Marielle, viva

Djamila Ribeiro escreve sobre a morte prematura de Marielle Franco.

Muitos textos já foram escritos sobre a morte prematura de Marielle Franco. Você mesmo já deve ter lido al- guns deles. Mas não posso deixar de falar sobre ela.

Ainda machuca saber o modo pelo qual Marielle Franco foi brutalmente assassinada. A quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro é (falarei no presente) uma grande voz e referência não somente para as mulheres negras mas também para o Brasil. O modo pelo qual tentaram calar essa mulher insurgente evidencia o lado bárbaro desse país, no qual mais se matam ativistas no mundo.

Quando recebi a notícia, fiquei em choque. Não saí de casa por dias. Não conseguia aceitar que a mulher com a qual eu estive por diversas vezes, que a primeira entrevistada num programa de TV que comandei em 2017 tivesse sido vítima de uma violência tão brutal. Lembro de olhar o celular e ver as últimas mensagens que trocamos. Foi estarrecedor ter de lidar com essa realidade. Fiquei em silêncio, não conversei com veículos de mídia, apenas me dei o direito ao luto.

Eu me via em Marielle. Milhares de mulheres se viam nela e sentiram que morreram um pouco também. A tática viva de silenciar quem luta por direitos humanos é uma tática conhecida, mas jamais iremos normalizá-la. Cortou fundo em todas nós e seguirá cortando por muito tempo ainda.

É preciso conhecer quem de fato foi essa mulher, mestra em administração pública, que entregou sua vida à luta. Não podemos permitir que ela siga sendo morta – dessa vez simbolicamente. Independentemente de posições políticas e ideológicas, foi absurdo ver pessoas inventando mentiras para tentar destruir sua reputação. Até comentários maldosos nas redes da filha dela fizeram. Imagino onde foi parar o senso de humanidade dessas pessoas. Me pergunto de onde virá essa tentativa absurda de querer justificar o que não tem justificativa, e pelos piores meios.

Apesar do medo que muitas sentimos, resgato as palavras de Audre Lorde: “O silêncio não vai te proteger”. E foi com Audre Lorde que Marielle terminou sua fala no último evento de que participou, na Casa das Pretas. Disse ela: “Relembrando Audre Lorde, não sou livre enquanto outras mulheres estiverem presas, mesmo que as correntes delas sejam diferentes das minhas”. Acredito que é dessa forma que precisamos nos lembrar de Marielle e manter seu legado. Tendo o entendimento de que precisamos criar uma rede de solidariedade política para enfrentarmos as desigualdades. De entendermos que, por mais que sejamos mulheres, partimos de pontos diferentes e temos realidades diferentes e que é preciso olhar com sinceridade para elas.

De perceber, enfim, como ensina Angela Davis, que podemos enxergar nossas diferenças como fagulhas criativas para repensar a sociedade e criar um novo pacto civilizatório. Os ideais pelos quais Marielle lutava permanecerão vivos em cada quebra de silêncio, a cada denúncia contra violação de direitos humanos, a cada grito legítimo por justiça. Como dizem as mães da Plaza de Maio, na Argentina: “A luta que se perde é aquela que se abandona”.

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