Mudança de ares
Que loucura mergulhar no inverno quando os termômetros batem os 32 graus! Mas é sempre assim e a verdade é que nós adoramos saber antes (para poder contar para vocês antes!) o que a gente vai usar quando o frio chegar. Aqui na Bienal, mesmo com esse calorão, o povo da moda já ensaia usar um sapatinho abotinado, uma calça de cintura alta, um vestido longo bem setentinha. Nesse primeiro dia, além das coleções, o burburinho que agitou a primeira fila foi a compra de grifes importantes – Alexandre Herchcovitch, Zoomp, Fause Haten, Ellus — por grandes corporações. A moda está mudando de mãos. O impacto, certamente positivo, que isso terá no mercado só o tempo vai mostrar. Mas como essa reviravolta muda nossa vida, consumidoras ávidas pelo look do momento? Basicamente, junto com a injeção de capital nas marcas, tudo se profissionaliza. A princípio, ganham os estilistas, que têm mais dinheiro para investir em materiais e produção, além da possibilidade de dar maior vazão às suas fantasias criativas. E ganhamos nós, consumidoras, com produtos de melhor qualidade e mais opções de compra. Então, que sejam bem-vindas as mudanças! E por falar nelas, as coleções também apontam numa direção bem diferente do estilo pueril mostrado neste verão. Agora tudo indica um retorno triunfal da Mulher, com M maiúsculo mesmo pra deixar bem claro o nosso poder! Nada de microvestidos em A, manguinhas fofas e aquela silhueta que deixa a gente com eternos 15 anos. Nada de desconfortáveis calças skinny e cós baixos demais. Agora é hora de apostar na elegância das pantalonas, nas saias e vestidos mais comportados, justos ou não, e ainda de se deixar seduzir pela silhueta sexy-chic com ares de diva holywoodiana. Muita cintura marcada e alfaiataria bem cortada misturadas a jaquetas bomber e perfecto para dar o toque moderno que pedem nossos tempos. Eu já caí de amores pelos paletós de smoking que viram vestidos e dispensam maiores complementos. E você?
Susana Barbosa
editora de moda de ELLE
foto Toscani
O inverno é para mulheres que sabem o que querem
O segundo dia esteve agitado, com a presença das tops mais badaladas do mundo: as brasileiras Raquel Zimmerman (na Animale) e Carol Trentini (na Zoomp). A canadense Coco Rocha (de quem todo mundo não cansava de falar, mas que quase passou despercebida entre as nossas beldades) pisou na passarela pela Zoomp. Outra personalidade do mundo da moda que chamou a atenção foi Vivienne Westwood. Durante uma coletiva para a imprensa, a estilista inglesa declarou que o ideal é comprar menos e melhor. Certa ela. Consumismo demais às vezes pode ser sinal de personalidade de menos. Por falar em mulheres poderosas esse foi o espírito dominante do segundo dia. Destaque para a Animale e para a Zoomp. Na primeira, o náilon trabalhado dava um aspecto de couro a casacos, calças e jaquetas, para fazer qualquer mulher encarar o inverno firme e segura. Na segunda, Alexandre Herchcovitch, agora na direção criativa da marca, mostrou o couro e o jeans trabalhados, reforçando a imagem de uma mulher forte e decidida. Tudo o que a gente quer ser nessa vida, não é?!
Susana Barbosa
editora de moda de ELLE
foto Toscani
Quem sabe, sabe!
É bom demais olhar uma coleção e perceber nela, acima de tudo, uma coerência. Às vezes, você pode até não gostar tanto do que vê, mas logo reconhece ali o estilo e até mesmo a história do estilista. Melhor ainda é quando tudo (ou pelo menos 90%) da coleção é lindo. No terceiro dia de SPFW foi assim com a Huis Clos e com Reinaldo Lourenço. Cada um na sua, mas com algo em comum: fazer moda desde os primórdios desse negócio no Brasil – e ainda assim se reinventar mantendo a identidade da marca com a mesma sofisticação. Quem conhece ou já viu a estilista Clô Orozco sabe exatamente o quanto dela tem em cada peça. As formas amplas e desestruturadas, os tons neutros e a classe de mulheres que não gostam de uma sensualidade óbvia. Com Reinaldo, acontece o mesmo. Ele faz roupas para mulheres modernas, cosmopolitas, e consegue deixar todas chiquérrimas, mesmo usando botas cowboy. Prova de que quem tem talento não teme correr riscos. Vida longa aos bons. Eles merecem!
Susana Barbosa
editora de moda de ELLE
foto Toscani
Um show à parte!
O quarto dia do SPFW foi marcado por acontecimentos inusitados. Alguns deles bons e outros nem tanto. A começar pelo desfile da Raia de Goeye. As estilistas optaram por fazer uma apresentação bem intimista, para pouquíssimos e seletos convidados, na própria loja. Sinto muito por quem ficou de fora, mas tenho que admitir que gostei da idéia. Sem aquele burburinho, sem aquela disputa constrangedora por assentos, sem celebridades e longas esperas. Toda a nossa atenção voltada apenas para a roupa e as modelos (que estavam lindíssimas). Um desfile curto, mas que deu o seu recado. No meio da tarde, fiquei admirada de ver a coragem da estilista Fabia Bercsek. Ela cantou junto com sua banda enquanto acontecia o desfile. O cabelo sempre cobrindo o rosto deixava no ar a dúvida: seria timid