. Destaque para a Animale e para a Zoomp. Na primeira, o náilon trabalhado dava um aspecto de couro a casacos, calças e jaquetas, para fazer qualquer mulher encarar o inverno firme e segura. Na segunda, Alexandre Herchcovitch, agora na direção criativa da marca, mostrou o couro e o jeans trabalhados, reforçando a imagem de uma mulher forte e decidida. Tudo o que a gente quer ser nessa vida, não é?!

É bom demais olhar uma coleção e perceber nela, acima de tudo, uma coerência. Às vezes, você pode até não gostar tanto do que vê, mas logo reconhece ali o estilo e até mesmo a história do estilista. Melhor ainda é quando tudo (ou pelo menos 90%) da coleção é lindo. No terceiro dia de SPFW foi assim com a Huis Clos e com Reinaldo Lourenço. Cada um na sua, mas com algo em comum: fazer moda desde os primórdios desse negócio no Brasil – e ainda assim se reinventar mantendo a identidade da marca com a mesma sofisticação. Quem conhece ou já viu a estilista Clô Orozco sabe exatamente o quanto dela tem em cada peça. As formas amplas e desestruturadas, os tons neutros e a classe de mulheres que não gostam de uma sensualidade óbvia. Com Reinaldo, acontece o mesmo. Ele faz roupas para mulheres modernas, cosmopolitas, e consegue deixar todas chiquérrimas, mesmo usando botas cowboy. Prova de que quem tem talento não teme correr riscos. Vida longa aos bons. Eles merecem!

O quarto dia do SPFW foi marcado por acontecimentos inusitados. Alguns deles bons e outros nem tanto. A começar pelo desfile da Raia de Goeye. As estilistas optaram por fazer uma apresentação bem intimista, para pouquíssimos e seletos convidados, na própria loja. Sinto muito por quem ficou de fora, mas tenho que admitir que gostei da idéia. Sem aquele burburinho, sem aquela disputa constrangedora por assentos, sem celebridades e longas esperas. Toda a nossa atenção voltada apenas para a roupa e as modelos (que estavam lindíssimas). Um desfile curto, mas que deu o seu recado. No meio da tarde, fiquei admirada de ver a coragem da estilista Fabia Bercsek. Ela cantou junto com sua banda enquanto acontecia o desfile. O cabelo sempre cobrindo o rosto deixava no ar a dúvida: seria timidez ou atitude de roqueira? De qualquer forma, achei muito corajoso porque agradar esse bando de “fashionistas” não é fácil! Por fim, o estilista Lorenzo Merlino teve seu camarim invadido e esvaziado por policiais minutos antes do desfile começar. Boatos no “corredor press” davam conta de pendengas na justiça por causa de questões trabalhistas não resolvidas. Enfim, o grand finale: André Lima fez bonito dando um tempo das estampas e apostando numa profusão de pretos chiquérrimos!

Se do lado de fora da Bienal uma chuva fina e fria caía sem parar, do lado de dentro a temperatura também não era lá muito animadora. Foi bem morno o penúltimo dia do SPFW. O início prometia, com o desfile da Cavalera, que apesar da locação escolhida (margem do rio Tietê), trouxe uma roupa bem mais bacana do que as coleções anteriores. Destaque para os vestidos longos xadrezes ou listrados. Depois veio a Carlota Joakina, com sua moda casual, comercial, mas supergracinha. À partir daí, os termômetros começaram a despencar. Com coleções pouco elaboradas, não sofisticadas e um tanto quanto autorais, Erica Ikezili e Wilson Ranieri não acertaram a mão dessa vez. Nem mesmo a Neon escapou. Com uma apresentação bem menos empolgante que as anteriores, parece que chegou a hora de Dudu e Rita se reinventarem. Queremos ver mais, mas não do mesmo. Ponto para os tricôs e as formas mais secas. Samuel Cirnansck quase chegou lá, com suas mulheres aristocráticas que oscilavam entre longos volumosos e curtos justíssimos. Mas eis que surge a Ellus, com seu jeitão rock’n’roll para injetar um sopro de vigor e juventude nessa dia morno. Tudo lindo: cenário, trilha sonora, casting, direção de cena, cartela de cores. Ótima mistura entre o peso do couro envernizado + a leveza de vestidos curtos de organza e gase com babados meio que retalhados. Tudo acessorado por muitas tachas e lindas botas afiveladas. Do jeito que nós, urbanóides, amamos.

Finalmente chegamos ao último dia de SPFW. Agora vem a pergunta que não quer calar: quais as principais tendências desse inverno? Voilá: o que dá para notar é que as coleções estão cada vez mais autorais e menos focadas na moda que é lançada lá fora. Cada estilista está buscando um caminho próprio, nadando contra a corrente, tentando conferir mais identidade às suas criações. E o resultado disso é um mix de vontades, mais do que de tendências. Mesmo assim, alguns temas vieram fortes e prometem ganhar as ruas: a cintura alta, os comprimentos mais comportados, os volumes, muito couro e alfaiataria. Os anos 1970 são a década da vez. Aparecem em várias versões, da mais folk à mais clássica. O estilo velho oeste ganha leitura mais sofisticada. As botas e os recortes de inspiração western ganharam até mesmo as roupas com cara de festa. Os tricôs vêm mais pesados, com jeito de feito a mão. O xadrez foi a estampa predominante e o preto reinou absoluto. Nos pés, botas e sapatos abotinados e masculinos, e também os do tipo boneca. Só uma coisa ninguém discute: o salto continua grosso. Agora é só esperar o frio chegar e decidir qual vai ser seu look favorito. Eu já sei o meu!



