Beleza, Lifestyle

Estamos trocando a busca pela perfeição pela aceitação a qualquer custo?

“Empreendedora, escritora, palestrante, comunicadora e mística”, assim começa o perfil de Nuta Vasconcellos no Instagram. A lista de descrições na rede, no entanto, é muito pequena para abarcar um detalhe específico: a força que tem o empoderamento feminino e coletivo que ela vem influenciando desde 2008, quando criou o GWS — hoje um espaço online e físico de desenvolvimento de mulheres. “A vontade de ajudar mulheres a se conhecerem melhor e se amarem mais já estava no DNA do GWS e em mim. Mas foi só em 2010 que eu publiquei o meu primeiro texto no blog, falando sobre autoestima e a resposta dele foi tão mágica que não parei mais de escrever”, conta em entrevista à ELLE.

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Entre os movimentos em prol da autoestima feminina liderados pelo GWS está o #terçasemmake, de 2014, que tinha como intenção ajudar mulheres a se libertarem da ideia de que elas só estariam apresentáveis e bonitas ao usar maquiagem.

Um pouco depois, no entanto, Nuta percebeu que para que as mulheres transformassem suas visões de si era preciso ir além. “Eu recebia e recebo muitas mensagens do tipo: “Eu sei que você está certa, admiro como você se sente, mas não consigo me sentir diferente.” Por isso, ela criou o Chá de Autoestima em 2015, um projeto composto por conversas, exercícios e ferramentas palpáveis para desenvolver a autoestima.

O que faz o conteúdo do projeto ir além é a visão específica de Nuta sobre desconstrução, sobre o que compõe a autoestima, como ela é mais profunda do que imaginamos e como o caminho até ela é um caminho no qual a culpa é, aos poucos, deixada de lado — para que a intuição entre em cena. “Muitas meninas no final do evento falam: ‘era exatamente isso que eu precisava ouvir.’ E acho que o universo leva sim para o nosso caminho o que a gente precisa, quando estamos atentas para ouvi-lo.”

Conversamos com a Nuta sobre autoestima, rotinas de beleza, saúde mental e feminismo. Confira:

O primeiro texto que você publicou sobre o assunto é de 2010. Muita coisa mudou de lá para cá? Como você interpreta o momento que estamos vivendo hoje? 

Nossa, muita! Para começar, naquela época não era comum blogs falando sobre autoestima, feminismo, autoconhecimento, éramos poucas e esse assunto não era muito valorizado. Hoje, o tema está em todo lugar, em todas as plataformas. Então acredito que mais gente está entendendo a importância de falar sobre autoestima e de ler, ouvir sobre isso.

Acho que esse interesse veio da compreensão que a relação que temos com nós mesmas muda tudo. A construção da autoestima não é só importante para nossa relação com o espelho. Como eu digo no Chá de Autoestima, isso é somente a ponta do iceberg. A construção do nosso amor próprio, a compreensão de quem nós somos de verdade é vital para construirmos relações saudáveis, para correr atrás dos nossos objetivos, para sermos bem sucedidas e felizes.

O Chá de Autoestima não é um projeto conformista. A mudança é positiva e é normal o desejo de mudar nosso corpo, nossa realidade, nossa vida. O que temos que entender é da onde vem esse desejo, se o seu estímulo está sendo o mais positivo para você e principalmente entender por que essa mudança ainda não aconteceu de forma saudável. São várias camadas que temos que tirar de cima da gente para realmente trabalhar o amor próprio.

Às vezes, o que acho prejudicial é que em alguns momentos há um novo tipo de cobrança. Em 2010 precisávamos ser magras, ter certos tipos de roupa e bolsas, maquiagem impecável e hoje e em 2018 em alguns momentos sinto um novo tipo de pressão no ar. A de se aceitar a qualquer custo, a maquiagem deu lugar a ter uma pele perfeita e qualquer tipo de dificuldade em se amar e se aceitar, seja com algum traço da personalidade ou com o cabelo, ou corpo, algumas mulheres sentem até vergonha em expressar porque parece que virou obrigação ser empoderada e consciente. Tem muito foco no resultado e pouca compreensão do processo. E acho que isso pode ser prejudicial para muitas mulheres, que podem continuar se sentindo cobradas demais por algo que não conseguem ter e sentir.

Eu também gosto de escrever e quando vou falar sobre mim, às vezes me questiono se minha história pode comunicar algo a alguém. Para você, como foi sentir que sua história ressoava e que um projeto poderia impactar outras mulheres? Qual foi o “clique”?

Eu acreditei na minha intuição. É a frase que eu criei e uso no GWS: Toda garota tem algo incrível para mostrar pro mundo. Eu fui me observando, entendendo o meu valor e qual impacto e diferença eu poderia fazer para o mundo e para outras mulheres. Meu clique nasceu da coragem de externar o que meu sexto sentido me falava mesmo. Foi assim que colocamos o GWS no ar e todos os projetos dele. Acreditando que pessoas tinham interesses parecidos, problemas parecidos e estavam na busca de se conhecer melhor ou simplesmente saberem que não estavam sozinhas.

Sua historia sempre pode comunicar. E sempre vai existir alguém precisando ouvir exatamente o que você tem para dizer, que provavelmente somente você vai saber externar de uma forma que toque aquela pessoa no coração. Nosso grande poder é sermos nós mesmas. É como diz a frase: Só você é você e esse é seu super poder. E eu acredito demais nisso.

Nuta Vasconcellos em campanha da marca de roupas de praia carioca Cosmo Swim (Kenny Hsu/Cosmo Swim/Reprodução)

Você acha que hoje estamos também relacionando muito coisas de beleza — tipo máscaras, cremes, dias no spa — com beleza e autoestima? O que você acha disso?

O mercado vai sempre dar um jeito de vender autoestima. Quando estamos atentas e conectadas com nós mesmas, caímos menos nesse conto. É um exercício. Acho que o autocuidado é sim uma parte do quebra-cabeça que constrói o amor próprio. Beleza, estética é uma parte, mas como eu disse, somente a pontinha do iceberg. Temos que ficar atentas para não cair no conto que vai sempre existir, apensas mudando de roupa: autoestima se constrói de fora para dentro. Vão sempre vender a ideia que você fazendo algo em você exteriormente vai fazer com que você se sinta diferente por dentro, e não vai. A estética é um paliativo para quem quer trabalhar o amor próprio.

Qual é sua rotina de pele e de maquiagem? Você tem rosácea, certo? Quais são os seus cuidados com a pele nesse sentido?

Tenho algumas doenças de pele: queratose pilar, dermatite atípica e rosácea. De dia eu lavo rosto com gel de limpeza para peles sensíveis. Minha pele é mista e eu sempre usei muita coisa para pele oleosa para controlar a oleosidade, o que deixava a rosácea muito pior porque a maioria dos produtos para pele oleosa contém álcool o que faz muito mal para peles sensíveis. Foi minha dermatologista que me fez mudar esse detalhe na minha rotina que fez toda a diferença.

Depois que lavo, gosto de borrifar um tônico para peles sensíveis ou agua termal. Depois de seca, eu passo um sérum com ação anti-inflamatória, antisséptica e cicatrizante. E depois uso o protetor solar que também tem que ser específico para quem tem pele sensível ou com rosácea. Os melhores são os protetores solares físicos porque esse tipo reflete a luz. À noite, lavo com o mesmo gel de limpeza, tônico e uso a fórmula que minha dermatologista desenvolveu para mim com base de ácido hialurônico e chá verde. Uma vez por mês faço em consultório com a luz intensa pulsada e gosto de fazer a cada duas semanas uma máscara de argila branca, a melhor para peles como a minha. Mas acho que a melhor rotina de autocuidado é beber água, se alimentar bem e não ter a paranoia da pele perfeita.

Maquiagem no dia a dia tenho usado cada vez menos: um BBcream, máscara de cílios, iluminador e hidratante nos lábios . Quando sinto vontade de me maquiar gosto de base, um batom, carrego mais no iluminador! Maquiagem é para ser divertido. Só tento tirar sempre a maquiagem quando chego em casa, mas não me torturo seum dia cheguei cansada ou com preguiça. Acho essa cobrança do “tem que fazer” qualquer coisa muito prejudicial para nossa saúde mental. Tem dias que você vai querer se maquiar mais, dias que não, dias que vai querer dormir com a pele limpinha, dias que vai ter preguiça. Entender o nosso organismo e respeitar nosso tempo é fundamental até nas pequenas coisas. A gente carrega muita culpa desnecessária e carrega uma mochila pesada para coisas que poderiam ser bem mais leves.

Estamos vivendo também esse momento de “aperfeiçoar” tudo. A pele, o cabelo, os pelos… Como viver bem, ter a cabeça no lugar, no meio de tantas influências dessas?

Quando estamos atentas e conectadas com nós mesmas esses modismos e imposições da mídia nos afetam cada vez menos. É um exercício, não é do dia para a noite, mas o único jeito de mudar o mundo é mudando a si mesma. A TV e as propagandas serão sempre para te convencer que você precisa melhorar algo, ter algo, ser algo. Quando a gente olha para dentro e entende quem nós somos na essência, o que queremos e como queremos traçar nosso caminho, essas interferências diminuem. Vivemos na era da comunicação mas nos comunicamos muito pouco com nós mesmas. Está na hora de termos conversas honestas com a gente, de ter autorresponsabilidade e assumir as rédeas da nossa vida. Quando trabalhamos esses pontos e esperamos menos que o outro mude, que a mídia mude, que as lojas mudem, conseguimos ter mais a cabeça no lugar.