#PéNaPorta: Amanda Schön

A beauty artist do momento conta sua trajetória e dá dicas para quem quer entrar no mundo da beleza.

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Amanda Schön (Divulgação/Divulgação)

Pele crua, lábios, pálpebras e pontos da face muito avermelhados: um dos signature looks da beauty artist Amanda Schön pode ser reconhecido à distância. A paulista de 31 anos é feminista e não hesita em compartilhar sua visão inovadora de maquiagem: não para esconder ou mascarar o que é conhecido como “imperfeição”, mas sim enaltecer a personalidade de quem recebe o make e, por que não, se divertir com a beauté.

A beleza criada por ela  faz parte de um novo momento da moda e do mundo, no qual se pede um respiro de todas as regras acumuladas ao longo dos anos. E não é que a decisão natural de sair do comum conquistou o mercado, as marcas, os clientes e os modelos…?

Ao retirar o fardo da beleza inatingível da maquiagem, Amanda chegou com o #pénaporta no mundo da moda. Por isso, ela é a primeira entrevistada da nossa nova seção, dedicada à conhecer mais sobre as pessoas que inseriram uma marca muito pessoal e diferente em seu trabalho — e que também desejam abrir caminhos dando conselhos e dicas para quem sonha em entrar nesse mundo. Com vocês: Amanda Schön!

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Amanda Schön (Divulgação/Divulgação)

Como você passou da publicidade para o mundo da moda e da beleza? 
Cursei publicidade, e no mesmo ano passei em um processo seletivo para trabalhar no banco (fui gerente por 8 anos!) Apesar de eu nunca ter trabalhado com publicidade de fato, sempre apliquei em tudo o que aprendi. A transição de bancária-publicitária foi muito difícil. Primeiro que eu sou de São Bernardo, e aqui o sucesso profissional é muito associado a fazer uma faculdade, terminar a faculdade trabalhando na área e de preferência em uma empresa que você possa trabalhar para sempre. Então apesar de eu já ter uma coisa diferente, de desde criança eu ter um lado mais artístico (eu pintava, queria fazer peças de teatro, esculpia, escrevia…), eu nunca olhei para essas coisas como uma possibilidade.

Um dia eu fui em um salão em São Bernardo do Campo cortar o cabelo para a formatura, e depois me maquiei lá mesmo. O profissional que cortou meu cabelo elogiou minha maquiagem, e perguntou se eu já tinha pensado em trabalhar com isso. E foi aí que eu me toquei que isso poderia ser uma profissão pra mim. Passei semanas indo até lá para conversar com ele até que ele me chamou para ser assistente dele nos finais de semana. Mesmo com o banco de segunda a sexta e dois filhos pequenos eu aceitei o convite e comecei as jornadas aos sábados e domingos.

Depois esse profissional, que é o Edu Hyde, começou a fazer seus primeiros portfólios de moda (até modelo dele eu fui!), cheguei a me agenciar. Mas gosto mesmo é do backstage! Nessa altura os finais de semana não eram suficientes e eu matava trabalho no banco para poder acompanhar ele. E assim foi durante anos.

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beleza-amanda-schön Beleza de Amanda Schön para o Verão 2018 de Adriana Degreas

Beleza de Amanda Schön para o Verão 2018 de Adriana Degreas (Divulgação/Divulgação)

Você lembra de algum caso especial? 
No meio disso teve o episódio de uma fotógrafa caloteira! Eu peguei dinheiro emprestado e montei uma malinha express para fazer fotos de mais ou menos 20 mulheres em 3 dias. Nunca vi a cor do pagamento, fiquei mal, foi um balde de água fria. Mas deixei passar, segui o baile.

E como você conquistou cada vez mais espaço? 
Quando fui demitida do banco, montei uma nova mala com o dinheiro da rescisão e me matriculei em um curso do Senac — além de garantir coisas como escola dos filhos por um ano. Mas como eu trabalhava com o Edu todos os dias, eu perdia muitas aulas. Apesar do bom rendimento eu não consegui o diploma. O começo foi difícil, já que o trabalho de assistente não dava grana. Lembro de fazer compras para o mês e ter que abrir mão de muita coisa, mas eu não conseguia pensar em desistir. Aos poucos as indicações começaram a rolar, eu comecei a fazer books e daí surgiram as primeiras oportunidades de fazer imagens para portfólios.

beleza-amanda-schon Beleza assinada por Amanda Schön para Caroline Funke

Beleza assinada por Amanda Schön para Caroline Funke (Divulgação/Divulgação)

Como você acha que uma pessoa outsider pode entrar no mundo da beleza? 
Eu acho que rolou pra mim porque tinha muita vontade, eu queria muito aquilo então fazia tudo com muita iniciativa e energia. Sempre fui atenta a tudo que rolava ao meu redor. Não só sobre beleza, mas sobre luz, acting, casting, sobre o trabalho de todo mundo no set, da câmera ao diretor de arte. Eu sempre busquei entender um pouco do que cada um estava fazendo ali e como nossos caminhos se cruzavam… Eu acho que para entrar nesse mercado tem que ter um diferencial. Mostre o quanto você pode contribuir, seja atento e tenha preciosismo. E o mais importante, mantenha os pés no chão. A moda é efêmera, e se a gente é tomado por autoconfiança e comodismo, a onda passa e a gente fica pra trás.

Quando eu comecei a trabalhar sozinha aqui em São Paulo eu não estava pronta. Não somente pela maquiagem, mas eu não tinha segurança, eu me sentia intimidada, preterida, fora que eu era gordinha e de São Bernardo, e senti que duvidavam da minha competência por isso — além de ser mulher, porquê nesse mercado não é fácil para nós. Mas quando eu saí do banco fiz uma promessa: nunca mais adoecer por causa de trabalho, e sou fiel a essa promessa até hoje. O Rio de Janeiro apareceu na minha trajetória, me apaixonei e fiquei com a ideia de ir morar lá na cabeça. Comecei a buscar fotógrafos, stylists, modelos e outros maquiadores na internet. Pesquisei a beça sobre o mercado e comecei a mandar portfólios. Na mesma semana recebi convite para ir para lá e fazer um trabalho. E assim foi por dois meses. Para ir pra lá de vez, vendi tudo o que tinha em casa. Comecei denovo por lá o que tinha acabado de começar aqui, porém com outro ritmo. Fiquei lá por quatro anos, trabalhei bastante, pedalei muito na orla, chorei muito vendo o pôr-do-sol no arpoador. Tive tempo para me conhecer melhor,  entender quem eu era e o que eu gostava. Até que eu não cabia ali novamente. Desenvolvi minha estética, mas não tinha espaço para ela no Rio. Vendi tudo lá e voltei.

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Foi depois que você voltou do Rio que começou a assinar desfiles, certo? Como foi isso?
Aqui o que foi bom é que conheci pessoas que acreditavam no meu trabalho, como o Pavarotti e o George Krakoviack. Os materiais autorais que eu fiz com eles foram rodando o mercado e aos poucos foram chegando nas mãos das pessoas. Até que um dia o Ro Costa me chamou para fazer equipe de um desfile no Rio. Chegando lá ele me disse que estava me seguindo no Instagram e que achava meu trabalho lindo, mas não tinha associado o nome à pessoa. Depois disso ele me apresentou para outras pessoas, o Pedro Sales e o Zee, que acabaram me chamando par outros trabalhos. Foi na Abrand, com direção do Zee e styling do Pedro que eu estreei no SPFW assinando desfile.

Eu não sei dizer para você como eu me senti, porque até hoje eu me emociono de lembrar como foi receber o convite e quando tudo confirmou. Era um sonho. E ainda estava entre amigos! Foi uma choradeira só, porque somos assim, a gente se emociona mesmo e apesar de muita gente não entender, eu amo! Amo me emocionar e sou grata com tudo o que acontece, amo ver as pessoas que eu amo se emocionando junto comigo, e vencendo os desafios do meu lado.

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 (Divulgação/Divulgação)

Você acha que temos mais abertura para experimentar na moda e na maquiagem, nesse momento, no Brasil?
Eu acho que esse é um movimento que está acontecendo não só no Brasil, mas no mundo. Acho que toda essa provocação e essas informações, toda essa identificação que as mulheres começaram a ter umas com as outras, de entender seu lugar de fala, de entender quem elas são e o que elas de fato representam na sociedade, feminismo, e todas as ferramentas de opressão em cima delas, está transformando as coisas.

O mercado de beleza é mais focado em mulheres, somos as maiores consumidoras, até mesmo porque a publicidade já é direcionada para nós e conhecida como um item feminino — só que de uma maneira muito repressiva, nos colocando dentro de caixas, incentivando todas a ficarem com a mesma cara, escondendo tudo o que é possível e imaginável. E isso é o que a gente entendia como maquiagem, como se maquiar, como se apresentar para as pessoas assim que acordamos. E toda essa discussão e descobertas recentes estão fazendo as mulheres perceberem o que elas de fato gostam. E começou a rolar um movimento sobre não nos rendermos à maquiagem. Essa mulher que estão dizendo que eu tenho que ser, eu não tenho que ser, e eu gosto de maquiagem e eu quero me divertir com ela. Maquiagem é cor, é textura, é diversão e expressão.

Isso gerou uma chacoalhada no mercado, assim como a beleza está sendo ressignificada, corpos estão sendo ressignificados, nesse momento começamos a compreender o que gostamos. E eu acho incrível, porque isso te dá uma liberdade muito maior. Pessoas que não usavam começam a usar maquiagem, porque elas entenderam que elas não precisam mudar o rosto delas por inteiro, e ficar com quilos de maquiagem, e associar isso a um padrão de beleza, mas que elas podem se divertir. É um momento incrível de busca da própria essência e da própria personalidade, em um mercado que antes era muito quadrado, uma loucura de regras e padrões. Acho que temos que aproveitar esse momento para nós, mulheres, dizermos o que realmente gostamos e quem somos nós, usando maquiagem.

beleza-amanda-schon Beleza para o desfile da Osklen

Beleza para o desfile da Osklen (Divulgação/Divulgação)

O que uma pessoa que quer ser maquiadora deve fazer para poder entrar com tudo nesse meio?
Eu diria para fazer tudo! Estude, faça cursos, assista a filmes, estude história da arte, design, música, história… Pratique sempre que puder, erre muito, sem medo, identifique suas fraquezas e seus pontos fortes. Use as mídias sociais a seu favor, tanto para pesquisa quanto para mostrar seu trabalho. E faça assistência! Não menospreze a importância de fazer assistência. Faça o máximo que puder e faça com amor. Assistência é estágio, e é nele que você aprende tudo. Se possível, faça para mais de uma pessoa. Isso ajuda a somar conhecimentos, práticas técnicas e coisas diferentes que vão te ajudar a desenvolver a sua própria. E nunca ignore seu estado emocional. Fale sobre ele, cuide dele, busque equilíbrio.

E o que você, Amanda Schön, busca em um assistente?
Eu tenho assistentes, ex-assistentes que agora são equipe e pessoas que fui conhecendo o trabalho e incorporando no que eu tomo a liberdade de chamar de time. Eu procuro gente do bem, com boas intenções e energia legal. Gente interessada, atenta e cuidadosa, procuro observar nas pessoas que trabalham comigo se elas tem o mesmo preciosismo que eu.

O que você diria para quem está buscando o segredo para criar um estilo próprio de maquiagem?
Eu diria para a pessoa manter a cabeça fresca, para não buscar as referências em outras pessoas, nem mesmo na moda, para olhar pro lado, para o que acontece na festa que ela vai, ou que os amigos vão, o que ela assiste, nas culturas de outros países e na nossa própria. Busque referência nas mais diversas coisas e não tenha medo de experimentar! Tentar se conhecer o máximo possível, isso ajuda a entender o que de fato você gosta, e não se prender ao que outras pessoas gostam. Tenha personalidade e acredite nela. Experimente muito e se permita! Um cliente pode não entender sua proposta de primeira, mas se você souber defender o que está propondo, a  chance de mudar a opinião dele é muito grande e acredite: é tudo que eles mais querem.

capas-elle-maio-2017 A beleza de uma das capas da edição de aniversário da ELLE, em maio

A beleza de uma das capas da edição de aniversário da ELLE, em maio (Cecilia Duarte/ELLE)

E uma dica para quem quer montar uma mala de maquiagem. Como começar?
Nossa, é um terror! No começo você fala: nunca vou ter uma mala minimamente suficiente, porquê é muita coisa. E hoje eu ainda estou longe de ter a mala que eu quero ter, estou construindo ela de pouquinho em pouquinho. Como a tecnologia de cosméticos está extremamente acelerada, cada dia tem uma novidade, você não dá conta de ter tudo. Então, o que eu recomendo para quem está começando, é investir em pele. É muito importante ter variação de tons. Depois disso, eu investiria em itens coringas, tons marrons e telha, com os quais você pode criar profundidade. É legal ter variedade de batons também, então pegue cores coringa, com essas você consegue fazer misturinhas. Varie nas texturas: matte, cremoso, frost, cintilantes, metalizados e gloss. Foque também em produtos que te ajudem a fazer alquimia, como o gloss, e outros produtos que transformam o cremoso em seco, o seco em cremoso… Eu comecei com uma mala muito enxuta, e apesar de ser muito difícil e de estar longe do que eu gostaria na época, isso me ensinou a me virar com o que eu tinha, então eu fazia muita alquimia. No youtube e no google também tem muita coisa sobre misturar e desdobrar produtos! Versatilidade é chave: os produtos com os quais você pode usar na boca, rosto e olho são incríveis. Segredo: fique craque em improvisar!

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