Mulheres na arte: conheça o trabalho de 3 tatuadoras brasileiras

Três artistas com estilos diferentes falam sobre feminismo, representação e a luta por reconhecimento no universo da tatuagem.

O mundo está acostumado a ser estudado por um olhar totalmente masculino — o famoso e presente “male gaze”. Quando o tema é arte, essa visão se intensifica e o espaço feminino se reduz mais ainda. Seja na escola ou no ambiente universitário, aprender sobre história da arte é um exercício constante de tentar se enxergar e nunca se encontrar de fato. Faça um rápido teste no Google e digite “Pintoras mulheres”. Pode até ser que você reconheça Anita Malfatti, Tarsila ou Frida, mas tirando essas figuras mais populares, quantas artistas mulheres você realmente conhece? Se digitarmos “Pintoras negras” então…

Leia Mais: As tatuagens dos fashionistas

No universo da tatuagem não é diferente e diversas profissionais talentosas precisam se dedicar duas vezes mais do que os homens para conseguir reconhecimento. E elas contam quem, em alguns casos, mesmo depois de anos de carreira, são obrigadas a lidar com o machismo. Por isso, antes de optar por riscar a pele, que tal procurar um pouco sobre o universo das tatuadoras? Conheça o trabalho de Pétala, Scarlath e Suliée.

Pétala Cavalcanti

Você é poderosa.

A post shared by Pétala Cavalcanti (@petalacavalcanti) on

Encontre seu equilíbrio 🌿

A post shared by Pétala Cavalcanti (@petalacavalcanti) on

Diretamente de Curitiba, Pétala Cavalcanti sempre se interessou por desenho. Herança de sua avó costureira e dos constantes incentivos da mãe. Atualmente, ela é dona de um estúdio em sua cidade e também passa temporadas tatuando em outros lugares do País. Mas seu primeiro kit básico de tattoo foi comprado com R$ 300, fruto do trabalho como diagramadora freelancer para um jornal local. Depois de dois anos e meio na estrada, Pétala já está mais consolidada profissionalmente. Mesmo assim, ela acredita que é preciso se atualizar frequentemente. “Na arte você não consegue parar e falar: ‘pronto, é isso, cheguei onde eu queria’. Todo dia estudo e procuro coisas novas”.

E apesar dos lindos trabalhos e de 13,1 mil seguidores no Instagram, a artista ainda passa por situações constrangedoras apenas por ser mulher. “Tenho um estúdio no centro e ele é de fácil acesso. Quem quiser acaba entrando e isso acontece constantemente quando estou sozinha por lá. Muitas pessoas questionam onde está o tatuador, perguntam se é preciso falar comigo para marcar horário com ele ou se eu sou a secretária”, desabafa.

Pétala, porém, destaca o senso de coletivo. “Nós, mulheres, temos que nos ajudar bastante porque somos as únicas que vão apresentar essas coisas e nos dar oportunidades.” A artista também não tem dúvidas em se considerar uma feminista e acredita que a arte de tatuar pode falar sobre feminismo. “Eu tento sempre levar minha arte para construção de figuras femininas fortes, livres e representativas de amor, liberdade e força. Existe muito isso de tatuar essas figuras em mulheres que precisam se sentir resistentes. A tatuagem é uma construção estética muito importante e ela ajuda bastantes as mulheres a se reconstruírem. Como artista negra, ela também marcou e ainda marca as minhas clientes negras que precisam representar isso na pele”.

Suliée Pepper

O trabalho autoral de Suliée Pepper, que é formada em Desenho Industrial, mistura muitas categorias da tattoo, como ela mesma explica: “Não saberia ao certo definir, faço uma mistura de Realismo, Aquarela, Trash Polka e Neo Tradicional”. Quem dá um scroll em seu perfil no Instagram se derpara com traços que fogem do delicado ou do minimalismo. Quando questionada sobre o preconceito de mulheres fazendo desenhos mais fortes e realistas, Suliée dispara: “Acredito que isso é apenas mais um estereótipo. Mulheres tatuam Old School com traços bold tão bem quanto qualquer homem. Eu, por exemplo, adoro tatuar caveiras, demônios e trabalhos mais trevosos”.

Há 15 anos na cena da tatuagem, ela afirma que já passou por momentos delicados, desde ser diminuída até lidar com assédio de clientes. Para a artista, o mundo da tatuagem ainda é muito machista. “A maioria pensa e age como se nosso trabalho fosse inferior. Em compensação, cada vez mais temos a união de mulheres do nosso meio, divulgando e apoiando umas às outras. Estamos nos fortalecendo”.

Atualmente, Suliée trabalha sozinha e divide a sala com o amigo tatuador Bruno Timbó, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Há aproximadamente cinco anos, ela é dona de um projeto para mulheres vítimas do câncer de mama. Todo mês, recebe clientes que tiveram a doença e oferece uma tatuagem gratuita. Algumas optam por tatuar os seios, outras desenham na cicatriz ou até refazem as sobrancelhas. A artista, que se considera feminista, acredita no poder comunicacional da tatuagem. “A arte da tattoo pode sim falar sobre feminismo, ser parte da nossa luta. Ou até mesmo mostrar que somos tão competentes e profissionais como qualquer homem. E sim, podemos ser até melhores”.

Scarlath Louyse

– Tudo bem sentir 😊- . . Obrigada Amanda! 🌻 . . . scarlathlouyse@gmail.com

A post shared by Scarlath Louyse (@scarlathlouyse) on

Toda mulher que está sozinha lutando diariamente pela própria independência e que precisa reunir forças para viver no mundo, por si só, tem o feminismo dentro dela.” Scarlath Louyse já atua como tatuadora há quatro anos e viaja o mundo com seus desenhos, procurando retratar sensibilidade nos trabalhos, todos autorais. Para ela, a arte acabou sendo reflexo de si mesma, e por isso é possível encontrar muitas mulheres em seus desenhos. “É uma prática que eu tenho desde criança, nós buscamos referências artísticas no nosso inconsciente. A tatuagem para mim acabou sendo uma representação de quem eu sou e de como me sinto”, explica.

Infelizmente a artista também já foi alvo de críticas e machismo na cena. Em muitas ocasiões, quando está viajando para convenções e apresentando seus trabalhos, Scarlath precisa lidar com esse preconceito. “Dói no ego de alguns tatuadores saber que tem alguém tatuando, mas que não depende de um homem para isso”, comenta. “Às vezes, perguntam qual tatuador é o meu marido e qual foi o homem que me ensinou a consertar minhas máquinas”.

E apesar de seu olhar poético e de sua autoconfiança, no passado ela não se enxergava assim. “Minha relação com meu corpo foi difícil durante a adolescência, por me achar esquisita demais ou inadequada demais. Muita leitura, paciência e auto-conhecimento me fizeram buscar outros assuntos que não a domesticação dos nossos corpos, e me fizeram usar meu próprio corpo como suporte para artes e modificações.” Scarlath realmente acredita que a tatuagem pode ser um instrumento poderoso contra nossas inseguranças. “A tatuagem ajuda com a autoestima e cria um escudo de confiança, ela tem poder de mostrar às pessoas quem elas são, sem vaidade. É uma forma de liberdade corporal através da arte.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s