Entendendo o amor como uma forma de liberdade

Em seu texto de estreia, Djamila Ribeiro escreve sobre o amor que liberta.

No artigo Vivendo de Amor, a intelectual negra norte-americana bell hooks (1) diz: o amor cura. “Nossa recuperação está no ato e na arte de amar.” Meu trecho favorito do Evangelho segundo São João é o que diz: “Aquele que não ama ainda está morto”. Considero lindo esse trecho, pois nos alerta para a importância de olhar para nós mesmas, mas sem perder a questão coletiva de olhar para as outras. Pensar o amor aqui vai muito além desse amor imposto pelas ideologias dominantes. Não se trata de amor romântico no sentido de um homem para uma mulher. Esse amor que muitas vezes nos aprisiona e nos é vendido como a solução de nossa vida, como a validação de nossa vida. Claro que é ótimo ser amada de verdade por alguém, mas o que bell hooks propõe é pensarmos em criar redes de solidariedade entre nós para que cuidemos das relações.

bell hooks se refere, sobretudo, a mulheres negras, aquelas que pelo processo de escravização e racismo foram tratadas com ódio e negadas a viver o amor, a nem sequer serem vistas como sujeitos dignos de amor. Restituir as humanidades negadas por esses processos é um passo importante para entender a importância do amor em nossa vida.

Construir estratégias para superar os embrutecimentos causados pelas opressões seria, para a autora, uma ferramenta de libertação. “O amor precisa estar presente na vida de todas as mulheres negras, em todas as nossas casas. É a falta de amor que tem criado tantas dificuldades em nossa vida, na garantia da nossa sobrevivência. Quando nos amamos, desejamos viver plenamente. Mas, quando as pessoas falam sobre a vida das mulheres negras, raramente se preocupam em garantir mudanças na sociedade que nos permitam viver plenamente.” Nessa parte, bell explica o quanto é difícil construir essas estratégias por causa do olhar que ainda existe sobre nós, o de que precisamos dar conta de tudo, sermos guerreiras, aquelas que somente sobrevivem.

É essencial não ver essas mulheres como as que possuem uma força descomunal ou são inerentemente fortes, pois a maioria precisa ser forte porque o Estado é omisso, porque é obrigada e forçada a. O ideal seria que pudessem ser frágeis, fortes, alegres, tristes. Pudessem sentir as contradições próprias do humano. Por muito tempo, eu me exigi ser forte, ser aquela que dá conta de tudo, que não pede ajuda e chora sozinha. E percebi o quanto esses comportamentos estavam me adoecendo.

Minha mãe e meu pai faleceram num intervalo de um ano – cuidei do meu pai durante seis meses no hospital. Lembro que, quando minha mãe faleceu, a mãe de uma amiga disse: “Não chore. Você precisa ser forte”. Eu tinha apenas 20 anos. Pode ser que ela não tenha falado por mal, mas o conselho, que obedeci, foi preponderante para o meu adoecimento. Afinal, por que eu não poderia viver o meu luto?

No ano seguinte, meu pai faleceu e mais uma vez eu julguei que precisava seguir o tal conselho. Somente anos depois, fazendo terapia, entendi o direito a sofrer. E vivi meu luto como deveria ser: não mais me boicotando ou escondendo minhas emoções. Eu me permiti ser humana. Pois é isto: quando nos colocam como seres que precisam aguentar tudo, nos retiram a humanidade.

Com o tempo, percebi a importância de me amar como sou, de aceitar quem eu era. Ler outras mulheres como eu abriu meus olhos para quem queria ser. Entender o amor como uma prática de liberdade, como diz bell hooks em outro artigo, me fez enxergar a importância da ética do cuidado com outras mulheres. Aprendi a pedir ajuda, a entender que demonstrar fraqueza não era fraqueza em si. Ao contrário. O amor me fez enxergar a potência, pois entendi que amar e ser feliz num mundo que odeia mulheres era uma atitude revolucionária. Eu agradeço a todas as mulheres que não têm vergonha de demonstrar e falar de amor como algo que liberta.

(1) Nascida Gloria J. Watkins, adotou o nome de sua avó e pede que ele seja escrito assim, em letras minúsculas.

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